terça-feira, 30 de outubro de 2012

Vulnerabilidade humana

     Sou fascinado por aquilo que é humano! E estive refletindo por estes dias o quanto a fraqueza ou a força e as tantas emoções humanas me interessam. Me percebo hoje um observador atento a vulnerabilidade do ser. Me interesso por quase tudo que ofereça uma gama de sentimentos expostos. Explico melhor. Nas artes por exemplo, sinto paixão pelo o que é autobiográfico, sejam músicas, sejam livros, sejam histórias contadas em filmes, sejam pinturas jogadas na tela envolvendo o drama ou a paz interior. Tudo o que é de verdade me atrai! O fictício não me agrada, me distancia. Eu gosto daquilo que é da pessoa, sem falsos contos. Eu gosto é do gosto da experiência.
    
     Eu gosto de me emocionar e, ainda não consigo perceber neste ato um crime. Quando se trata de fatos reais, sejam sobre amores, sejam sobre perdas, sejam sobre desilusões ou alegrias, dedico a minha atenção inteira. Outro dia, estava assistindo a um programa de TV chamado "Chegadas e Partidas" onde a apresentadora aborda pessoas que estão ou esperando ou despedindo-se de alguém no aeroporto. Chega a ser engraçado o paradoxo que o ambiente carrega e quantas histórias peculiares apresenta alí. Então, nesta espécie de "série televisionada da distância" (que une e separa a vida), a proposta me ganha quando o olho da câmera evidencia as expressões: aquela lágrima trancada no olho esquerdo pronta a escorregar pelo rosto, aquela fala engasgada, aquele olhar de saudade, aqueles abraços. Aahhh os abraços! Sou devoto dos abraços. Como é humano o abraço apertado, o choro por amor, por admiração. Eu vejo amigos se abraçando como se fosse a despedida do sempre ou se encontrando como se quisessem nunca ter se separado e eu me permito adentrar ao embalo deste afeto. Eu me emociono.

   O exemplo acima, surgiu apenas porque ultimamente tenho observado de perto as relações humanas como se meu próprio olhar fosse uma espécie de filtro de imagens que eu colaria em um documentário. Eu me envolvo. Eu me envolvo vendo a felicidade de amigos, agora pais de seu primeiro filho, com aquele sorriso frouxo e aqueles detalhes tão comuns de uma criação que mais parece a única importância do mundo todo - tamanho é o amor que sentem.  Eu me envolvo vendo o toque suave de uma boa companhia na mão de alguém que está passando por algum momento difícil, me envolvo quando minha mãe me responde ao telefone que também me ama (quando na verdade nunca ouço ela verbalizar seu amor com facilidade aos outros), eu me envolvo quando vejo duas pessoas num abraço de perdão, me envolvo vendo meu vizinho pacientemente ensinando a filha com paralisia a caminhar, me envolvo com a dedicação que ele faz isso, me envolvo com olhar da minha namorada que diz tanto sem voz, em doces palavras verdes,  me envolvo quando vejo pessoas mais velhas rindo por nada no ônibus que me leva ao trabalho - e a eles à felicidade. Me envolvo com os acenos, com a alegria das curas estampada no rosto de quem recebe a noticia, me envolvo com quem dá noticia boa e com quem sabe exatamente como explicar uma notícia ruim. Com quem tem cuidado pelo outro, com quem é agradável.

      Eu me envolvo com alguém que canta com profundidade, eu me arrepio, eu na verdade choro com tantas boas letras,  me envolvo com uma cena que assisto e que foi talhada dentro de uma experiência parecida com a minha ou que compreende o meu pensar, eu me envolvo com aquela emoção congelada na fotografia, me envolvo com um parágrafo rasgado de um livro que insiste em dizer aquilo que eu também sinto.  Eu me envolvo com estes simples atos, com simples gestos, com sentimentos que chegam a parecer banais. E são.

     Viemos para uma experiência humana e esta experiência é linda demais. Passageira e linda demais. Isso não sai da minha cabeça há dias. É aqui que deixarei meu cérebro intrafísico se decompondo quando eu partir para a outra camada. Mas não sem antes ter conseguido usá-lo de maneira humana, caso contrário, de que me adiantaria tal experiência neste corpo? Em minhas oscilações entre o terreno e o extrafísico, pretendo entender cada vez mais o processo de transformação e crescimento como indivíduo e consciência. Só não quero deixar de sentir.

     Pena mesmo que nossa evolução espiritual exija a extinção das emoções. Sorte que a vida não tem fim... [Continua]