terça-feira, 19 de novembro de 2013

Não amo menos o homem, mas a Natureza mais

     Entendo o meu corpo como uma espécie de caixa que acopla o meu espirito. Meu templo é interno: basta eu voltar o olhar para dentro. Porém - talvez errôneo - constantemente também o procuro fora.  Sou ainda um Ser muito fechado, repleto de falhas, erros, defeitos múltiplos, angústias e medos. Caminho a passos lentos para a minha evolução e sei exatamente como sou, onde erro e onde acerto. Assumo cada responsabilidade dentro do microcosmo de minhas relações e anseio ainda viver uma temporada longe de pessoas para a reposição de minha saúde mental. Me conheço ao extremo:  luz e escuridão. Vivo neste corpo mas sinto que não há energia maior do que o poder da Natureza, o maior templo externo que conheço. Aqui reciclo, aqui me sinto novamente conectado a um certo tipo de paz. Assim continuo.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A secura do coração

      Escrevo esse texto ouvindo repetidamente a canção "Tardei" do Rodrigo Amarante, letra e música combinam com as lembranças densas de minha memória. Percebi que nos últimos tempos agi de maneira diferente da qual costumo, mais por conta de meu pensamento de evolução espiritual do que propriamente pelo o que meu coração sentia. Revi conceitos, fui atrás de antigos desafetos para resoluções positivas, abri meu ser fechado, deixei de lado as minhas razões para tentar compreender a razão do outro, mas aqui, aqui dentro deste coração, todas estas ações não me beneficiaram. O sossego paira distante. Sinto isso pela forma como meu estômago ferve a cada vez que penso em alguns episódios que ainda me afetam muito. Menti para mim mesmo: não era vontade minha voltar atrás. Era apenas uma forma de camuflar um sentimento que ainda está guardado aqui dentro em que tentei fazer a teoria dar certo, confesso agora, sem sucesso. Abrir meu ser fechado é uma tarefa e tanto! Minha condição espiritual me força à isso e por conta desta condição deixo de lado o meu orgulho, mas meu coração não quer assim. Preferia que meu coração estivesse seco pra nada sentir. Mas ele pulsa e ainda sente certas dores de um passado distante e de outro que ainda está logo ali. Passado este, que por alguns instantes desaprendi a esquecer, embora saiba que urgentemente preciso revisitar este processo.

     Por conta do que acredito ser uma etapa evolutiva, bloqueio algumas ações que eu cometeria inconsequentemente. Costumo por exemplo, tentar usar uma fala mansa em minhas conversas de resolução de conflitos não escutando o meu coração que na verdade precisaria gritar. Afogo gritos que precisariam ter força, engulo choros que precisariam ser correnteza, disfarço a raiva com compreensão. Anulo a minha verdadeira vontade de explosão para não me sentir pior depois, por acreditar que minhas palavras tortas possam perfurar um ser. Tudo isso apenas para tentar controlar aquilo que finjo ter: o equilíbrio.

