segunda-feira, 15 de junho de 2009

O coração da casa

      Ela está cheia de marcas no rosto. Marcas registradas intra-pele pelo cansaço de uma vida que custa a dar certo. Está cansada pelos últimos quarenta anos. Tempos de “passar trabalho”. Tempos em que teve que engolir a tristeza, a pobreza, o marido ausente, bêbado e inconsequente. Ela teve que carregar nos ombros suas crias paridas. Teve que ensiná-los sem nenhuma instrução. Ela está cansada, desde aquele tempo. Tempo em que suas pernas ainda eram firmes e a sua bravura era mais bem vista. De recompensa, apenas ver os filhos crescendo. Quantas lágrimas ela expulsou? Quantas trancou? Ela está cansada da rotina esmagadora, cansada de servir, de não ganhar nada em troca, além de novas tarefas cotidianas. Cansada de suas próprias doenças, cansada da doença dele. Ele, o esposo. Cansada de “não ter algo a mais”. Cansada de não poder comprar mais, gastar mais, mover-se mais. Ela está ao meu lado agora, tomando seu café com altas doses de reclamações. Reclamações compreensíveis. Olhos lacrimejantes, olhar parado, fixo em alguma lembrança recorrente das histórias que me conta. Cabeça doendo, visivelmente deixando ser vencida. Mas o que o tempo faz com uma pessoa? Por que o passado ainda a afeta tanto? Quanto tempo leva para cicatrizar (e não poeticamente falando)? Eu gostaria de curar suas feridas ainda em aberto! Arremessar sua tristeza longe, mostrar-lhe que suas culpas já não fazem sentido algum, ensinar-lhe que ela será recompensada sim por toda sua luta interna. Por ter nos carregado no colo, em fila, guiada por nossa sobrevivência: seus filhos (no tempo em que não podia contar com ele). Eu apenas receio pelo pouco tempo, eu receio ser impotente, eu receio por sua desistência. Mas eu a aplaudo pela sua coragem, por todas as adversidades enfrentadas, pela grande perseverança. Saúdo o seu passado, aplaudo sua dignidade e a abraço e agradeço ainda assim por toda força que ela representa!

sábado, 13 de junho de 2009

Hippie-Zen

(texto de janeiro de 2005) “Gosto do meu silêncio, do que sou quando estou dentro dele... Ouço minha mente, minhas palavras pensadas, meu eu que em algumas partes só eu mesmo conheço... Gosto de estar em algum lugar quando estou assim, algum lugar simples, algum abrigo. De estar na janela sentindo o vento no rosto, vendo as folhas das árvores se esfregarem, observando o horizonte, uma nuvem qualquer em movimento, o sol ou simplesmente seus raios refletidos, ou olhando lugar algum. Apenas sentindo esta sensação que me faz sentir grande, maior do que realmente sou. É tudo tão simples e comum, vejo as coisas de um outro jeito, com paciência e compaixão. Sinto minha paz de espírito, a mesma que na maioria das outras vezes, parece funcionar apenas na teoria (falo muito mais nela do que a realmente uso, embora tenha uma total inclinação direcionada a este lado da espiritualidade, de minha própria espiritualidade, de minha busca por aprendizados). Gosto de me sentir assim. De me sentir leve, vulnerável, com uma grande ânsia de ajudar outras pessoas, de querer que se orgulhem de mim, de estender a mão, de reconhecer meus erros, de tentar acertar, de aceitar certas coisas, de entender minha própria trajetória, meus sentimentos, minhas emoções, aquilo que constrói minha personalidade, meu caráter... Gosto de ouvir minhas canções preferidas, de senti-las com meu espírito, de me inspirar através delas, de usar o sentido das letras, de me sentir por perto mesmo com o olhar distante... O silêncio de uma mente que fala calada, que pensa, questiona, lembra, critica ou induz o riso à boca, ou faz chorar através das lagrimas dos olhos... (me sinto emocionado aqui)... Mente! Tão misteriosa. Levaria vidas para olhar para dentro e tentar conhecê-la totalmente. É a parte do corpo que mais me assusta e a que mais tenho curiosidade em aprender. Estruturar pensamentos, porém manter certa confusão: “Pobre de quem nunca teve dúvidas, pois isso significa que nem se quer teve opções para escolher”. Aprendi... Absorvi em minha vida... Gosto desse meu silêncio, de ficar quieto, de buscar sabedoria ou não pensar em nada... (me sinto bem aqui)... Meio hippie, zen: tentando encontrar eu mesmo, gosto de me expressar calado, de expressar serenidade em meu rosto, de sentir o impacto psicológico de uma simples parada no dia sentindo o vento, o ar da natureza, pensamentos de amor, de compaixão, ajuda e otimismo. Gosto dessa parte em mim, desse meu lado introspectivo, voltado a mim mesmo, a corrigir minhas grandes falhas, a tentar destilar mágoas. Desse meu lado que mostra o quão grandioso eu poderia ser se soubesse como levar minha vida, meu eu interior, minhas ações, atitudes, emoções e sentimentos, direito. Se soubesse sempre o que fazer, o que dizer àquelas pessoas que estão ao meu redor, minha família, meus grandes amigos, meu amor. Se soubesse como não magoá-los com meu outro lado tão contrário a esse. Enquanto isso... silêncio. Senti-lo e aproveitá-lo em momentos como estes. Vesti-lo. Meu silêncio que pensa, meu silêncio que me ajuda, que ri e ás vezes chora, que às vezes chora muito, que deseja coisas boas, meu silêncio positivo. É o que depois, daqui a pouco, me torna melhor, uma pessoa melhor, pelo menos até perdê-lo, mas até lá, tudo começa de novo, dias, noites e... Mas enquanto isso apenas silêncio... O silêncio é uma lacuna, um espaço, uma pausa na gritante voz falada, mas que na verdade nunca está em “branco”... A mente nunca se cala...”

