sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Na Natureza Selvagem (Into the wild)_Meu filme preferido: uma grande filosofia de vida!

      "Dois anos sobre a Terra. Sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, sem cigarros. LIBERDADE TOTAL. Um viajante radicalmente naturalista, que tem morada na estrada. Agora, depois de perambular dois anos, vem a aventura final e grandiosa, a apoteótica batalha para assassinar a falsa criatura interior e a conclusão vitoriosa da revolução espiritual. Sem ser envenenado pela civilização, ele escapa sobre a Terra para perder-se na natureza selvagem." (Alexander Supertramp, maio 1992).
     Esta foi a frase entalhada em uma madeira deixada por Christopher McCandless - o qual usou o codinome "Supertramp" - em um velho ônibus intitulado "Ônibus Mágico" que servira de abrigo, durante sua experiência no Alaska. Eis o enredo do filme que marcou minha vida "Na natureza Selvagem [Into the wild]". Ele é inspirado na história real de Christopher, um jovem que após concluir seu curso de faculdade, abandona a vida de conforto para buscar a liberdade pelos caminhos do mundo. Doa todas as suas economias, cerca de U$24 mil para a caridade, coloca uma mochila nas costas e parte para o Alaska a fim de viver uma verdadeira aventura e um desafio supremo.
      Quase um ano e meio depois de assistir o filme pela primeira vez (seu lançamento foi em 2007), reassistí-lo foi um grande prazer. Em minha obsessão por música, novamente assisti ao filme apenas por saber que toda trilha sonora era assinada por Eddie Vedder, um de meus ídolos, vocalista do Pearl Jam. Músicas que moldam o personagem do filme sob uma filosofia única, se tornando a trilha da minha própria vida. E de novo tive a mais grandiosa surpresa, já que cada filme que escolho somente por sua trilha sonora, tem me mostrado as melhores histórias que eu já assisti. A história aqui, trata de uma visão sobre a vida diante da sociedade e da sociedade diante dessa vida. É um filme reflexivo, inteligente, impressionante e profundamente belo, interagindo com paisagens incríveis. É uma fuga daquilo que se foi programado pra ser. É uma fuga daquilo que os outros esperam de nós em tempo integral. As pessoas já nascem com essa pressão: ser o melhor que puder; ir o mais longe que puder; voar o mais alto; ser o mais rápido; ser o mais forte que puder; ter a ambição pelo posto de primeiro lugar; ter destaque. Correr, correr, correr e se dar bem na vida! "O meu filho será Doutor!" Projeções inaceitáveis para uma criança que se quer abriu os olhos. Projeções daquilo que não foi realizado geralmente pelos pais,  atravessam gerações como se fossem parte de uma maldição capitalista. O personagem do filme, apesar de seus vinte e dois anos, aguentou até onde seu limite permitia, a vida que talvez, seus pais sonhavam à ele. Até que se cansou também das imposições da sociedade. Afinal o que é ser alguém na vida? Ele estava no caminho certo, aquele caminho moldado nas receitas, com se fosse ordem médica. Porém o melhor aluno, que teria uma carreira brilhante, pensou se realmente seu futuro promissor lhe traria alguma felicidade. E decidiu, ser feliz sozinho. Preferiu ficar longe de tudo aquilo que moldava a vida que ele não optou ter: lhe fora incumbido. Preferiu a distância. Quis provar que era possível viver fora dos parâmetros da sociedade. Aventurar-se, ganhar sabedoria. E quando voltasse dessa viagem, publicaria um livro, baseado em seu diário de bordo e concluiria o seu próprio estudo sobre a vida. Deixou que as outras pessoas vivessem suas mentiras em algum lugar onde ele não se fizesse presente: a família perfeita, o trabalho perfeito, as crianças perfeitas, a vida como tinha de ser, perfeita! Cada cena, evoca um questionamento automático do cérebro. Não há como simplesmente assistir sem fazer parte.