      Para a maior parte das pessoas, agir com racionalidade é o correto. Porém, esta racionalidade tem me deixado em profunda desvantagem emocional. Sinto tristeza ao pensar em um caso específico, caso este que na verdade só me causa mal: sento, paro, mão segurando o queixo, olhar distante, balanço a cabeça negativamente, fluxo incontrolado de lembranças que retornaram, desse tipo de amor que já não entendo após tantos julgamentos, tanta "razão", tanta cobrança, tanta ironia, após tanto apontamento de culpa, tanta falta de respeito com as minhas escolhas, minhas relações e meus segredos. Após eu ter sido pintado com tinta preta para o olhar dos outros que aproveitaram para fazer as suas doces críticas sem nenhum conhecimento das razões pelas quais mudei e me afastei, e me desejaram profundamente o mal. E mais do que tudo, após o egoísmo de não compreender e não querer a minha felicidade pelo simples pensamento de que eu deveria ter tido uma vida como a sua. Como alguém ousa pensar que conhece o que é melhor para o outro sem ter a certeza de que conhece a si mesmo? Sou agora desprovido de compaixão: não sinto e não sinto culpa por já não sentir. Tenho tentado esvaziar da minha angústia todos os erros que me couberam. Cansei de ser o culpado, o errado, de estar sempre enganado enquanto o outro sai imune como vítima de uma história que começou a construir. Cansei de carregar estas lágrimas nos olhos e engolir a seco durante pelo menos sete, oito anos, sendo o vilão da história toda, sendo aquele que mudou demais o que era antes, sendo que apenas quis me afastar por motivos meus. Tenho dois traumas não superados dos quais nunca falei: hoje não consigo mais confiar plenamente em uma pessoa para contar meus segredos, costumo deixar histórias pela metade porque simplesmente parece que as pessoas também trairão a minha confiança. Trauma maior ainda, é hoje eu não conseguir pedir ajuda quando estou passando por dificuldades, principalmente financeiras, tanta cobrança por ter tido ajuda antes como se eu devesse então seguir a vida que o outro acreditava ser melhor para mim, me tornaram uma pessoa orgulhosa ao extremo, por medo de cobranças futuras ou de quem me ajudar sentir-se no direito de me dizer o que devo fazer da vida, no direito de contar meus segredos para quem quer que seja, como se fosse o pagamento da dívida. Sou grato ao tempo que fui ajudado e sei também que ajudei de outras maneiras. Porque "amizade" é assim, é troca, uma genuína troca. Estendo a minha ajuda a outras pessoas hoje, esta também é uma forma de continuar um caminho de bondade, sem cobranças. Meu aniversário de trinta anos fora destruído. Meus trinta anos, tão esperados. Como esquecer? Fui ofendido: perdi minha essência, fui um mal amigo, fui um aproveitador que estava por perto apenas quando precisava e ainda pagarei caro com a vida que dará voltas para pior. Será que nunca passou por sua cabeça que talvez o que tenha me causado com as mágoas tenha me ferido muito mais do que o que causei? Cansei, cansei, cansei de carregar um peso que não é só meu, de ter de ficar me explicando de tempos em tempos. Cansei de estar na minha hora de dormir e perder sono por conta disso. Carrego ainda pavor da escrita destas falas em mensagens e seria inútil fingir que não. Eu tento apagar de minha memória, mas não consigo, erro meu, eu sei.

     Sou um mochileiro, um aprendiz zen que com muitas falhas ainda carrega algumas pedras nas costas. Estão na mochila sempre à mão, as uso como defesa, mas se precisar também sei mirar bem. Quero me livrar do peso, mas sou precavido. Certo de que precisarei retornar algumas vezes para a correção deste e de outros traços, espero a minha morte ciente de tudo o que não consegui melhorar nesta existência. Eu preciso aprender a esquecer o que me faz mal mas ainda tenho dificuldades com as mágoas principalmente com cobranças e jogos emocionais. Então prefiro a honestidade do que sinto, do que há de humano em mim à minha falsa compreensão espiritual.

     "Tardei, tardei, tardei, só na volta eu vi qual senda me levou, qual me trouxe aqui...desce pelo rio, da terra pro mar, um fio de prata que me leva...", calmamente Amarante me diz para que eu entenda e eu ouço.

     Quem não aceitar a vida que levo, peço apenas que me deixe seguir o meu caminho em paz e siga em sua paz. Eu não julgo as suas escolhas, quem está comigo, sempre estará em liberdade.

      Meu destino me quer só.
    
