sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Terra dos Corações Estraçalhados

“Um desejo doentio e destrutivo me causou dores e arrependimentos sentidos e me fez absorver lições para uma nova visão de sentimentos expostos. Me lamento ao lembrar desta temporada que se estendeu do ano de 2001 a 2003, um período bastante perturbador. Não lamento pelo sentimento, mas pela maneira como não soube lidar com tamanha obsessão. Quase me perdi no sentir. Emocionalmente irresponsável, eu me perdi num jogo estranho, mas consegui me reencontrar antes do fim. Sinto tristeza ao lembrar do que causei a minha vida naquele momento. Carrego comigo ainda, apenas o que pude aprender. A vulnerabilidade a um estado psicológico confuso pode ser encarada como força depois. Essa vulnerabilidade me ajudou a perceber com clareza o que passei. Me ajudou a falar abertamente sobre o assunto como forma de auto-ajuda, ou seja, quanto mais destilava minhas razões, mais forte me sentia, a medida que os sentimentos esvaziavam-se por si só. Hoje percebi que ninguém mais do que eu mesmo me causei tais coisas. Tudo parece agora tão distante e nada real: as dores, a doença e principalmente a confusão interna causada por uma paixão (sem reciprocidade). E tudo foi deixado para trás. Porém das coisas que me pertencem ainda, guardo comigo o interesse de conhecer e aprender sobre mim mesmo. E encaixo os fragmentos bons em minha personalidade, até porque ela foi moldada a partir de então...”



(Texto de 03 de agosto de 2003): Terra dos Corações Estraçalhados


       Estou nesta terra, a “Terra dos Corações Estraçalhados”. Eu sei que este não é meu lugar, eu conheço as minhas possibilidades e estou condenado por minha própria condenação. Estou no meio do nada, no meio de falsos sorrisos, apenas entupido de vazio. Sobrevivendo ( se é que se pode chamar isso, de bom). Mas este é só mais um dia daqueles em que o ruído rouco das dores sai escondido atrás de cada palavra que digo, escondido na surdez de quem nada ouve, de quem nada sabe. Eu estou nesta terra, a “Terra dos Corações Estraçalhados”, a terra dos cegos da realidade. E como fugir? Como fugir se a fuga é inútil quando sou a própria grade que me prende? Sou prisioneiro de uma escolha insistente, estou desperdiçando meu tempo, mas estou esperando minha vez. Parte do que sou grita calada, metade do que sou apenas respira e um pedaço de mim já está destruído. Isso é auto-retaliação, isso é rejeição própria, já que esta é a terra, a “Terra dos corações estraçalhados”. Não teria como dormir e acordar em outro mundo? Minha ruínas, minhas questões infantis, meu egoísmo gelado, minha hipocrisia barata, meus desejos estúpidos. Eles me machucam, me ferem, me doem, me agridem, me arrebentam. Eles me fazem chorar seco. 
         E este é o hospital da “Terra dos Corações Estraçalhados”. Estou internado há alguns dias. De vez em quando venho parar aqui. Já que ás vezes meus batimentos fraturam alguma veia de meu fraco, mas grande coração. Logo sairei... O que tenho feito de minha vida? O que tenho feito comigo? Estou desconsertado, dependente de outros para minha reconstrução ou talvez não. Sei que sou minha própria cura. Estou perdido, esquecendo de outras coisas que estão a minha volta, esperando por coisas que não virão, andando, correndo, avançando e voltando para o mesmo lugar. Quem poderia enganar? Sou hoje parte daquilo que nunca imaginei que seria. Às vezes caio, às vezes me mantenho em pé, já que meus ossos, ao menos eles se mantém firme. Lamentações inúteis... 
     Estou nesta terra, a “Terra dos Corações Estraçalhados”, acredito que se todos soubessem, alguns gostariam de me tirar daqui. Mas para onde ir e por que ir? Antes este, do que lugar algum. No fundo, sei que gosto disso. Alguém pode me dar um bom motivo para sair daqui? Na verdade, acho que não quero sair. Estou bem escondido. Deixem-me aqui, sozinho com minhas dores. Deixar seguir, deixar passar, deixar sentir... O resto? O resto é silêncio.”

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(Texto de 18 de abril de 2001): Nem perto

“Não ficar nem perto de você é meu medo. 
Pensar que não pode acontecer dói no peito. 
Esta é minha própria retaliação, em meu interesse não há mutuo sentimento. 
Minha voz arranha trêmula meu silêncio doído e meu engano, causa meu estado. 
Embora eu já tenha sofrido com isso de várias maneiras, os mesmos pensamentos repetem-se sem parar. 
Ainda que sem paciência te esperaria pela vida inteira, mesmo sem saber o que posso esperar. 
Não ficar nem perto de você é meu medo.
 Pensar que não pode acontecer, já dói no peito. 
Esta é minha própria punição, mas ainda posso disfarçar com bebidas e divertimento. 
Este é meu sacrifício, este é meu falso domínio. 
Minha esperança é minha fiel companheira. 
Meu desejo, meu atual caminho. 
Eu estaria me lamentando se dissesse que preciso de atenção urgente? Eu estaria me humilhando se falasse que tua presença já é suficiente?
 Não ficar nem perto de você é meu medo.
 Pensar que não vai me querer dói no peito.
 Esta é minha própria condenação, já não sei como esconder meu sofrimento. 
Onde está minha reação? Não me jogue no abismo da solidão, não me deixe mal, nem me vire ao avesso.
Já que agora eu sou o tempo e você, minha obsessão.”

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Reeditado 21/04/2015