domingo, 13 de junho de 2010

Conversa com meu pai (despedida)

 (O texto abaixo relata uma conversa aberta com meu pai antes de sua morte, não conseguiria portanto usar de outra forma de linguagem para escrevê-lo, senão coloquial)

      Passei por uma experiência que ainda não sei descrever se foi apenas triste, reveladora ou perturbadora. Surreal seria uma palavra mais precisa, mas no fim acredito, ter sido no fundo boa. Meu pai está se indo! Aos poucos, tão pouco. Após um tratamento intenso contra um câncer há quatro anos atrás ele foi ficando cada vez mais debilitado em todos os sentidos: físico, mental e emocional. Saúde cada vez mais fraca. Uma recaída no último mês fez com que as coisas se tornassem ainda mais complicadas, mas não é sobre a doença, o estágio ou as consequências que isso está trazendo e ainda trará, que escrevo aqui. Morando em outra cidade estive em casa para vê-lo. Aliás para vê-los, incluindo minha mãe e família. Chegando lá, vi que meu pai estava ainda mais fraco do que eu mesmo imaginava. Sem forças para virar-se na cama, alimentando-se pouco, andando muito devagar, levantando do sofá com a ajuda de alguém. Dois dias depois que cheguei estava terminando de almoçar quando ele me chamou até o quarto. Pensei certamente que ele queria que eu contasse para ele o que estava acontecendo ( já que depois que soubemos do resultado dos exames, meus irmãos e eu optamos por não revelar a ele a real situação de que o câncer havia voltado e tomado partes dos pulmões). Mas ele não me fez sequer uma pergunta. Tirou a toca da cabeça, sentou na beira da cama e pediu para que eu sentasse ao seu lado. E começou a falar em muitas pausas numa conversa que durou em torno de meia hora e teve trechos como esses aqui: "- Eu te chamei aqui porque quero conversar contigo, eu ando muito fraco. De quatro meses para cá eu senti isso... mas de um mês para cá eu estou ainda pior...Eu sinto que meu tempo está curto...eu sei que isso não vai durar muito tempo..." Enquanto ele falava, eu estava abraçado nele ouvindo tudo, e então eu disse: "- Não pai, não vai se sentir derrotado antes do tempo, vamos esperar os exames, tudo aos poucos..." E ele: "- Eu te chamei aqui porque quero desabafar meu coração contigo, eu preciso falar..." Neste momento ele me abraçou bem forte e eu disse: "- Então pode falar tudo o que tá sentindo..."  Ele: "- Eu sei que tenho pouco tempo de vida...eu não vou aguentar...e queria ter essa conversa porque tenho pensado muito em todo mundo...nos filhos...eu amo cada um sem distinção...sinto orgulho...e não queria ter "ido" sem ter deixado uma vida melhor para cada um..." Então aqui acabei o abraçando chorando muito, abracei e senti seus ossos, e senti um aperto, uma pena, uma desolação. E ele dizia: "- Não chora não, eu sei que é difícil para um filho perder o pai, mas eu preciso falar..." E eu fui interrompendo-o porque de certa maneira aquilo era uma despedida ainda sã, que já começava a doer e ele falava num tom se redimindo, se culpando por algo que não havia conseguido nos oferecer, e eu não podia deixar ele pensando daquela forma no alto dos seus 70 anos: "- Pai não pensa assim, todos os teus filhos já estão encaminhados, cada um com a sua vida, sua casa e hoje cada um é que quer ajudar como pode, todo mundo sempre quis o melhor paro senhor e para mãe e todo mundo é o que é hoje por conta de vocês dois. Cada um carrega uma parte boa junto de si que foi o senhor quem criou e é isso que é o mais importante..." E ele: "- Eu sei que já estão todos encaminhados, eu me orgulho disso...mas eu tenho pena é da "mulher" (minha mãe) - fala chorando) - eu não sei o que será dela. Eu entendo tudo o que ela está passando comigo..." (Minha mãe que também tem seu problemas de saúde simplesmente esqueceu-se por esses tempo ao redor do meu pai, foi um desgaste em união). Nos abraçamos por um tempo e então fui dizendo tudo aquilo que eu achava que poderia não ter outra hora pra dizer, falei do quanto ele era importante para mim e para todos, do quanto o que eu pude e ainda poderia ajudar, assim estaria fazendo e agradeci tudo o que ele pôde fazer. Mas o via ali, pálido, fraco, magro e me dava cada vez mais um aperto. E mais uma vez ele disse: "- Tá bom, eu só precisava desabafar meu coração contigo, se essa é a vontade de Deus, acho que já paguei todos os meus pecados nessa vida." Me deu mais um abraço: "-Outro dia falei em ti pra "mulher" e até me emocionei lembrando do quanto me ajudou neste tratamento. Brigado por tudo...brigado por essa conversa, meu guri, meu amigo." 
    
