domingo, 23 de dezembro de 2012

A busca Zen

     A minha inspiração para o fim desse ciclo e início do próximo, está no “Dalai Lama_Tenzin Gyatso". A filosofia Zen Budista, sempre me inspirou a deixar minha espiritualidade ativa. Religião geralmente implica em crenças cegas e fé deslumbrada. E fé, em meu humilde ponto de vista, nada mais é do que um pensamento positivo. E um pensamento positivo, é na verdade energia. Eu acredito profundamente em energia e na reflexão de nossos próprios pensamentos para mudanças internas que façam diferenças externamente. Através do condicionamento de nosso amor, compaixão e bondade esta filosofia me ajuda a lidar melhor com meus sentimentos e minha visão se torna cada vez mais expansiva dentro de uma boa conduta e jornada espiritual. Ela permite que eu olhe para todos os meus pontos negativos de maneira aberta, sem escondê-los: minha raiva, minha tristeza , minha dor. Não camuflar estas emoções me ajuda a trabalhar a minha verdade: a sinceridade com a qual mantenho a minha conduta. Porém, o propósito de não esconder estes sentimentos, está justamente na transformação destes, para o lado positivo. Não escondê-los mas trabalhá-los de maneira a modificá-los com o propósito maior que resultará na paz interior. E a paz interior é de todas, a minha maior busca. Sobretudo, sempre na proteção de meus amparos.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Divagações sobre o início de minha visão do que intitulo hoje "Sociedade Supérflua do Ter de/Adquirir"

     Tentando constantemente buscar informações dentro de mim, sobre mim, do porquê desta minha presente visão sobre a sociedade ser tão deturpada e antagônica,  comecei a relembrar alguns acontecimentos marcantes desde a minha infância. Cheguei a um ponto chave de mudança de pensamento, reverenciando as idéias das quais usufruo hoje. Dividirei esta sequência de pensamentos que vieram como uma enxurrada, em cinco partes. Quisera eu que, respostas prontas fossem encontradas. Mas tudo o que sei, é que ainda percorro o caminho das dúvidas. Eis então, minhas sinceras confissões/divagações sobre este assunto:
 
Parte 1: A bestialidade infantil (me acompanhando até os quatorze anos)
 
     Tive uma infância pobre. Nunca chegou a ser miserável, mas bem pobre. Lembro nitidamente de tudo que eu não podia ter (e queria).  Meus pais -ele empregado de uma vinícula (logo, aposentado) e ela, "Dona de Casa", ambos analfabetos - podiam me dar o básico dos básicos, ou seja, "morar, comer, vestir" e o "vestir" inclusive, resultava na maioria das vezes em roupas que já não serviam de outras crianças e que eram repassadas à mim. Meus irmãos mais velhos, ainda diziam que eu, sendo o sétimo e último filho, havia "pego" a melhor fase! Misericórdia das outras! Alguns deles, que já trabalhavam na época, também me ajudavam com roupas. Nunca tive uma festinha de aniversário: nunca! E sempre observava tudo o que as outras crianças "ganhavam" de presente nos aniversários em que eu era convidado a ir. E eu apenas sonhava com um momento daqueles... Também, nunca pedi nada aos meus pais. Posso dizer que, de alguma maneira, eu entendia que não podia cobrá-los, não sei. Mas interiormente, sempre desejava que tudo aquilo, toda aquela vida fosse diferente. Quando chegava o inverno, haviam as famosas contribuições da prefeitura com cobertores para as famílias carentes, ou seja, a minha. E como eu era o  mais novo, sempre sobrava para mim, receber. "Morria" de vergonha, mas havia uma necessidade. Eu olhava para aquela gente toda que estava naquelas reuniões de bairro, e só o que eu pensava é que éramos diferentes delas, enfim. Mas era apenas meu próprio ego, tentando camuflar a verdade que dizia que aquela era também a minha realidade. Mas vergonha mesmo, eu tinha era de minha casa. Ela era pequena e ainda parecia ser menor do que era, ela era feia e sem pintura, com os "zincos" enferrujados e com algumas frestas nas paredes de madeira, tinha apenas quatro minúsculos cômodos e banheiro fora. Tudo era velho, quase que apodrecido. E quando chovia, enchíamos a sala e os quartos com potes de margarina vazios ou panelas, para que nelas pingassem a água da chuva, que chegava com as goteiras. Logo logo, eu já começava a ter aquele entrosamento com os colegas de aula, e, vez por outra, nos reuníamos na casa  de um ou de outro para estudar, ou brincar, ou até mesmo nos preparmos antes de irmos para as aulas de educação física, jogar futebol. Eu sempre dava uma desculpa para que estas ocasiões, não pudessem acontecer na minha casa. Me apavorava só imaginar que, algum de meus colegas de aula, que moravam em casas tão melhores, soubessem que eu morava alí, naquele lugar. Seria para uma aceitação no grupo?
     Eu posso dizer que neste ponto, mesmo com todo este "nariz em pé", eu já comecei a me perguntar "o porque de alguns terem tanto e outros tão pouco". E meu pensamento bestial, era de que eu queria crescer para ter muito, muito mais do que nunca tive. E uma sementinha foi me dada, pela que chamo hoje "Sociedade Supérflua do Ter de/Adquirir", e eu estava sendo   incentivado a  plantar e cuidar dela, até que me rendessem os melhores frutos. Metáfora a parte, eu tinha muitas razões para ter crescido e me transformado em uma outra pessoa, e não nesta que sou agora. Ingenuamente, minha visão do que era realmente felicidade, começava a se moldar de forma errada. Qualquer coisa era felicidade, menos a realidade em que eu vivia.

