sexta-feira, 16 de julho de 2010

Comparações

       Até meus 15/17 anos fui sendo sempre comparado a meu irmão. Fato! Temos uma diferença de idade que atinge nove anos de idade. Ele era apontado pra mim como "o cara" que trabalhava desde cedo enquanto eu, sendo ainda uma criança, escolhia o serviço. Ele era "o cara" que cumprimentava a todos os vizinhos da minha rua, enquanto eu era quem passava de cabeça baixa. Ele era "o cara" que transava com todas as mulheres e eu ainda era virgem. Ele era definitivamente "o cara". E eu, apenas o irmão mais novo sendo colocado involuntariamente num "status" de "o diferente da família". Na verdade fui sendo julgado em uma fase em que não deveria me preocupar com isso. Mas eu era uma criança que desde cedo realmente queria trilhar este caminho "diferente". Fui me tornando um "adolescente" cheio de encanações, com povoações múltiplas morando em minha cabeça, mas certamente porque meus propósitos eram outros, o que foi se confirmando e me tornando no que sou hoje. Só que estas comparações nunca me fizeram bem. Falar abertamente sobre isso é como revelar um segredo. Pois penso que talvez seja por isso que hoje, eu tenha me tornado um jovem-adulto (adulto?) cheio de auto-cobranças, auto-pressão. Sou pressionado por mim mesmo em tempo integral, por minhas convicções. Sou pressionado pelo tempo. Não sou perfeccionista mas tenho um senso de responsabilidade que acaba metralhando às vezes inclusive as atitudes de outras pessoas. Também por isso me frustro ou deprimo facilmente quando as coisas não estão dando certo. Mas esta é somente a minha análise de um defeito que vem estendendo-se há tempos. Admitir essas cobranças como um defeito, me ajuda a lidar melhor com elas. 

      Estive pensando nisso por conta da última viagem que fiz até a casa de minha família. Meu sobrinho se encontra nesta fase em que os pais não sabem o que fazer para que ele tenha mais responsabilidade. Preocupações naturais de pais preocupados com o futuro dele. Mas ele terá a vida toda para ser responsável, terá a vida inteira pela frente para se preocupar com dinheiro, com as contas, com o trabalho, com o sustento. Não adianta moldá-lo. Adianta aconselhá-lo por mais que estes conselhos hoje, entrarão num ouvido e sairão em outro. No depois, serão assimilados e colocados em prática. Não foi assim com a maioria de nós? Eu não pretendo ter filhos, assunto resolvido! Mas à quem deseja tê-los, deixem suas crianças serem crianças, seus adolescentes serem adolescentes, seus jovens errarem. É assim que eles se tornarão adultos íntegros. Quando eles reprovarem nas provas da vida e terem de repetir as aulas. Cada pessoa é diferente e carrega em si uma complexidade única. E cada pessoa deve ser reverenciada por essas diferenças. Nada é igual e ser igual é chato demais. Hoje, fujo de qualquer tipo de comparação, inclusive quando ela se inverte. Quando me comparam positivamente em relação a outra pessoa, isso não é um elogio para mim. É como voltar há um tempo em que atitudes como esta me faziam mal, por eu não ter ainda uma estrutura emocional para lidar com elas. Somos pessoas, e como pessoas, cheios de defeitos e qualidades, onde alguns (desses defeitos e qualidades) se ressaltam mais do que os outros. Somos bons e ruins. Somos seres humanos! E por esse simples fato sujeitos a várias deformações, mudanças, ajustes, regressos ou progressos, enfim... Não temos a obrigação de saber "o que faremos". Estamos em uma descoberta constante a assim estaremos até o resto de nossas vidas!

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Reeditado em 22/04/2015