terça-feira, 5 de outubro de 2010

"E tudo ficou tão claro e o que era raro ficou comum"

      Ontem entendi um dos tantos porquês de estarmos neste plano. Em um fato pessoal em específico, percebi que estamos nesta vida para uma troca. Uma troca de ajuda e energia. Como somos arranjos temporários, temos de usufruir de nossos atos o quanto pudermos. Como é bom ser chamado de "anjo" quando na maior parte do tempo somos humanos errôneos demais. Como é boa a sensação de poder estar no momento certo quando alguém que se ama está precisando muito de sua ajuda. Ontem na verdade foi um dia emocionalmente e espiritualmente recompensado. Fiquei o dia todo divagando sobre o quanto a vida coloca e retira situações extremas do caminho de cada um. Me senti espiritualmente útil. Cheguei em casa, sentei em meu canto espiritual e tive uma conversa tão cheia agradecimentos e também de pedidos positivos em relação a quem estava precisando de boas energias. E agradeci muito aos meus amparadores por minha condição atual. Percebi ainda, ou tive ainda mais convicção de que esta vida é feita de muitas fases. E quando alguém está numa fase ruim, sempre tem a impressão de que durará "eternidades", mas por experiência própria, elas jamais duram mais do que o necessário. As nossas ruínas são o princípio de nossa transformação. 

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A atividade da paz



     Estive visitando o Templo Budista Khadro Ling situado em Três Coroas, que há algum tempo desejava. Foi na verdade um pequeno retiro de um dia e meio longe "da cidade". Não sou budista. Não estudo o budismo nem o pratico diariamente, apenas vejo em alguns pontos dessa filosofia, um atalho maior para que espiritualmente eu me sinta melhor. E tem funcionado desde que "atalhei" por esse caminho. Conhecer o centro foi incrível! O lugar em si seria uma paz total, não fosse a quantidade de pessoas que o visitam. Mas para quem é praticante e tem durante a semana, o centro como refúgio, não há por perto, lugar mais interessante. Sua arquitetura, seus Budas, sua localização lá no alto da montanha, é realmente um Templo que evoca os sentimentos mais puros. Mas não sei porquê, mexeu menos comigo do que eu imaginava. Enquanto estava lá na verdade refleti sobre outras coisas. Será que é necessário seguir rumo à outros lugares para sentir paz? Será que realmente é necessário um isolamento para encontrar o equilíbrio? Não seria isso chamado fuga? Se não há contato diário com pessoas, certamente não haverá atritos em sua vida. Esse paradoxo ainda me deixa confuso. Se o isolamento traz a iluminação, a troca de energia entre as pessoas serve exatamente pra quê? E porque a felicidade não pode ser partilhada com uma ou mais pessoas e ainda assim atingirmos a tal iluminação? A paz, ao meu ver está dentro de cada um em tempo integral, ainda que escondida. Acredito que temos é que encontrar o melhor caminho para usufruir dela. Ultimamente sinto paz em outras coisas que faço e que não estão associadas necessariamente a um retiro espiritual - embora tenha vários períodos de isolamento interno. Sinto paz quando consigo ajudar alguma pessoa que pede a minha visão de alguma situação, e principalmente quando a minha visão das coisas realmente ajuda de forma válida. Sinto paz quando ouço alguma de minhas músicas favoritas. Sinto paz, quando tudo está dando certo, sinto paz quando estou sentado em minha casa descansando, sinto paz quando cumprimento alguma pessoa sorrindo, quando dou e recebo um abraço verdadeiro. Sinto paz quando eu digo a alguém o quanto é importante em minha vida e ouço o mesmo em recíproca. E algumas vezes não sinto paz, quando por exemplo meus irmãos estão em atrito por motivos que deviam ter sido extremamente bem resolvidos, quando meus pais mesmo em um momento de doença acabam não ajudando a si próprios tanto quanto deveriam, quando há sempre uma reclamação e nada do que se faz está realmente bom. Não sinto paz quando estou magoado ou magoei algum amigo, não sinto paz quando me relaciono com pessoas difíceis. Quando há algum problema em meu trabalho, quando sinto que minha ajuda não é suficiente para o melhoramento de algo e ainda assim alguém espera alguma resposta que não sei dar. Ou quando todos esses sentimentos estão na verdade conturbados dentro de mim. Sei também que a raiva é um veículo perfeito para o exercício da paz. Saber lidar com ela é sabedoria pura! O que precisamos é abrirmos um espaço dentro de nós para abrigar as coisas positivas e desejar que esse espaço seja sempre maior do que o local onde inevitavelmente armazenamos o que é negativo. Ainda que eu não tenha sentido o que buscava sentir lá em cima naquele templo, indico à todos a fazer uma visita ao alto daquela montanha. Certamente servirá para algum tipo de reflexão. Mesmo que no meu caso tenha sido uma reflexão contrária àquela que eu procurava. Talvez por que sem saber exatamente, naquele momento eu já estivesse com minha dose certa de paz. Que cada um esteja sempre no caminho da melhor verdade. Isso já é mais do que paz. É paz e meia. É simplesmente estar!

