domingo, 5 de julho de 2009

O trem das lembranças

   Assistindo pela vigésima vez o DVD Storytellers da Alanis Morissette, dia desses, prestei atenção em uma parte em específico. O DVD trata-se de um showcase que alterna músicas e perguntas da platéia. Quando perguntada sobre se havia alguma música que a cantora considerava difícil de cantar, ela comenta que “You oughta know” -música em que fala de um relacionamento mal sucedido- era muito difícil de cantar, pois a cada vez que ela cantava, estava relembrando repetidamente de uma situação que não havia sido boa. Partindo dessa linha de raciocínio, fiquei questionando, o porquê às vezes ficamos relembrando de coisas que não foram confortáveis. Por que determinadas situações ruins, nos vêem a tona de forma tão nítidas? E por que não existe um canal onde pudéssemos desviar a atenção de tais coisas? A verdade é que há esse canal! Mas às vezes parece que aquela discussão que tivemos há três anos se vivencia em nossa memória como se fosse há duas horas; aquela mágoa de um amigo íntimo de tempos atrás rompe a barreira das lágrimas por uma música ouvida há minutos e aquele seu erro gigantesco de meses, vem perturbar seu sono como se houvesse ocorrido no dia anterior. Por que não usamos o canal de saída? A tal válvula de escape? Por que canalizamos isso de uma maneira negativa que nos traz inclusive dores no corpo?

     Ultimamente tenho repetidamente me lembrado do que não foi bom. Lembrado de erros meus, de erros dos outros comigo e isso faz com que eu tenha ora pensamentos de raiva, ora de autopunição. Nessa mistura de lembranças, sentei em frente ao meu velho roupeiro enquanto estive visitando minha casa (onde ainda moram meus pais) e ainda estão lá, colados na porta do lado de dentro, fotos de algumas bandas. Ainda estão lá, amareladas, desbotadas, na idade de oito anos.  Cada colagem me remetendo a algum fato, lembranças impregnadas em uma velha porta de roupeiro. Lembrei inclusive do cheiro da “cola” usada naquelas fotos. Fechei os olhos e me senti ali, há cerca desses oito anos atrás, enquanto ouvia a música “Stop this train” do John Mayer repetidamente no fone de ouvido.  “Pare esse trem...”, engraçado, soava como: “pare esse trem das lembranças...”, mas elas estavam vivas, em minha frente e fizeram com que eu sentisse falta de alguns amigos, amigos desde a infância, que a vida adulta foi aos poucos afastando. Eu me enxerguei com “ELE” ali, sentado na pedra em frente a minha casa, “na minha pedra”, em nossas divertidas conversas repletas de bobagem e música; eu me vi com “ELA”, sentado na grama quando por acidente cortei dois dedos da mão direita, sem querer, com uma faca, enquanto contávamos segredos só nossos; eu relembrei “DA OUTRA” em nossas tardes cheias de boas conversas. E eu senti um grande aperto e uma saudade que há muito tempo não sentia igual. E então pensei que daqui pra frente, devo lembrar retidamente das coisas tão boas que passei com essas pessoas e com todas as outras que me relacionei. A verdade, é que por vezes várias, mantive o foco apenas dentro de minha perspectiva. Viajei, apenas segundo minhas concepções e o momento de agora tem me mostrado, que muitas coisas aconteceram devido a esse egocentrismo. Agora, que já aprendi a lidar melhor com o meu orgulho, preciso aprender ao menos a prestar mais atenção no que as situações, ligadas a mim, afetam também as outras pessoas. Quem sabe assim, eu aprenda a ser menos egoísta. Quem sabe assim, eu deixe de ter emoções egoístas e quem sabe assim, consiga me desculpar, por todo esse egoísmo. Tenho feito esse questionamento interno. Eu preciso repetidamente lembrar que “esse trem das lembranças”, ele não pára. Ele é a continuidade do tempo que passou e que às vezes passa em alta velocidade e em outras tende a andar com calma nos trilhos. O “trem das lembranças” às vezes “apita” alto e incomoda, em outras vezes deixa o silêncio necessário após o barulho que causou. Eu preciso saber como não deixar esse trem apenas passar. E eu preciso é aprender como então, fazer parte dessa viagem sem sentir-me apenas sentado nesses trilhos, caído de algum vagão...

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Reeditado em 22/04/2015

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