Parte 2: Adolescência Porra-Loca (eu?)

     Quando falei em "bestialidade" infantil no parágrafo acima, eu quis depreciar o meu próprio pensamento falho durante a infância e a negação ao lugar onde eu morava como fato principal de minha ignorância. Fora este sentido que  concedi a "bestialidade", seguramente sempre tive uma maturidade a frente de minha real idade. E com exceção de meus primeiros dois anos na escola, onde mais faltava as aulas do que as frequentava, todos os outros já indicavam o caminho da responsabilidade que posteriormente eu seguiria. Eu me tornei um CDF ambulante e passava as tardes e noites, e ás vezes manhãs, estudando para as provas do colégio. Eu, de alguma maneira, imaginava que era este o caminho que me tiraria daquele lugar, eram os estudos que tornariam a minha vida diferente. A tal vergonha das coisas que eu tinha e de onde eu vinha, continuavam aqui. Mas como eu já estava bem crescidinho, a imposição do trabalho também começou."Trabalhar para comprar as coisas = sociedade capitalista". Nestes tempos, posso dizer dos 14 aos 18 anos, comecei a sair: ir as festas, beber, conhecer mais pessoas, enfim. Contava com a ajuda de duas amigonas da época para pagar "as entradas" destas festas. Meus pais, continuavam a não poder me ajudar. E eu, continuava com o pensamento de mudar a situação, mas sem reação alguma. Fui bombardeado com comparações com meu irmão 11 anos mais velhos do que eu: ele desde criança saia pelas ruas vendendo picolés e pastéis e na adolescência já havia começado a trabalhar numa empresa de refrigeração (profissão que segue até hoje). E eu, me recusava a fazer o mesmo. Tais comparações na verdade, geraram em mim uma autocobrança de tamanho imensurável.
     Nenhum de meus irmãos, havia terminado sequer o Primeiro Grau do Ensino Médio. Minhas irmãs, todas as seis, trabalharam como empregada doméstica. E eu sempre pensava que meu futuro seria diferente. Mas na cidade onde eu morava, faltavam opções e cedendo a pressão, eu me forcei a começar a trabalhar como servente de pedreiro. Foram dois anos "carregando massa de cimento em balde" e também com algumas pinturas, concreto, pisos. Houve um dia, no inverno em que tive que colocar os pisos dentro de um tonel de água, e esta água estava congelada. Lembro de nem sentir minhas mãos pelos próximos vinte minutos. Lembro mais ainda, do pensamento que nunca me abandonava: a minha vida não será assim! Mas, ao menos, eu já podia pagar as entradas das festas, comprar algumas roupas e ajudar um pouco em casa. Embora já houvesse deixado que o fluxo da sociedade me conduzisse como quisesse, porque assim é na sociedade: nascemos, crescemos, estudamos, trabalhamos, casamos, temos filhos e morremos, é uma regra não? Temos medo dos julgamentos, não? E das cobranças? E meu pensamento de ter mais, bem mais do que eu tinha, continuava...
 