quinta-feira, 4 de junho de 2009

As minhas informações

     Tudo em mim, quer dizer alguma coisa! O estilo de roupa que eu uso, a forma desgrenhada como corto os meus cabelos, os discos que eu prefiro, os filmes que mais gosto, as tatuagens em meu corpo. Todas essas coisas são pra que mesmo que eu não explique coisa alguma, elas gerem informações sobre mim que cada pessoa apropria-se à sua maneira. O porquê me interesso tanto pelas letras da Alanis Morissette, o porquê a música do Radiohead me transporta para outros lugares, o porquê há na minha sala um canto que batizo de “espiritual” com alguns Budas e artefatos Zen, o porquê uso uma camiseta do Los Hermanos, o porquê sou doador de sangue ou autorizei a doação dos órgãos, o porquê o filme Na Natureza Selvagem é deveras quase um filme de minha própria vida, o porquê considero Eddie Vedder um de meus sábios. Por que escreveria, se não na ânsia de mostrar mais informações a meu respeito? Talvez até para mudar algumas, ou criar outras, talvez para esclarecer tantas. 

     Outro dia observei o quanto ando cada vez mais maníaco e doentio em relação ao tempo. Fico contando as horas das coisas que eu faço: trabalho tantas horas, me alimento em tantos minutos, chego em casa, me sobra um tempo para passar com o amor da minha vida, que diminui até a hora de nós jantarmos, mais outros instantes no computador, hora de ir para cama, para que dormir tanto tempo? E então me reviro e logo levanto, volto pra sala pra fazer algo! Leio alguma página dos quatro livros que estão com a leitura em andamento, escrevo sobre algum assunto... As pessoas precisam dividir o tempo quase que inconscientemente: o tempo de trabalhar, o tempo de conversar com alguns amigos, o tempo de ligar para a família, o tempo para a diversão, o tempo para os problemas...Tempo, tempo, tempo, minha doença psíquica! E então, como geramos essas informações para outras pessoas, estive me auto analisando. Tenho estado com uma necessidade imensa de organizar minhas coisas. Como se então, esse chamado tempo, tivesse me pressionando diariamente. Se tenho textos inacabados, quero terminá-los logo; as outras tatuagens que pretendo fazer, tem que ser pra logo, aquela caixa cheia de recortes, tenho que arrumar de uma vez (coisas pequenas e sem tanta importância). E no fundo todas essas coisas a serem feitas, são pra que outras pessoas possam, ao encontrá-las ou percebê-las, entender melhor todas as partes que existem em mim. É pra lerem um texto meu e pensarem: “Não sabia que ele pensava assim” por exemplo. E nessa relatividade das coisas, pessoas e ações próprias, acabo por acumular muito daquilo que sinto necessidade de expressar. Seja escrevendo, falando ou dando a entender. É que eu sou um amontoado de informações ambulante e só não quero partir sem que antes as pessoas obtenham algumas das minhas informações que julgo mais importantes. Menos ainda, sem que depois disso, acrescentem as suas! 

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Reeditado em 22/04/2015