quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Síndrome do Arrependimento e Sofrimento Antecipado

     Incrivelmente, com o passar do tempo fui adiquirindo a tal "SÍNDROME DO ARREPENDIMENTO"! Se ela não existe, passa a existir apartir de agora. Minha insatisfação consciente por minhas buscas e escolhas, acabam sempre por me jogar dentro desta síndrome. Minha testa ferve, borbulhando pensamentos. Eu não páro de pensar, um só instante. Até me cansa! Planejo, crio, relembro, desconstruo, reconstruo. Se fecho os olhos, sinto acima deles este peso. Outro dia vendo um progrma de TV, um entrevistado comentou que inclusive adianta o relógio em 12 minutos, para quando alguém lhe perguntar as horas, ele ter de forçar a mente a fazer a conta retirando os tais minutos para assim dizer a hora certa. No alto de seus quase 70 anos, ele afirma que ações como esta ajudam a deixar a mente sempre funcionando. Mas e para ela parar de funcionar um pouco, como faço? Não. Não adiantou fazer Yoga, nem meditação. Até tentei, mas quando via, até cantarolando alguma música eu estava. O problema ,é quando esse turbilhão de pensamentos que não cessa, age dentro de sua cabeça de uma maneira negativa. Já escrevi sobre isso, mas me sinto aos 26 com a carga de alguém de 40 anos. E quando eu experenciar os 40? Minhas preocupações terão que idade? Sempre procuro ser o mais centrado possível, às vezes sinto até que responsável demais. Me permito arriscar até os 30 anos, vendo nos 28, a linha vermelha. Então porque me preocupo tanto com o dito futuro? Porque não aproveito o momento completamente, nunca? Quem me conhece de perto, sabe que sou assim.
        De tempos em tempos crio o meu chamado "Periodo de isolamento interno", então me afasto, me recolho. Contudo, é esse periodo que me ajuda a reciclar as coisas, reavaliar minha postura, focar minhas buscas, solidificar meus propósitos. Me olho no espelho, me tenho velho! Como dizer que sou despreocupado se as linhas estão fundas, me cortando a testa? Li certa vez em algum lugar uma frase interessante: "Uma testa sem marcas é sinal de indiferença". Mas e cinco linhas bem demarcadas, significam o quê? Significam todas as escolhas erradas, todos os fracassos, todos os choros, inclusive os prantos, todos os arrependimentos principalmente com sofrimento antecipado, sendo que às vezes nem aconteciam. Significam preocupações não necessárias por coisas que nem sempre estão ao próprio alcance. E a tal vulnerabilidade? E o tal ambiente? Sinto que tentei fazer o meu melhor nos últimos três anos da minha vida, tentei mudar, tentei alcançar, tive grandes conquistas, boas alterações emocionais, pessoais, enfim. Mas tenho que aprender a maneira de não me arrepender tanto das coisas já que isso me violenta internamente... E no final, eu só pensei que quero minha testa sem linhas, de volta!!!

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Reeditado em 21/15/2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os nossos guardados





     Ainda tinha guardado o primeiro cartão que recebeu. De quando tinha apenas dez anos de idade e desse tempo já se passaram dezesseis! Era tarde de chuva, quase noite, monótona como todas as tardes de chuva quando não se tem as pessoas que gostaria por perto. Lembrou da velha caixa de guardados. Guardados estes que nas férias passadas foi recusando a ideia de arrumar. Sempre escreveu muitas cartas, pois escrever sempre foi seu hábito cotidiano, e sempre recebeu várias retribuições. Guardava todas aquelas palavras escritas, para ler em tardes como esta, tardes de saudade. Tarde de sentir as pessoas por perto, mesmo longe. Ali diante dele, todos os cartões e frases amontoadas em doses altas de carinho, amor, amizade. Como se livrar daquilo? Como jogar fora sinceras palavras de tempos vividos? Respirou fundo. Pôs-se a ler, procurando os melhores parágrafos. De alguns sentiu um grande aperto, de outros até riu. De todos sentiu muita saudade. Decidiu então olhá-los mais uma vez antes de jogá-los fora. Dessa vez, ao contrário de como em uma outra já havia feito, esse "jogar fora" era apenas por limpeza, não emocional. Era a forma de ter o passado somente nele. A forma de ninguém mais saber o que havia de escrito naquelas tantas linhas que recebeu durante esse tempo precioso de sua vida. Algumas pessoas lhes confiavam segredos, não necessários aos olhos de outros. Algumas pessoas lhes contavam coisas intimas demais através delas. Quantos bilhetes ensopados de admiração recebeu. Resolveu guardá-los apenas em sua memória, tão fraca para as coisas corriqueiras, mas tão funcional às coisas vividas, sentidas. Guardou com os olhos os tantos "Eu te amo" vindo de pessoas mais diferentes, montadas com amores diferentes. Irmãs, sobrinhos, amigos... Guardou com os olhos as cartinhas tão amáveis dizendo "Você é o melhor tio do mundo!". Quase engasgou. "Te levo comigo onde eu for, sem ti por perto, não tenho chão", "Você é meu anjo, meu talismã, o melhor irmão que alguém poderia ter!"... E tantas outras coisas escritas que lhe encheram os olhos, o ego, a emoção. Despediu-se de uma a uma, agradeceu internamente por todas. Colocou em uma sacola grande e deu outro destino à elas. As gavetas ficaram vazias. A memória, completa. Pensou na vida, agradeceu as pessoas que já teve, as que ainda tem e sorriu! Ainda escreverá muitas cartas, ainda receberá alguns retornos, mas sempre terá guardadas em si todas as palavras que ler. No fundo guardamos essas coisas para contemplar a nós mesmos, para recordar, para nos fazer lembrar que fomos e somos amados, que fomos e somos muito importantes para os outros, ou para alguns desses outros. Elas servem para tocar, sentimentos "não tocados", servem para ouvirmos pianos ao fecharmos os olhos. Mas não há agora, mais o porque guardar todas aquelas cartas, não há mais o porque de tê-las amontoadas em sua gaveta quando se pode apenas manter o sentimento nelas conectados, quando se pode apenas guardá-las no coração...