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Reeditado em 22/04/2015

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Comparações

       Até meus 15/17 anos fui sendo sempre comparado a meu irmão. Fato! Temos uma diferença de idade que atinge nove anos de idade. Ele era apontado pra mim como "o cara" que trabalhava desde cedo enquanto eu, sendo ainda uma criança, escolhia o serviço. Ele era "o cara" que cumprimentava a todos os vizinhos da minha rua, enquanto eu era quem passava de cabeça baixa. Ele era "o cara" que transava com todas as mulheres e eu ainda era virgem. Ele era definitivamente "o cara". E eu, apenas o irmão mais novo sendo colocado involuntariamente num "status" de "o diferente da família". Na verdade fui sendo julgado em uma fase em que não deveria me preocupar com isso. Mas eu era uma criança que desde cedo realmente queria trilhar este caminho "diferente". Fui me tornando um "adolescente" cheio de encanações, com povoações múltiplas morando em minha cabeça, mas certamente porque meus propósitos eram outros, o que foi se confirmando e me tornando no que sou hoje. Só que estas comparações nunca me fizeram bem. Falar abertamente sobre isso é como revelar um segredo. Pois penso que talvez seja por isso que hoje, eu tenha me tornado um jovem-adulto (adulto?) cheio de auto-cobranças, auto-pressão. Sou pressionado por mim mesmo em tempo integral, por minhas convicções. Sou pressionado pelo tempo. Não sou perfeccionista mas tenho um senso de responsabilidade que acaba metralhando às vezes inclusive as atitudes de outras pessoas. Também por isso me frustro ou deprimo facilmente quando as coisas não estão dando certo. Mas esta é somente a minha análise de um defeito que vem estendendo-se há tempos. Admitir essas cobranças como um defeito, me ajuda a lidar melhor com elas. 

      Estive pensando nisso por conta da última viagem que fiz até a casa de minha família. Meu sobrinho se encontra nesta fase em que os pais não sabem o que fazer para que ele tenha mais responsabilidade. Preocupações naturais de pais preocupados com o futuro dele. Mas ele terá a vida toda para ser responsável, terá a vida inteira pela frente para se preocupar com dinheiro, com as contas, com o trabalho, com o sustento. Não adianta moldá-lo. Adianta aconselhá-lo por mais que estes conselhos hoje, entrarão num ouvido e sairão em outro. No depois, serão assimilados e colocados em prática. Não foi assim com a maioria de nós? Eu não pretendo ter filhos, assunto resolvido! Mas à quem deseja tê-los, deixem suas crianças serem crianças, seus adolescentes serem adolescentes, seus jovens errarem. É assim que eles se tornarão adultos íntegros. Quando eles reprovarem nas provas da vida e terem de repetir as aulas. Cada pessoa é diferente e carrega em si uma complexidade única. E cada pessoa deve ser reverenciada por essas diferenças. Nada é igual e ser igual é chato demais. Hoje, fujo de qualquer tipo de comparação, inclusive quando ela se inverte. Quando me comparam positivamente em relação a outra pessoa, isso não é um elogio para mim. É como voltar há um tempo em que atitudes como esta me faziam mal, por eu não ter ainda uma estrutura emocional para lidar com elas. Somos pessoas, e como pessoas, cheios de defeitos e qualidades, onde alguns (desses defeitos e qualidades) se ressaltam mais do que os outros. Somos bons e ruins. Somos seres humanos! E por esse simples fato sujeitos a várias deformações, mudanças, ajustes, regressos ou progressos, enfim... Não temos a obrigação de saber "o que faremos". Estamos em uma descoberta constante a assim estaremos até o resto de nossas vidas!