     E então eu, assistindo o filme pela segunda vez, me senti do mesmo jeito, da maneira exata como me senti naquela primeira vez. Numa mesma situação de quase rendição ao sistema: "procurando mudar de vida, de emprego, de renda, de reclamações, de fisionomia". Às vezes, acredito que eu não pertenço a esse mundo do "ter de, adquirir". Eu não quero nada além do que possa me manter. Eu não nasci para construir nada consistente. Nada sólido. Não preciso de muito. Aliás de quase nada: me manter em "meu canto", ter um sustento, uma estabilidade, segurança. Sem consumismos. Tenho os móveis e objetos em casa necessários para minha passagem por esse plano, para minha interação, nada além do que é básico. Mas se posso viver com esse básico, por que eu quis mudar de cidade? Porque eu quis ter além do que eu já tinha? Que garantia eu busco nisso tudo? Melhorar, melhorar, melhorar.Pra quê/ Por quê/ Pra quando?
     A sedução capitalista que envolveu parte dos meus últimos textos, é o veneno que corre ao lado e é base do pensamento que leva o filme. Esse paradoxo entre minha liberdade e a estrutura de vida que eu poderia ter me dilacera, me desmonta, me degrada. Então, eu tento buscar o ponto de equilíbrio. Quantos de nós não sente vontade de pôr uma mochila nas costas e seguir com ou sem rumo? Esquecer desta vida fabricada desde criança, esquecer algumas regras, esquecer o olhar dos outros. Esquecer da dita "sociedade-controladora-manipuladora", dos julgamentos, do dinheiro, do dinheiro, do dinheiro. Mas será que não bastaria apenas mudar a maneira de como enxergamos as coisas? "Admitir que a vida é guiada pela razão é destruir a possibilidade de viver". Deveríamos nos permitir a usar mais nossas emoções. Há um bom tempo ando descontente com os rumos que as coisas tomaram,  com os passos incertos que dei, com a vida que fui criando pegando atalhos. Talvez não seja a vida, seja apenas eu. É que apesar de todas as conquistas sempre há algo que falta. Como se algumas lacunas estivessem ali, nunca a serem preenchidas. Ou talvez foi o desgaste de energia de todas essas conquistas que me tornaram assim. Ou talvez, esteja apenas cansado. Se essa luta é o que impulsiona a vida, não sei. Sei apenas que no fim das contas, nos dá alguma que outra sabedoria. Esse estado de descontentamento é imensamente pessoal. É assim que me sinto quando mexo com minhas dúvidas. É assim que me sinto a cada risco tomado, embora do medo, jamais queira me desfazer por completo. "O âmago do espirito do homem advém de suas experiências."
     No agora, entendo que é sempre mais poético assistir a história dos outros. Eu não sairia no agora com uma mochila nas costas. Até porque a filosofia da liberdade é emocionalmente encorajadora mas racionalmente não é sustentável por um longo tempo. Eu sentiria falta do café quente, da coberta limpa, do barulho do chuveiro, de acordar ao lado de quem se ama e traçar os planos do fim de semana. Eu sentiria a minha própria falta! Porém pensar em liberdade, é pensar em seguir em frente: "A liberdade e a beleza simples são boas demais para desistir." Para alguns só se pode ser livre depois de ter tudo: não pra mim. A história de "Na natureza selvagem" me serve como uma válvula de escape. Cenas de uma vida que ousou seguir o caminho contrário das coisas, contada no hoje como proeza de um passado mas que segue tão junto à minha própria linha de raciocínio, que consigo me ver por diversas vezes, dentro do filme. Eu me sinto cumplice. Eu me sinto ali, como em minhas tantas fugas internas. Subindo a montanha, atravessando o rio, reaprendendo. Como se o isolamento trouxesse a iluminação. "Não se pode negar que a liberdade sempre nos extasiou. Está associada à nossa mente como fuga da história da opressão e das obrigações entediantes. LIBERDADE ABSOLUTA!"
     Talvez seja necessário para nosso próprio espírito experienciar a solidão provocada, opcional. Nem que seja por um tempo. Nem que seja para sair da fila esmagadora dos afazeres, de nossas indignações. Vivendo uma vida paralela possível, sem pressões, sem apegos, sem sua própria espécie ao redor. Nem que seja para "não ter que", nem que seja como autoanalise. Ou nem que seja pra olhar pra trás e entender que a felicidade só é verdadeira quando compartilhada.

Guaranteed_Eddie Vedder

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