    








segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Vidas possíveis

     Sinto náuseas e um profundo desgosto por todos os  tipos de fórmulas impostas pela sociedade para se viver uma vida bem sucedida. Por conta disso, é bem verdade, romantizo outras situações. A teoria sempre será mais romântica do que a prática, entender claramente esta afirmação faz parte do processo de esclarecimento. Porém, quando me deparo com outras formas de vida possíveis, longe destas armadilhas diárias em que de muitas temos de ir escapando e de outras vamos nos tornando presas fáceis - por modo de sobrevivência - vejo então esperança com olhos de sol. Sinto certa adrenalina ao perceber que meus desejos podem também ser possíveis e sinto responsabilidade ao entender que as mudanças devem partir de mim: tudo o que não mudo internamente é por estar preso ao conforto daquilo que já sou e daquilo que já conquistei, ou seja, a mudança vive em mim mas a deixo presa por medo do que posso perder. E não perdendo, me perco.

     Escrevo isso após ler uma matéria sobre um casal que decidiu viver uma vida mais simplória em uma casa construída em meio a montanha. Em suma, eles não abandonaram de vez o conforto - mesmo tendo largado o emprego formal e tendo que pensar em outras formas de renda - pois construíram esta casa em propriedades da família. Porém, este afastamento de tudo o que estamos acostumados a ter e que por estupidez julgamos não poder viver sem, é que me fascina! E aqui não estou falando de fuga. Vejo como uma procura  por algo que faça sentido, que nos tire dos dias barulhentos dentro de nossas próprias cabeças, que nos dê de volta a dignidade do que é humano.

     Estou na metade de minha vida. Digo isso porque sinto que não viverei mais tempo do que este mesmo tempo já vivido em dobro (não vejo nenhum problema nesta intuição), e, nesta próxima metade a qual serei presenteado viver, preciso por em prática tudo o que pensei até agora. Mudanças pequenas acontecerão a partir de então. Não quero encontrar  o rumo certo da vida, a felicidade morna daquilo que é dado como receita para as pessoas comprarem e usufruírem matando parte de si mesmas na rotina daquilo que segue igual: estou agora interessado nos desvios.

       Metade de mim já se foi.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Nossas habilidades

     De um tempo pra cá, as minhas habilidades e as minhas "não habilidades" estão bem claras. Falo isso de maneira geral, tanto em casa quanto no trabalho ou na faculdade. Tenho a consciência de tudo o que sou capaz e reconheço tudo o que me falta.  Durante todos estes anos tenho me estudado muito. Não de forma a exaltar o meu ego mas de me perceber, de me compreender e me conhecer cada vez mais. Sou metade, não sou completo. Me assumo assim, prefiro.

     No entanto, a minha maior falta de habilidade está em lidar com pessoas. Talvez por isso os meus filmes e livros favoritos sejam  sobre a história de alguém que preferiu seguir uma vida solitária. Nosso cotidiano e rotina perfuram as relações (todas): pequenos detalhes, uma expressão, uma atitude mudam nossa percepção das coisas. Estou começando a acreditar que onde houver um ser humano convivendo com o outro sempre haverá sofrimento. E se o sofrimento é inevitável nessas relações, estou novamente me preferindo distante.

     Da minha maior habilidade, ainda não sei. Talvez eu tenha que prestar mais atenção naquilo que há de melhor em mim já que me acostumei a falar mais sobre as minhas falhas. Ou talvez faça isso apenas por proteção.

     Por hoje, estes parágrafos rasgados. Espécie de rascunho ainda à ser passado a limpo. Esperando que amanhã seja um dia melhor.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A minha imagem

     Eu não olharia para mim se fosse outra pessoa. Sendo mais direto, não sentiria atração. Por isso entendo o porquê passei parte da minha vida interessado por pessoas que não me queriam: eu não fazia o "tipo" delas. Depois encontrei alguém que me amava tal como eu era e a história se modificou. Porém o amor destoa nossa visão pois nos interessamos por outras particularidades das pessoas e isso as torna mais bonitas. Isso não é rejeição própria, de forma alguma, apenas faz parte de uma análise, autodepreciação externa. Com o passar deste mesmo tempo, consegui ser mais crítico com aquilo que vejo no espelho e que geralmente não gosto (na grande maioria das vezes). Nunca me preocupei tanto porque entendo que somos arranjos temporários e este corpo, deixaremos aqui. Mas hoje em dia, relembrando com maturidade de algumas situações passadas, consigo compreender o que antes parecia  apenas derrota: compreendo o não interesse, entendo a esnobação, aceito o meu lugar.