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Reeditado em 22/04/2015

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Eu não pertenço a este lugar...

     Quando subi naquele ônibus para ir embora de uma cidade para outra, fixei algumas coisas em pensamento como: "Estou indo para uma nova jornada, vida nova. Dos erros que fiz aqui, lá não cometerei mais. Trabalhos pelos quais já passei, pagamentos que já tive não se repetirão. Será uma nova fase, serão novas visões. Novas buscas, nova postura, novas pessoas....Enfim.." Trabalho! Motivo maior de minha mudança pessoal. Já estava cansado, cansado do mesmo. Do "galho em galho" sem muitas diferenças, sabendo do meu potencial e vontade interior. Minha energia estava sendo gasta em coisas nulas. Sabe aquela canseira de não poder ultrapassar? Não poder ir além? A "grana contada" para o necessário? Acabei mudando por conta disso. Havia em meu tempo na outra cidade trabalhado muito e "ganhado" pouco. Havia tido oportunidades similares. embora também tivesse ganhos maiores, sem comparações de valores! Não sou nada materialista. Às vezes, acho até que "materialista de menos", demais! E então depois de uma semana exaustiva de trabalho como esta última que tive, já na nova cidade, já com outra oportunidade que estava entre minhas buscas, fui analisando o que se ganha e o que se perde com tudo isso! Nunca fui nem quero ser "meio termo". Mas nesse sentido, estar no meio termo pode ser bem mais gratificante. Se "ganhando menos" se pode ter menos, e "ganhando mais se pode ter mais" mas viver menos, já não sei dizer o que seria mais interessante e saudável. Mas sei dizer que ser escravo do próprio trabalho de longe não é a melhor opção. Chegar cedo, sair tarde, sair tarde, chegar cedo. "O momento em que eu deixar, será o momento em que eu peguei mais do que podia segurar. E o momento em que pularei fora será o momento em que tocarei o chão!", já ouvi em alguma canção. Não caio na ilusão do capitalismo. Da sociedade que corre atrás de metas, que no fundo serve para quê mesmo? Estar no topo às vezes alça apenas um tombo maior! Há que se ter prudência. Ser realista! Não há necessidade de se manter no posto, alcançar o primeiro lugar! Esse padrão ditador da sociedade é o que ainda me enoja. Só sei que não sou daqui. Desse mundo deslumbrado, desse muro de ganância. "Quando você acha que tem de ter mais do que precisa ter, seus pensamentos começam a sangrar..." Chega! Eu serei o que eu poderei ser e seguirei meu caminho com olhos abertos, ouvidos atentos, falas tratadas. Eu sou bem maior do que a sociedade espera que eu seja. E dessa vez não estou cansado, eu só tenho a absoluta certeza de que eu não pertenço a este tipo de lugar...

video
Eddie Vedder_Society

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Reeditado em 22/04/2015

terça-feira, 29 de junho de 2010

Da raiva ou da paz?

     Afinal de contas, o que define melhor quem é você? Um conjunto de fatores? Valores? As falhas? Os acertos? Arrependimentos? A responsabilidade? O descompromisso? Positividade? Negatividade? A raiva ou a paz? Tenho pensado que tudo o que realmente preciso é estar em contato com minha paz. Não que a paz defina melhor quem eu sou. Eu é que me defino melhor quando estou com ela. Sou outra linha, outro raciocínio, outro acesso, outro pensamento. A irritação me assusta por tabela! Me revira ao avesso. Me deixa fechado, sem portas, trancado e sem frestas! Meus alvos é que sofrem as consequências. Minha fúria contida pode ser devastadora. Minhas palavras engolidas, destruidoras. Por isso me afasto. Me busco na paz, no espirito leve. Embora sabendo, que a única maneira de sair de uma situação é a enfrentando e o mais rápido estarei melhor. O problema é que minha gama de humanidade às vezes torna-se passiva demais para uma pessoa reativa como eu. 