Parte 3: Juventude: maturidade em excesso

     Há um tempo atrás, escrevi em um texto que eu era tão responsável em minha juventude que experimentei menos maconha do que deveria, por exemplo. Escrevi em tom sarcástico, obviamente. Mas, em minha juventude, posso dizer, nasceu a primeira, das seis linhas que tenho hoje na testa: chegaram as preocupações. Tudo começou a ficar mais compreensível, principalmente que todas as mudanças só dependiam de mim. Eu cometi um ato de irresponsabilidade sim:  começava a descobrir a vida, e então, após tanto estudar e me deparar trabalhando como "servente", no sol, carregando peso, abandonei a escola após acabar o Primeiro Grau. Fui ainda mais julgado, mas eu era jovem e precisava me dar um tempo e cometer os primeiros erros. Este tempo foi recompensado logo depois, e sim, acabei sendo o único dos sete filhos a me formar no Segundo Grau do Ensino Médio.    
     Foi nesta época inclusive, que começou uma espécie de "provação" de capacidade, coisa tão comum na sociedade em que vivemos. Eu já não trabalhava mais como servente, embora continuasse morando na casa de meus pais. Conheci minha namorada e tempos depois acabei mudando de cidade. Na cidade nova, comecei a adentrar à vida adulta. E aquele pensamento de vergonha da casa que meus pais com tanto sofrimento puderam construir e por pior que fosse, alí eu havia sido criado com amor, ficava pra trás. O sentimento agora, felizmente já começava a ser outro. Minha namorada e eu resolvemos morar juntos e então, haviam alguns gastos a serem divididos e pagos.
     Meus primeiros anos foram um caos: sem grana para investir em qualquer curso básico profissionalizante e ainda sem a ajuda de meus pais, tive que me sujeitar a trabalhar onde havia qualquer vaga em aberto. Nos primeiros meses, trabalhei em uma fruteira e se eu forçar a memória apenas um pouco, consigo sem desejo algum, sentir o cheiro de agumas frutas podres que eu separava na peça de trás. Em seguida fui trabalhar em um mercado por quase três anos, sem domingos, sem feriados, sem dias livres. No tempo do Hotel, eram as noites sem dormir com as escalas na madrugada, depois fui parar numa loja fazendo credenciamento de novos clientes, vendendo cartão, e em meu último trabalho naquela cidade, também com vendas, era obrigado a descarregar caminhão de mercadorias as 3hs da manhã (onde estourei as minhas costas) e ainda atendia clientes o dia todo. Em todos, absolutamente todos estes trabalhos, ganhava apenas o suficiente para me sustentar: pagar o aluguel, alimentação e algumas poucas contas. Ok, posso dizer que, também consegui me divertir um pouco, e inclusive ajudar meu pai que passou um tempo comigo quando iniciou o processo de tratamento de um câncer, mas tudo dentro de um limite estabelecido. Mas não era exatamente para isso que eu havia saído de casa. Era para trabalhar, ganhar um bom salário e começar a adquirir coisas, tudo o que eu não tive, tudo o que era preciso ter: casa, carro, bens...O que fazer então?
 
Parte 4: Ponto chave - mudança de pensamento
 
     Houve um dia em que, após chegar em casa, deste meu último trabalho, eu estava tão exausto e tão desesperançado com meus esforços que não rendiam em resultados finaceiros e com as escolhas erradas, que na hora do banho, simplesmente surtei. Sentei no chão e enquanto a água caía do chuveiro, chorei por mais de uma hora desesperadamente. Sentia tristeza e alívio. Tristeza porque todas as coisas pareciam "estar dando errado" e alívio porque meus pensamentos  começavam a transformar-se alí. Conquistar o quê? Juntar grana pra quê? Adquirir pra quando? Meus desejos se modificaram, principalmente porque também comecei a trabalhar a minha espiritualidade para um lado mais filosófico e zen. Já havia algum tempo, eu estava pensando em mudar para uma terceira cidade, mais próspera com mais oportunidades, inclusive com salários maiores. Assim que minha namorada se formou na Universidade (ela contava com a ajuda da família, diferentemente de meu caso), partimos para o desconhecido atraente. Todo lugar novo para mim é um desconhecido atraente. No entanto, o que eu mais buscava era sim, uma situação confortável financeiramente, o desejo simples de todo mundo que trabalha e precisa ter reconhecimento de todos os tipos. Mas, já não havia em mim qualquer resquício de ambição. Sim, porque havia ambição em meus pensamentos, quando observo minha conduta infanto-juvenil. Há uma abismo que separa tamanha diferença  entre aquela criatura, desta que sou agora. A mudança de cidade teve resultado significativo: bons empregos com bons salários e as oportunidades que eu tanto precisava. Meus ganhos de salário triplicaram e meus questionamentos interiores aumentaram em mesma proporção.  Hoje, pago minha própria faculdade particular, minha namorada e eu compramos um apartamento e já fomos até conhecer neve na Cordilheira dos Andes Chilena. Tudo por conta da mudança financeira ter sido positiva.
     A mudança que tanto busquei por longo tempo, havia chegado. Mas as ações por conta disso também se modificaram. Eu já não queria ter/comprar os desejos anteriores. Eu queria começar a viver da minha maneira alternativa. Eu queria usufruir de outros tipos de experimentações. Eu tenho o pleno entendimento que "terei de devolver tudo o que peguei emprestado" nesta vida, assim que partir para a nova existência. Então, porque acumularia tanto material?
 