    Estas frases soltas aqui não falam de desconforto ou de desajuste em minha própria pele. Após os trinta anos não apenas revi conceitos como também baixei a guarda para algumas constatações. Minha expressão é velha embora eu persista em carregar a minha fajuta bandeira da juventude. Olho para tantos outros rostos e observo o oposto, percebo suavidade e beleza neles. Esqueço a história, as experiências, a inteligência, a espiritualidade ou seja lá o que for que me torna uma pessoa interessante: é de aparência que falo aqui. É sempre necessário que nossas verdades profundas emerjam para que possamos nos desapegar daquilo que nos incomoda. Ao pensar na minha própria imagem e me comparar com outras, o meu processo de desapego melhora quando percebo o que não conseguirei ser. Imperfeição! O que sempre me atraiu nas pessoas foram (são) as suas imperfeições, mas falo isso apenas porque me convém.

     Vez por outra esqueço que a imagem não é assim tão importante. Vez por outra me dou assim, menos importância e engulo o meu ego. Vez por outra lembro que nada é exatamente o que parece. Minha condição de aceitação ressurge aqui.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

É o teu amor que me acompanha,
que é mar,
que é sol,
que é zelo,
que é grande.

Não quero ver o teu olhar triste,
espécie e meia de derrota,
o teu pavor de ficar só.
Nem ser a razão de teus planos desfeitos,
dissipados.
O nada, o vácuo, o se, o tão.

Prendo os desejos dentro de meu corpo,
não me alegra encontrar liberdade assim,
se em ti houver tristeza.
Permaneço.

A vida,
a história,
os anos,
o feliz encontro.

É o teu amor que me acompanha,
que é terra,
que é sólido,
que é forte,
que é imensidão.

Quero então ver o sorriso dos teus olhos.
                                                       Tua alegria cabe em mim.



sábado, 24 de agosto de 2013

O animal dentro de nós desperta na proporção em que a nossa natureza mais elevada desaparece

      De tempos em tempos retorno a leitura de Walden ou A vida nos Bosques de Thoreau. Na verdade, recorro aos tantos sublinhados que deixei nas páginas, tão significativos, tão cheios de sabedoria. Em suma, os seus registros de uma vida solitária no bosque por opção, construindo a sua própria casa de madeira e vivendo longe dos apelos cansativos da sociedade, o levou à sua própria descoberta espiritual. Talvez nem precisasse de tamanha fuga, mas assim o fez. O ano era 1845, o século era outro e o anseio de viver longe do tipo de mentalidade consumista e perfurante que percorreu o tempo como se fosse parte de uma praga capitalista, fora maior do que qualquer outra força. Há séculos, a maldição envolta como áurea nos bens materiais agarra a humanidade como uma espécie de feitiço que se alimenta de desespero.

     De tempos em tempos, reavalio então o meu caminho, e o quanto esta "vida moderna" desmonta com a minha saúde física e mental e o quanto os desejos repreendidos consomem a minha energia. Há sempre tempo para as mudanças, para alinhar o trilho das escolhas erradas. Por conta disso, tenho diminuído muitos dos gastos não necessários para não cair na armadilha que está sempre armada, pronta para pegá-lo, sedenta por sua ansiedade. "Não se incomode muito em ter coisas novas, sejam roupas ou amizades. As coisas não mudam; mudamos nós", balbucia Thoreau em uma parágrafo que salta do papel durante a leitura, então desperto.