      Até que ponto devemos nos acostumar com a vulnerabilidade? Até que ponto aceitar a condição do outro? Até que ponto entender as situações sem nenhuma explosão? Até que ponto vale ter sempre uma visão diferenciada das situações? Até que ponto esconder os gritos? Não berrar as verdades cruas? Aceitar desculpas? Desculpar? Até que ponto ser equilibrado, centrado, maduro? Quando mostrar limites? Minhas limitações? Sair antes, "pegar ar puro", respirar doze vezes e ouvir um som, boa alternativa para não ceder, não perder a razão. Um dia de cada, conselho seguido, o resto é estrada, chão batido e sentido. Antes de perder mais, me perco menos, sou outros ganhos. Pés firmes, sem nenhuma ilusão! Há afinal um ponto certo que define quem somos? Transparência talvez; eis um ponto onde nos revelamos por inteiro! Mas o que me define então seria a confusão? Sem tempo de explicar, informar, tarefa difícil demais. Melhor ir dormir, deitar, deixar o dia para trás. Sem delongas, me prefira na minha paz!

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(Reeditado em 22/04/2015)

domingo, 13 de junho de 2010

Conversa com meu pai (despedida)

 (O texto abaixo relata uma conversa aberta com meu pai antes de sua morte, não conseguiria portanto usar de outra forma de linguagem para escrevê-lo, senão coloquial)

      Passei por uma experiência que ainda não sei descrever se foi apenas triste, reveladora ou perturbadora. Surreal seria uma palavra mais precisa, mas no fim acredito, ter sido no fundo boa. Meu pai está se indo! Aos poucos, tão pouco. Após um tratamento intenso contra um câncer há quatro anos atrás ele foi ficando cada vez mais debilitado em todos os sentidos: físico, mental e emocional. Saúde cada vez mais fraca. Uma recaída no último mês fez com que as coisas se tornassem ainda mais complicadas, mas não é sobre a doença, o estágio ou as consequências que isso está trazendo e ainda trará, que escrevo aqui. Morando em outra cidade estive em casa para vê-lo. Aliás para vê-los, incluindo minha mãe e família. Chegando lá, vi que meu pai estava ainda mais fraco do que eu mesmo imaginava. Sem forças para virar-se na cama, alimentando-se pouco, andando muito devagar, levantando do sofá com a ajuda de alguém. Dois dias depois que cheguei estava terminando de almoçar quando ele me chamou até o quarto. Pensei certamente que ele queria que eu contasse para ele o que estava acontecendo ( já que depois que soubemos do resultado dos exames, meus irmãos e eu optamos por não revelar a ele a real situação de que o câncer havia voltado e tomado partes dos pulmões). Mas ele não me fez sequer uma pergunta. Tirou a toca da cabeça, sentou na beira da cama e pediu para que eu sentasse ao seu lado. E começou a falar em muitas pausas numa conversa que durou em torno de meia hora e teve trechos como esses aqui: "- Eu te chamei aqui porque quero conversar contigo, eu ando muito fraco. De quatro meses para cá eu senti isso... mas de um mês para cá eu estou ainda pior...Eu sinto que meu tempo está curto...eu sei que isso não vai durar muito tempo..." Enquanto ele falava, eu estava abraçado nele ouvindo tudo, e então eu disse: "- Não pai, não vai se sentir derrotado antes do tempo, vamos esperar os exames, tudo aos poucos..." E ele: "- Eu te chamei aqui porque quero desabafar meu coração contigo, eu preciso falar..." Neste momento ele me abraçou bem forte e eu disse: "- Então pode falar tudo o que tá sentindo..."  Ele: "- Eu sei que tenho pouco tempo de vida...eu não vou aguentar...e queria ter essa conversa porque tenho pensado muito em todo mundo...nos filhos...eu amo cada um sem distinção...sinto orgulho...e não queria ter "ido" sem ter deixado uma vida melhor para cada um..." Então aqui acabei o abraçando chorando muito, abracei e senti seus ossos, e senti um aperto, uma pena, uma desolação. E ele dizia: "- Não chora não, eu sei que é difícil para um filho perder o pai, mas eu preciso falar..." E eu fui interrompendo-o porque de certa maneira aquilo era uma despedida ainda sã, que já começava a doer e ele falava num tom se redimindo, se culpando por algo que não havia conseguido nos oferecer, e eu não podia deixar ele pensando daquela forma no alto dos seus 70 anos: "- Pai não pensa assim, todos os teus filhos já estão encaminhados, cada um com a sua vida, sua casa e hoje cada um é que quer ajudar como pode, todo mundo sempre quis o melhor paro senhor e para mãe e todo mundo é o que é hoje por conta de vocês dois. Cada um carrega uma parte boa junto de si que foi o senhor quem criou e é isso que é o mais importante..." E ele: "- Eu sei que já estão todos encaminhados, eu me orgulho disso...mas eu tenho pena é da "mulher" (minha mãe) - fala chorando) - eu não sei o que será dela. Eu entendo tudo o que ela está passando comigo..." (Minha mãe que também tem seu problemas de saúde simplesmente esqueceu-se por esses tempo ao redor do meu pai, foi um desgaste em união). Nos abraçamos por um tempo e então fui dizendo tudo aquilo que eu achava que poderia não ter outra hora pra dizer, falei do quanto ele era importante para mim e para todos, do quanto o que eu pude e ainda poderia ajudar, assim estaria fazendo e agradeci tudo o que ele pôde fazer. Mas o via ali, pálido, fraco, magro e me dava cada vez mais um aperto. E mais uma vez ele disse: "- Tá bom, eu só precisava desabafar meu coração contigo, se essa é a vontade de Deus, acho que já paguei todos os meus pecados nessa vida." Me deu mais um abraço: "-Outro dia falei em ti pra "mulher" e até me emocionei lembrando do quanto me ajudou neste tratamento. Brigado por tudo...brigado por essa conversa, meu guri, meu amigo." 
    