Parte 5: Os valores da sociedade e minha não inclusão ao sistema

     Todos estes acontecimentos geraram uma informação errada (ou verdadeira) do que para mim, significa "sociedade". Primeiro, eu era uma criança que por não ter nada, sonhava em ter tudo, depois um adolescente dependente que continuava querendo ter aquilo que não tinha mas sem sair do lugar. Mais um pouco, um jovem que começou a entender melhor as coisas e a "meter a cara" na vida e agora "um adulto" questionador e observador da condição humana dentro desta sociedade. Eu não sou hipócrita ao ponto de dizer que "eu não gostaria de ter bens". Quero sim, garantir uma vida com o mínimo de conforto, apenas não vejo sentido algum em ter de me privar de outras coisas por conta de qualquer materialismo. Me interesso pelo que não é palpável também. Minha visão da sociedade é de que, ela é extremamente manipuladora. A sociedade quer moldar estilo de vida, de consumo, de prioridades desnecessárias. Estes são seus principais valores. Sempre confronto a mim mesmo quando estou em situações de rendimeto a este sistema. Me degrada o fato de ás vezes também cair nas garras desta sedução capitalista. É uma espécie de afronta aos meus princípios. Além do mais, cada meio tem suas verdades plantadas mas elas não são universais: vivo nesta cidade atualmente em que a ostentação é importante, mas se eu mudar para o interior, para o meio rural, as importâncias serão outras. Nas cidades grandes, as pessoas escolhem viver conforme "a banda toca". E pagam por tudo: pela moradia, pela alimentação, pela internet, pela Tv a cabo, pelo carro do ano, pelo plano de saúde, porque este é o molde do trabalhador urbano, ele tem um emprego para poder usufruir de todas estas coisas. O que me deixa profundamente confuso em negar a minha participação neste estilo de vida, é que 80% dos problemas que carrego comigo, são gerados por conta do dinheiro. Preocupações que me corrompem como ser humano e dilaceram meu sono há anos. E é neste ponto que me rendo e sinto dores ao ter de aceitar esta condição.  Eu entro em contradição.
     Trabalho/dinheiro/aquisições/gastos, tudo co-relacionado, e quanto mais eu fujo, mais me prendo à este meio.  Vejo pessoas sedentas por grana, cargo, poder e não sinto verdade nelas.  Pessoas que costumam "dar facadas" umas nas outras inclusive para provar competências, para dar asas maiores à suas ganâncias. São crias paridas deste sistema vicioso. No meu caso, a minha relação com o dinheiro/trabalho acabou me levando a sessões de terapia. Eu não sei como lidar com isso dentro de mim, pois quando quero afimar que não preciso de dinheiro para ser feliz, descubro que inclusive para minha vontade mais suprema -a de viajar muito e conhecer o mundo- conseguirei fazê-la somente se eu dispor de uma  segurança financeira. Segurança: eis a palavra que me deixa bem. Enfim, este texto surgiu por conta de minha autoanálise, das observações que fiz de minhas próprias mudanças querendo encontrar uma explicação cabível para o pensamento que tenho hoje. Posso dizer que, em minha evolução de ser consciente e lúcido, já não tenho qualquer tipo de vergonha da casa onde cresci e que aquele desejo inicial de que minha vida seria diferente do que eu vivia na infância/adolescência, se concretizou. Posso me sentir feliz por conta disso,  embora o caminho a frente ainda me confunda. Este, provavelmente seja o último texto que escrevo sobre este assunto específico, para fechar o ano de 2012, o ano das transformações. Encerro com um pensamento de Thoreau, que volta e meia tenho que relembrar: "A riqueza supérflua só pode comprar supérfluos. Não é preciso dinheiro para comprar o necessário à alma." Viver em sociedade/abandonar a sociedade (?!). Sem certezas, continuo...

Foto: Valéria Zolin Vesz (Meus pés, minhas andanças). A frase tatuada faz referência ao filme da minha vida "Into the Wild (Na Natureza Selvagem)" e carrega o verso de "Society" uma das músicas que faz parte da trilha sonora do filme, interpretada por Eddie Vedder. Em tradução livre diz: "SOCIEDADE SUA RAÇA LOUCA ESPERO QUE NÃO SE SINTA SOLITÁRIA SEM MIM" (http://www.youtube.com/watch?v=ENCW3PEJLl4)