     De tempos em tempos, entro na escuridão por opção, como um teste comigo mesmo pela vontade de enxergar outro tipo de luz. Aliado à minha imperfeição questiono a minha profissão, a minha futura formação, as pessoas ao meu redor, o tipo de pessoas que se amontoará depois, os meus interesses, a pressão vinda de todos os lados e a minha própria covardia e hipocrisia de me render a um tipo de vida e sistema do qual tanto me desagrada - por minha necessidade de sobrevivência. Em outro parágrafo, Thoreau exclama: "Eu encontrava, e ainda encontro, em mim mesmo um instinto para uma vida mais elevada ou, como dizem, espiritual, como ocorre com muitos homens, e um outro instinto para uma vida selvagem, e reverencio ambas". Releio e respiro fundo, olho para a outra janela por um tempo e então desvio o olhar e retorno para a minha vida, como costumeiramente faço.

     Fecho o livro, perco o sono e sinto tristeza.


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Benzedrina

     Tenho tentado inutilmente trancar a minha alma dentro de meu corpo ao invés de deixá-la flutuar. Faço isso como se meu corpo fosse uma espécie de refúgio, mas de tempos em tempos este refúgio se torna prisão. Fico preso em regras que eu mesmo criei e com isso me torno uma pessoa normal e é na normalidade que paira a doença. Sinto anseio de loucura (a insanidade nem sempre é diagnosticada como negativa). Percebi que não posso manter a minha mente sã: provavelmente seja esta, a causa maior de minhas inquietações. Preciso me desprender do que há de comum em mim. Preferindo os meus devaneios.

domingo, 4 de agosto de 2013

Sentindo o "barato"

     A vida é psicodelia pura! Um chá de cogumelos com pitadas de ervas silvestres servido diariamente. Quente ou frio, com ou sem acompanhamento. E vem em uma xícara grande que transborda alucinógenos de efeitos diversos com um propósito vital: autoconhecimento. Porque cada coisinha que acontece, está ali para que no final das contas, saibamos lidar melhor com nós mesmos. E durante o processo evolutivo todo, vamos redesenhando nossa rota, a longa jornada, definindo quem somos. Nos perdemos e nos encontramos, e nos escondemos e depois demoramos a nos achar. Nos procuramos em excesso: fugimos menos do que deveríamos. Somos gritos altos e um profundo silêncio. Cortamos partes internas, nos arrependemos e as colamos de volta. Mudamos de ideia e as jogamos fora. Somos uma dessas partes no trabalho, uma dessas partes em casa, uma dessas partes em grupo, uma dessas partes sozinhos na estrada, uma dessas partes quando amamos, uma dessas partes quando estamos com um problema, outra dessas partes quando resolvemos o problema. Temos espaço para sermos todas essas partes, embora às vezes todas juntas apontem para algum tipo de colapso. Por conta de todas estas nossas partes, somos constantemente julgados pela nossa mesma espécie: pessoas, ah pessoas! Já somos torturados por tantas questões internas que latejam junto a cada pulso e ainda precisamos saber lidar com o olhar do outro. Não aceitação é quase estupidez. Somos julgados por nossos atos, por nossos sentimentos, pelas nossas habilidades e principalmente por nossos conceitos. Conceitos de vida, de valores, conceito de mundo...

     A vida aliás é seda, a erva antes no chá agora é queimada, solta no ar, libertária. Somos tão fortes. Somos muito fortes. Nossos pais morrem e seguimos firmes em frente. Somos tão fracos. Somos muito fracos. Perdemos um emprego e parece que a vida acabou ali. Quanta ambiguidade. Tudo está em nós. Aceitamos a ideia de que também somos feitos de escolhas, mudanças e fases. Não suportamos a ideia de impotência ao ver quem amamos passando por essas escolhas, mudanças e fases quando elas são negativas, não conseguindo ajudar como deveríamos. Esquecemos que descobrimos o que é positivo ou negativo bem depois, lá adiante. É um teste atrás do outro. Tudo passa, nada passa. E a vida segue breve, vira pó. E nós sentimos "o barato", diversas vezes pesado e outras tão leve que podemos flutuar. Análises possuem efeito psicoativo! Então como terapia, escrevo. Mesmo entendendo que escrever é desabafo, não resolução. Ainda que seja uma forma que verdadeiramente funciona para estreitar o caminho. Vejo tudo na vida de modo intenso e minhas "viagens" mentais às vezes demoram horas, dias a passar. Vou e vou. Desço, pego carona, retorno, paro, sigo. "Entro na onda", na brisa. E acredito que tudo na verdade se torna uma composição resultante de fragmentos do que vamos recortando e juntando aqui e ali. A vida se torna uma enorme colcha de retalhos com cores múltiplas, balançando ao vento no infinito azul do céu em meio ao campo verde com pontos amarelos. Alucinação?