        Deixei o quarto e subi até um lugar onde eu sempre costumava ficar quando morava lá, e chorei "a vida ali" quietinho, sentado. Chorei de tristeza, chorei de impotência, chorei de raiva, chorei de dó por todo esse sofrimento interno que a doença causou em meu pai, pelo sofrimento externo que também causou. Não é apenas a situação em si, o fato, é um amontoado de coisas, é um disparo de lembranças, recordações. É um suspiro longo, dolorido. Meu pai estava ali naquele quarto despedindo-se em vida de mim, por sentir que sua situação já não era a melhor. O diagnóstico que ele nem sabe só deixa ainda mais incertezas em relação ao tempo. Não se sabe se isso tudo durará uma semana, dois meses, quatro dias, três anos ainda. Sabe-se apenas que não há mais volta, não há o que fazer além da espera angustiante. Rezo para que ele não sofra, não mais do que já sofreu. Não mais do que a vida já o retornou então por seus ditos pecados. Essa doença acaba com alguém aos poucos, por dentro, sem pena, se espalha e mata uma parte da vida de cada um ao seu redor. E então os médicos pedem para que quem está de fora vá se "preparando". Como alguém pode me dizer que devo ir "me preparando" para perder meu pai? Com que direito? Com que estômago tenho de ir fazendo isso? A morte nos desestrutura, nos separa, invade com o caos nossa rotina de sossego, nos perturba, nos destroça. E temos ainda a "obrigação"de aceitá-la, de entendê-la como o "normal da vida", de sermos fortes, de enxugar, de esconder nossa dor porque a dita rotina segue e a vida de quem aqui permanece não pode parar. No dia da morte de "alguém meu", eu quero gritar de dor. Mesmo que seja num ronco trancado. Eu quero chorar a perda até secar meus ossos. Eu quero "desentender", "descompreender" tudo o que até agora já entendi, compreendi e acredito. Eu quero sofrer na medida inteira: sem medida alguma. A vida que segue, a força que esperam que eu tenha, pensarei só no depois, depois daquela semana angustiante e cruel de "aceitação" do ter de suportar que alguém que se ama ficará apenas na mente e no coração. Que não haverá mais um abraço, uma conversa, uma palavra ao telefone... Eu quero ser o mais fracos dos fracos, quero chorar a vida acabada, nem que seja por aquele dia. "Seguir em frente", vem apenas depois. É depois que temos de encontrar força para seguir adiante. Para retornar para a nossa vida mesmo com aquela lacuna, aquele rasgo no peito. Há uma semana meu pai está no hospital, além da fraqueza, basicamente porque precisa estar no oxigênio para evitar qualquer dano. Não há um só dia, hora em que meu pensamento não esteja por lá. Não há um só dia em que não pense em minha mãe e a sinta como se num abraço. Porque a vida, esta, já está sempre seguindo: há o trabalho, há o dever e as responsabilidades que não podem ser jogadas ao alto, as tais metas, a ajuda que não pode parar, há as outras pessoas, há um acumulo de coisas que caminham lado a lado. 

