sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Éramos outros

          Eu sinto falta de uma outra família. Não desta! Sinto falta das reuniões de final de ano e daquela espera boa para rever os irmãos que moravam em outra cidade.Sinto falta da alegria da minha mãe, mesmo que com algumas reclamações costumeiras, ao arrumar as coisas para esperar os filhos e netos. Sinto falta de meu pai preparando o seu melhor chimarrão! Eu sinto falta de uma época em que havia amor entre todos e não esta desunião. Sinto falta dos tempos em que não haviam brigas e discussões. De uma era em que jamais dois, quatro ou mais irmãos ficariam sem falar um com o outro. Sinto falta de um tempo em que não havia tanto julgamento entre eles, havia entendimento. Eu sinto falta de sentar naquela grama verde ouvindo minhas músicas com as caixas de som naquela escada. Sinto falta "da minha pedra", onde eu sentava e esperava a janta ficar pronta. Eu sinto falta do calor do fogão a lenha para aquecer aqueles invernos. Sinto falta dos pães caseiros, da massa na panela e do feijão feitos por minha mãe. Sinto falta do ânimo dela, de outros dias. Sinto falta daqueles abraços fraternos de despedida. Sinto inclusive, uma doce saudade dos abraços com lágrimas dados em mim, depois que também deixei o lugar. Sinto falta de uma casa que não existe mais, de um pai que não existe mais, sinto falta de uma mãe protetora, que não existe mais. Dos irmãos compreensivos, que não existem mais, de uma amor entre família, que não existe mais. Dos abraços verdadeiros, que não existem mais. E sinto um nó na garganta, um aperto, que não me deixa mais. Uma canseira dos fatos, que não me deixa mais. Certa tristeza, que não me deixa mais.  Então eu ativo o meu desapego. 

           Esta é uma das grandes provas da impermanência das coisas. Nada é definitivo, tudo é mutável, inclusive o amor. No caminho da evolução da consciência, entendo que sou parte deste grupo, compreendendo que há razões para dividirmos esta existência, mas cada indivíduo é responsável por sua própria jornada. Os testes são diários, o laboratório é propício para cada experiência. Não deixando ao vácuo parte da minha responsabilidade assistencial apenas não posso mais depositar minha energia naquilo que não me pertence. A evolução acontecerá para cada um de forma diferente. Desejo apenas que aconteça o melhor para todos, embora em minha opinião, aproveitar esta existência como uma oportunidade de crescimento espiritual seja algo valioso e de uma preciosidade que não poderia ser desperdiçada. Não sintam mais a minha falta, nestes desvios de percursos acabei encontrando o meu caminho. Onde afinal agora, sigo só.