     Da certeza de que do amanhã não se sabe, seguimos chapados na direção supostamente correta. Vida, psicodelia total sim. Experimentação! Precisamos apenas usar a dose certa, nem mais nem menos. E entender que a substância principal, carregamos aqui ó, dentro de nós...

sábado, 20 de julho de 2013

Os seus sorrisos mais bonitos

Para aqueles os quais confessei os meus segredos mais íntimos, mais doloridos, mais felizes, os meu "pecados" mais sombrios, mais escondidos e dividi minhas explosões interiores mais emocionais, meus sentimentalismos familiares e minhas confissões sexuais não convencionais, é a quem dedico este breve texto hoje.

Pessoas com as quais compartilhei (compartilho) os momentos mais terríveis e mais lindos, a minha luz e a minha escuridão, o fundo do poço em minhas tristezas choradas e a escalada morro acima para a felicidade. Pessoas que já contribuíram para a minha vida seja com sua ajuda, seja com seu amor, seja com sua atenção, seja com um tempo disponível para uma audição ou para uma leitura de meus extensos e-mails. Pessoas as quais faço questão de pedir conselhos, porque suas falas são importantes para a direção que penso seguir. Nem em períodos afastados, outros sentimentos apagariam estas pessoas do meu coração - tudo o que fica adormecido desperta no tempo certo. Elas tem uma importância insubstituível dentro de meus dias. Cada uma com o seu brilho e época diferente. Cada qual com o seu tempo.

No entanto, não estou diminuindo aqui, a  importância das muitas outras pessoas que fui conhecendo em minha jornada, pessoas lindas e cheias de luz, cheias de alegria, cheias de coisas boas para oferecer, cheias de abraços, de cuidados, de carinho, que se tornaram amigos queridos, cada um por uma circunstância diferente, com sua fatia de bondade, de beleza interior.

É que com estas pessoas em específico, consigo falar sem camuflar o que sinto, consigo me despir nas palavras sem nada a esconder. Minha fala sai solta, sem pudor, sem julgamento. Posso ir direto ao ponto, sem rodeios, sem vergonha, sem medos. Elas entendem o que talvez outras pessoas não compreenderiam. Foi com elas (e são com elas) que dividi (divido) meus pensamentos mais insanos e minha aura mais elevada. Com elas, posso ser todos os meus "eus".

Eu espero que nesta jornada em que estivemos juntos - no passado ou no presente - eu também tenha conseguido retribuir seja com a minha ajuda, seja com o meu amor, seja com a minha atenção, seja com um tempo disponível para uma audição ou na leitura de seus e-mails. Amizade é troca, sempre será genuínas trocas. Sou muito grato a todas as experiências que tivemos, que ainda temos e que retornaremos a ter quando a estrada da distância diminuir a lacuna para o novo abraço - que iniciará tudo outra vez.

Pela aceitação e respeito por minhas escolhas na vida e pelo amor, pela doação, ajudas e principalmente pelas alegrias que passamos juntos, amo cada um de vocês. Em meu silêncio habitam todas as nossas falas e imagens dos seus sorrisos mais bonitos.

Se cuidem na vida e estejam sempre em liberdade.

Espero encontrá-los bem e amando a si próprios.

Helen
Rafa


                         
Márcia
 
Adri
 
Marcos

sábado, 13 de julho de 2013

Quem carrega a doença?