      Nenhuma fase é pior do que quando temos alguém doente na família, é um envolvimento total em vários sentidos. Nenhum egoísmo permite ter uma pessoa por perto se é para estar sofrendo, mas nenhum sentimento a quer em outro plano sem poder tocá-la. Sinto muito tudo. Sinto uma dorzinha que não cessa, uma perda em decrescente. Apesar de tudo foi bom termos tido aquela conversa talvez eu tenha esquecido apenas de mencionar uma coisa: foi com ele que aprendi a simplicidade das coisas. A integridade do ser. Foi com ele que aprendi a seguir sempre o caminho correto, a viver genuinamente. Mas é só na vida adulta que descobrimos de onde nossa essência vem, porque às vezes quando crianças gostaríamos de ter a vida como a do nosso colega de aula já que às vezes a vida do outro parece ser melhor e mais fácil. Engano bobo mas é só com o tempo que aprendemos "o porquê das coisas". Eu me orgulho é da sua força, por tudo o que enfrentou, pela não desistência, pela pessoa que era antes do que a doença tornou...Eu aprendi a ser humano com ele e o carregarei sempre dentro do meu coração. Essa não é a minha despedida, essa é só a minha maneira de oferecer para sempre o meu amor...


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Reeditado em 22/04/2015 (Data em que ele completaria 75 anos de idade. Meu pai faleceu um ano e três meses depois desta conversa)


domingo, 11 de abril de 2010

Ainda sobre a SOCIEDADE

    Li um comentário interessante de alguém dizendo que somos muito mais do que as convenções da sociedade. Realmente porque não somos sentimentos passageiros ou qualquer outra coisa que possa nos limitar, rotular ou sentenciar. Somos algo muito além do que a tal sociedade define. Somos seres humanos e como tais, somos altamente complexos! A sociedade às vezes nos priva de sermos quem realmente somos. Imposições insatisfatórias sobre a definição de felicidade ou de estrutura emocional, social, econômica. A sociedade nos quer passivos, não reagentes. Nos quer emergido em nossos medos e angústias constantes, pois é ela quem dita "o que é ser alguém com futuro"! É ela quem dita o que é certo ou errado sem filosofia alguma. A cada dia, semana, mês que passa, mais minhas convicções sobre a sociedade alteram meu humor, minhas dúvidas e decisões. É como se houvesse sofrido uma ruptura abrupta em meus pensamentos anteriores e tudo aquilo que eu esperava de minha vida simplesmente se tornasse ilusório. Buscas, conquistas e aprovações.. Não quero esperar mais nada. Quero me desviar, sair um pouco pela contramão, errar, largar e deixar pra trás. Maldito seja também o tempo, o "Senhor Supremo" de todas as coisas! Uma manhã de folga passa tão rápida que nem a espera do dia anterior satisfaz, tamanha "passada de horas" tão eficaz! Já me perdi: não sei se a sociedade também dita o trabalho ou se o trabalho é quem dita nosso tempo! Pena mesmo que a vida não seja apenas uma canção tocada no rádio. Sabe aquele espaço de tempo curto em que nos envolvemos com outros pensamentos, outras lembranças, outros ares? Seriam menos preocupações, menos cálculos, menos planos e menos noites sem dormir. Quem me dera um dia aprender a tornar isso diferente. Quem me dera apenas ouvir uma canção e só! Sair desse "coma" que a sociedade impõe. Dúvidas infinitas.