        Deixei o quarto e subi até um lugar onde eu sempre costumava ficar quando morava lá, e chorei "a vida ali" quietinho, sentado. Chorei de tristeza, chorei de impotência, chorei de raiva, chorei de dó por todo esse sofrimento interno que a doença causou em meu pai, pelo sofrimento externo que também causou. Não é apenas a situação em si, o fato, é um amontoado de coisas, é um disparo de lembranças, recordações. É um suspiro longo, dolorido. Meu pai estava ali naquele quarto despedindo-se em vida de mim, por sentir que sua situação já não era a melhor. O diagnóstico que ele nem sabe só deixa ainda mais incertezas em relação ao tempo. Não se sabe se isso tudo durará uma semana, dois meses, quatro dias, três anos ainda. Sabe-se apenas que não há mais volta, não há o que fazer além da espera angustiante. Rezo para que ele não sofra, não mais do que já sofreu. Não mais do que a vida já o retornou então por seus ditos pecados. Essa doença acaba com alguém aos poucos, por dentro, sem pena, se espalha e mata uma parte da vida de cada um ao seu redor. E então os médicos pedem para que quem está de fora vá se "preparando". Como alguém pode me dizer que devo ir "me preparando" para perder meu pai? Com que direito? Com que estômago tenho de ir fazendo isso? A morte nos desestrutura, nos separa, invade com o caos nossa rotina de sossego, nos perturba, nos destroça. E temos ainda a "obrigação"de aceitá-la, de entendê-la como o "normal da vida", de sermos fortes, de enxugar, de esconder nossa dor porque a dita rotina segue e a vida de quem aqui permanece não pode parar. No dia da morte de "alguém meu", eu quero gritar de dor. Mesmo que seja num ronco trancado. Eu quero chorar a perda até secar meus ossos. Eu quero "desentender", "descompreender" tudo o que até agora já entendi, compreendi e acredito. Eu quero sofrer na medida inteira: sem medida alguma. A vida que segue, a força que esperam que eu tenha, pensarei só no depois, depois daquela semana angustiante e cruel de "aceitação" do ter de suportar que alguém que se ama ficará apenas na mente e no coração. Que não haverá mais um abraço, uma conversa, uma palavra ao telefone... Eu quero ser o mais fracos dos fracos, quero chorar a vida acabada, nem que seja por aquele dia. "Seguir em frente", vem apenas depois. É depois que temos de encontrar força para seguir adiante. Para retornar para a nossa vida mesmo com aquela lacuna, aquele rasgo no peito. Há uma semana meu pai está no hospital, além da fraqueza, basicamente porque precisa estar no oxigênio para evitar qualquer dano. Não há um só dia, hora em que meu pensamento não esteja por lá. Não há um só dia em que não pense em minha mãe e a sinta como se num abraço. Porque a vida, esta, já está sempre seguindo: há o trabalho, há o dever e as responsabilidades que não podem ser jogadas ao alto, as tais metas, a ajuda que não pode parar, há as outras pessoas, há um acumulo de coisas que caminham lado a lado. 

      Nenhuma fase é pior do que quando temos alguém doente na família, é um envolvimento total em vários sentidos. Nenhum egoísmo permite ter uma pessoa por perto se é para estar sofrendo, mas nenhum sentimento a quer em outro plano sem poder tocá-la. Sinto muito tudo. Sinto uma dorzinha que não cessa, uma perda em decrescente. Apesar de tudo foi bom termos tido aquela conversa talvez eu tenha esquecido apenas de mencionar uma coisa: foi com ele que aprendi a simplicidade das coisas. A integridade do ser. Foi com ele que aprendi a seguir sempre o caminho correto, a viver genuinamente. Mas é só na vida adulta que descobrimos de onde nossa essência vem, porque às vezes quando crianças gostaríamos de ter a vida como a do nosso colega de aula já que às vezes a vida do outro parece ser melhor e mais fácil. Engano bobo mas é só com o tempo que aprendemos "o porquê das coisas". Eu me orgulho é da sua força, por tudo o que enfrentou, pela não desistência, pela pessoa que era antes do que a doença tornou...Eu aprendi a ser humano com ele e o carregarei sempre dentro do meu coração. Essa não é a minha despedida, essa é só a minha maneira de oferecer para sempre o meu amor...


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Reeditado em 22/04/2015 (Data em que ele completaria 75 anos de idade. Meu pai faleceu um ano e três meses depois desta conversa)