      Hoje pela manhã entrei no ônibus para ir ao trabalho e sentei ao lado de dois homens "já velhos senhores". Eles falavam baixo - mas em tom audível às pessoas ao redor - questionavam o trabalho "da motorista": mulher. Na verdade, sem rodeios, eles depreciavam a sua capacidade de forma nada gentil. Tirei os fones do ouvido para prestar atenção naquelas falas, confesso. Logo após, eles, sendo "velhos" questionavam o quanto os mais jovens não os respeitavam e quando cediam um lugar numa fila por exemplo, os olhavam de "forma feia". Foi aí que entendi o ponto: pessoas como eles, apenas acreditam no respeito que o outro tem de ter de forma que a sua discriminação ao próximo é considerada aceitável.

     Pessoas como eles, "fechados", fazem parte de uma mesma quantidade minoritária de pessoas que julgam a sua própria condição humana ou financeira ou religiosa ou racial ou sexual como "correta", às vezes  inclusive, se penduram "no nome de Deus" para justificar as suas razões. O que é diferente no outro, chega a ser rotulado como "doença": gays são doentes e "pretos" carregam a própria doença na cor. Nesta batalha de opiniões, confesso novamente, perco. O motivo de minha derrota é justa: minha visão de "doença" é aquilo que eles enxergam no próprio espelho quando se olham e se admiram. Preconceito, racismo, discriminação, intolerância é o que francamente acredito que seja doença. Mas desta forma, devolvo tal julgamento e é aí que me derroto. Não consigo aceitar como alguém que não tem respeito pela condição do outro ousa exigir qualquer tipo de respeito de quem quer que seja.

      Voltando aos "velhos senhores", eles lembravam inversamente o meu pai. Mesmo quando atingiu sua idade mais madura, meu pai era livre de qualquer preconceito. De todos os seus defeitos, este, nunca fez parte de sua vida. Meu pai, meu velho, era grandioso em seus pensamentos, tinha aceitação total da condição do outro. Nunca o ouvi falando a palavra "viado" por exemplo, nunca ouvi falando mal de alguém por conta de sua cor, nunca ouvi ele diminuindo qualquer pessoa por conta da condição humana desta: ele era são! Hoje, com meus trinta anos completados, me vejo cada vez mais parecido com ele e agradeço por ele ter me deixado ser tão livre em meus pensamentos: foi com ele que acredito agora, aprendi a ser um Ser aberto neste sentido. Ô pai! Se todos os velhos tivessem a sua sabedoria, seria o sinal de que a jornada de cada um não teria sido em vão. Saudade daquela fala carregada de aceitação, saudade do ser humano que ele foi. Aos outros "Senhores do Preconceito", medicação urgente.

domingo, 30 de junho de 2013

Conselhos ao espelho

Eu disse à ele que começasse a pensar numa grande mudança - a maior de todas - a mais interiorizada que já teve.
Disse que, deverá exercitar sua coragem além daquela que sabe possuir para que sua fala saia ainda mais clara, limpa e sem medo.
Eu disse à ele que deveria deixar o passado, aquilo que está registrado em suas linhas de expressão (ao redor dos olhos e testa) para trás, de uma vez por todas. Marcas estas que o deixam mais velho do que gostaria transparecer.
Disse que, precisa com urgência preocupar-se menos, principalmente com o que antecipadamente pensa antes de acontecer.
Eu disse à ele que ele não pode carregar mais tanta preocupação com o outro, de forma que cada indivíduo tem a sua maneira de lidar com uma situação e de como buscar a sua própria cura.
Disse que, a avaliação das pessoas que estão em sua vida -quem o faz bem/quem o deixa mal- deverá ser imediatamente melhor organizada para a preservação de sua saúde interior.
Eu disse à ele que precisa estar mais aberto, sem que sua introspecção acabe o fechando tamanho a complexidade de seus pensamentos que não cessam.
Disse que, precisar ser menos analítico e agir mais.
Eu disse à ele para ficar mais atento aos seus insights, parar e respirar mais vezes por dia.
Disse que, a prática deve substituir as suas tantas teorias.
Eu disse à ele, tão acostumado a olhar para dentro de si, fazer isso de forma que traga melhores resultados externos já que este olhar usualmente acaba apenas em reflexão.
Disse que, deverá aproveitar mais a vida, de forma mais leve, mais alegre, mais sutil.
Eu disse à ele, olhei para ele, sorri para ele, virei as costas e terminei com um olhar de adeus...
Aquela imagem dele refletida, já antiga, ficou agora somente lá.
...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"Obrigado consequência, obrigado, obrigado silêncio"