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Reeditado em 22/04/2015

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Direção correta


     Definitivamente fazer o gênero "um cara sério" não pode servir como regra em meu caso. Estar focado, buscando, estar no caminho, ter responsabilidade, dedicação, força de vontade e superação, certamente fazem parte de quem eu sou, principalmente quando se trata do meu eu no trabalho. Mas não sou dessa forma o tempo todo. Eu gosto do insano. De me sentir perdido vez por outra, de estar no caminho torto, de estar perturbado. Porque acredito que tais situações fazem parte do aprofundamento do meu estado emocional. Ser ativamente concentrado, ser do bem, ser sereno, ser centrado, certamente são qualidades que visto. Mas gosto de liberar meus demônios, cada um para um lado. Meu maior auto incentivo em ser alguém mais Zen se deve ao fato de que minha irritabilidade é algo que cresce constantemente e as fagulhas de minha raiva acumulada podem trazer consequências muito maiores do que um simples desafeto. Saber lidar melhor com meus defeitos sem descartar nenhum deles, eis meu lema há um bom tempo. De resto é exagero o ponto de vista das pessoas de que cada um de nós é sempre a mesma coisa. Nosso humor é algo que sofre alterações conforme cada ambiente e o ambiente externo é bem mais difícil de controlar do que nossas razões e emoções. Mas o que as outras pessoas projetam sobre quem eu sou, não é de tudo culpa minha. 

     Ultimamente ando cheio de planos e planos e mais planos para o futuro e já estou sentindo asco por tanta consideração à algo que ainda nem sei se experienciarei. Portanto estou fugindo desse layout do bom moço. Do amadurecimento precoce. Sempre fui um jovem mais "cabeça" e por conta disso experimentei menos maconha do que minha curiosidade da época gostaria, por exemplo. Com certeza hoje em dia isto é mais louvável do que falho, mas não pra quando se tem por volta de 19 anos e apesar da inquietude constante, se sabe lidar com os limites. Será que é tão difícil saber que nada é permanente? Que nossas convicções acabam mudando no devagar depressa dos tempos? Que o estado presente não é algo sólido? E que é só o nosso passado que persiste em nossas ações quando o futuro é as vezes um promissor falso e nada palpável? No fim das contas tudo o que realmente quero é ter tido uma vida interessante!

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Reeditado em 22/05/2015

domingo, 17 de janeiro de 2010

Eis a questão...

     Minha generosidade tem aumentando constantemente. O que acredito, me valoriza muito como ser. Minha humanidade está sempre ativa. Na medida em que cresço ou conquisto algo, anseio por ajudar as pessoas importantes na minha vida! Pela primeira vez, posso dizer que alcancei ganhos maiores em meu trabalho por exemplo, e isso ao invés de me fazer pensar apenas em segurança, me fez pensar no agora. Se agora posso ajudar, então assim o faço. Nunca se sabe as "reviravoltas" da vida, nunca se sabe quanto tempo estaremos realmente bem ou em quanto tempo o bem acaba. Sabemos que nada é ruim ou bom para sempre, portanto, tenho tentado usar essa singela filosofia. Ainda não estou fazendo o que quero, procuro e busco na vida, mas até lá, fazer o que faço me renderá além de grandes aprendizados, uma estabilidade financeira maior, além de ser algo que gosto, o que é sempre importante. Troquei de cidade em busca desta estabilidade, mesmo não sendo presa fácil do capitalismo - tão contraditório em minhas ações. Neste momento posso dizer que tudo tem se encaminhado para esta realização, porém de outras que ainda faltam, me sentir feliz neste lugar é minha nova guia. Posso dizer no entanto que comecei a me sentir melhor. Ainda me faltam pessoas, espaço, coisas. Ainda me falta concentração! Por enquanto tem sido apenas trabalho, trabalho e trabalho. Pouca diversão. Não consigo porém avaliar com objetividade a situação, pois meu subconsciente tem mudado minha percepção real dos fatos! Ou na verdade o subconsciente é que traz a verdadeira realidade? As dúvidas, estas sempre persistem.

     Ultimamente tenho me sentido estranho ao pensar no início de semana. São muitas coisas a serem feitas, muitos sentimentos a serem trabalhados. Embora eu esteja conseguindo melhorar minha auto pressão e diminuido as sentenças que eu mesmo me aplico. Mas se eu pudesse ter um único desejo hoje, ele seria bem simples: acordar no domingo e aproveitar o domingo, não pensar no fim dele logo ao abrir os olhos pela manhã. Aproveitar um domingo a tarde sem a ânsia de esperar que a segunda acabe logo para que a noite eu esteja em casa. É como se meus dias começassem somente na terça pela manhã porque até que ela chegue, domingo e segunda ficam parecendo um dia só! Talvez eu precise é de alguma distração ou mais momentos de silêncio. Talvez precise apenas me acostumar ou talvez começar a mudar logo a minha concepção do tempo.