sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os nossos guardados





     Ainda tinha guardado o primeiro cartão que recebeu. De quando tinha apenas dez anos de idade e desse tempo já se passaram dezesseis! Era tarde de chuva, quase noite, monótona como todas as tardes de chuva quando não se tem as pessoas que gostaria por perto. Lembrou da velha caixa de guardados. Guardados estes que nas férias passadas foi recusando a ideia de arrumar. Sempre escreveu muitas cartas, pois escrever sempre foi seu hábito cotidiano, e sempre recebeu várias retribuições. Guardava todas aquelas palavras escritas, para ler em tardes como esta, tardes de saudade. Tarde de sentir as pessoas por perto, mesmo longe. Ali diante dele, todos os cartões e frases amontoadas em doses altas de carinho, amor, amizade. Como se livrar daquilo? Como jogar fora sinceras palavras de tempos vividos? Respirou fundo. Pôs-se a ler, procurando os melhores parágrafos. De alguns sentiu um grande aperto, de outros até riu. De todos sentiu muita saudade. Decidiu então olhá-los mais uma vez antes de jogá-los fora. Dessa vez, ao contrário de como em uma outra já havia feito, esse "jogar fora" era apenas por limpeza, não emocional. Era a forma de ter o passado somente nele. A forma de ninguém mais saber o que havia de escrito naquelas tantas linhas que recebeu durante esse tempo precioso de sua vida. Algumas pessoas lhes confiavam segredos, não necessários aos olhos de outros. Algumas pessoas lhes contavam coisas intimas demais através delas. Quantos bilhetes ensopados de admiração recebeu. Resolveu guardá-los apenas em sua memória, tão fraca para as coisas corriqueiras, mas tão funcional às coisas vividas, sentidas. Guardou com os olhos os tantos "Eu te amo" vindo de pessoas mais diferentes, montadas com amores diferentes. Irmãs, sobrinhos, amigos... Guardou com os olhos as cartinhas tão amáveis dizendo "Você é o melhor tio do mundo!". Quase engasgou. "Te levo comigo onde eu for, sem ti por perto, não tenho chão", "Você é meu anjo, meu talismã, o melhor irmão que alguém poderia ter!"... E tantas outras coisas escritas que lhe encheram os olhos, o ego, a emoção. Despediu-se de uma a uma, agradeceu internamente por todas. Colocou em uma sacola grande e deu outro destino à elas. As gavetas ficaram vazias. A memória, completa. Pensou na vida, agradeceu as pessoas que já teve, as que ainda tem e sorriu! Ainda escreverá muitas cartas, ainda receberá alguns retornos, mas sempre terá guardadas em si todas as palavras que ler. No fundo guardamos essas coisas para contemplar a nós mesmos, para recordar, para nos fazer lembrar que fomos e somos amados, que fomos e somos muito importantes para os outros, ou para alguns desses outros. Elas servem para tocar, sentimentos "não tocados", servem para ouvirmos pianos ao fecharmos os olhos. Mas não há agora, mais o porque guardar todas aquelas cartas, não há mais o porque de tê-las amontoadas em sua gaveta quando se pode apenas manter o sentimento nelas conectados, quando se pode apenas guardá-las no coração...


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