segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As dores dos muito ricos

      Ouvi um diálogo enquanto estava no ônibus coletivo hoje. Era de uma empregada doméstica contando para a amiga que a patroa estava com depressão. Indignada, se perguntava: como alguém poderia estar com depressão “tendo uma vida daquelas”? Contava vários fatos sobre o assunto e em cada um dos fatos, pontuava uma comparação com a sua  própria vida. A mais intrigante foi a de que enquanto ela trabalhava nesta casa de família para ajudar o marido a pagar as contas, a patroa gastava o dinheiro do marido para pagar uma psicóloga! Não quis ouvir a conversa de intrometido, mas como estavam sentadas a minha frente eu quis apenas tentar entender melhor.

     É de costume e certamente você já ouviu falar alguém dizendo: “Aquele lá está reclamando de barriga cheia”. Principalmente vindo daquelas pessoas que julgam seu próprio sofrimento como vaidade, passadas as tempestades. Tenho pensado em outras teorias. O pobre, o muito pobre, não aceita as dores do rico. Para o pobre, o rico está em uma escala avançada, não precisa acordar às quatro da manhã como ele, pegar um ônibus que atravessa a cidade para chegar ao trabalho antes das sete, ganhando um salário que mal paga o arroz e o feijão dos três filhos que tem para criar. E além disso, ainda tenta juntar uma grana fazendo hora extra para a operação das varizes da perna esquerda da esposa que, com o dinheiro das faxinas que faz, consegue apenas contribuir com o leite das crianças. Então, o rico está reclamando do quê?

      Poderia o sofrimento ter um padrão? Veja bem, meu texto não é a favor dos ricos, menos ainda contra os pobres. Mas é uma alfinetada nesta crença de que quando a pessoa tem uma vida equilibrada financeiramente ela não pode mais “usufruir do sofrimento”. E veja bem novamente: não, eu não estou querendo que as pessoas sofram. Apenas ponderar que a dor de cada um, independe de sua condição social. Muitas vezes já presenciei pessoas discutindo para avaliar quem sofre mais. Como se fosse um troféu e a porta para a salvação nos céus! Nem vou muito longe. Lembro de uma vez que comentei que eu estava exausto do trabalho e alguém retrucou: “Cansado de ficar sentado? Queria ver se fosse eu, que tenho que sentar tijolos!” É como se, quando você trabalha na frente de um computador, com ideias e criatividade, não fosse um direito seu nem a estafa mental. Ok, o troféu é seu, faço questão!
Mas para não misturar os assuntos, percebo que o que acontece com o tal sofrimento entre ricos e pobres, é que, por mais que o dinheiro possa dar uma condição de segurança, é na própria segurança que o rico encontra espaço para doer. O pobre, não tem este espaço. Neste tempo, portanto, ele julga as próprias ações do dia a dia, como sofrimento maior. Sua dor não é maior nem menor do que a do rico.  De tão diferentes chegam a ser iguais.  Mas o rico por sua vez, tem a estranha chance de, por conta de sua condição favorável, poder olhar para dentro de si com mais frequência. E quantos questionamentos doloridos surgem a partir de então? E qual seria o significado de miséria neste caso?

     Somos todos humanos e com nossas dores, crises e sofrimentos evoluímos. E a evolução não está restrita a ninguém. Mas à todos. Antes de olharmos para o outro, saibamos entender o outro. Sobretudo, olhando antes para dentro de nós mesmos. Muitas dores e muitas curas. E o que é seu, nem o dinheiro, nem a falta dele poderá tirar-lhe. Que o choro dos ricos não incomodem os pobres, que o choro dos pobres não perturbem os ricos. Que todos os choros sejam passageiros!