     Retornei para um visita ao Templo Budista Khadro Ling em Três Coroas (RS) com o tempo fechado e chuvoso, tanto fora quanto dentro de mim. Carregando uma certa dose de tristeza por conta de um último acontecimento. Fui a viagem toda ouvindo Beirut, e como sempre com suas músicas, regressando à algumas existências passadas e inclusive no meu passado mais próximo, fonte de algumas reflexões. Mas antes das reflexões: Três Coroas é uma cidadezinha, quase um lugarejo.  Mas o que me atrai sempre para lá (já voltei algumas vezes), não é somente o Templo, é como me sinto dando uma simples caminhada pelas ruas pela manhã. Não sei exatamente explicar, mas o ar lá é outro, meus pulmões renovam-se com o melhor oxigênio. A própria escolha da construção do Templo, naquela localização, embora no alto da montanha (ou morro acima), fora justamente pela ENERGIA concentrada naquele lugar.

       Nas primeiras vezes que fui para lá, passava a noite em uma pousada ao redor da cidade. Hoje, encontrei uma casa simples, de família, na cidade mesmo que também funciona como pousada, onde tem tudo o que eu preciso: uma cama boa para dormir e um café da manhã ao acordar, além do valor bem mais acessível: "Pousada Raio de Sol". Desta vez, um bebê ao quarto ao lado, por volta de três meses de idade, chorou algumas vezes e acabei acordando a noite, o que não foi tão bom. Quando amanheceu o conheci e ao tentar me comunicar com ele, do meu jeito, ele abriu um sorriso tão lindo que o perdoei na mesma hora. Como resistir? Chego sempre aos sábados e volto no Domingo. Fiquei surpreso ao passar em frente a "Panquecaria Liverpool" e ela não estar mais lá. Era a distração para a noite do Sábado, antes da concentração para subir para o Templo. Pedindo informações para um morador da cidade, ele confirma que a Liverpool fechou, mas me indica um lugar para tomar um café chamado "Maria Boneca & Café com Bolacha". Muito grato pela dica: encontrei um lugarzinho cheio de encanto e tive um papo tão bom com os proprietários sobre viagens e afins. Parada obrigatória agora, todas as vezes que eu retornar.


       No Centro Budista, não há estabelecimentos com alimentação, então, ou leva-se "lanches" para passar o dia lá em cima, ou primeiro você almoça na cidade antes de subir. Vai depender do tempo que se deseja passar no Templo. Nestes bons "achados" da cidade, há um lugar chamado "Meu Cantinho, comida caseira".  E detalhe, com a comida feita no fogão a lenha, uma das melhores comidas caseira que já comi na vida. Impossível comer uma vez só e após esta bela refeição, se não tiver carro (meu caso), é só pegar um Táxi e se direcionar ao Centro, onde até o caminho para chegar até  lá é agradável.


      Quando cheguei ao Templo, o tempo já estava ensolarado e calor ( e incrivelmente quando fui embora, havia neblina e frio). Desta vez, fui sozinho. Precisava há muito tempo deste tempo solitário lá, por opção. Por meses esperei por isso. Minha namorada tem sido linda com sua compreensão e coração apoiador, por estar entendendo os meus momentos de solitude, já que sinto mais necessidade de espaço do que alimentar. Usufruir de minha liberdade é algo que me faz bem. No meio do caminho, houve até um convite à uma grande amiga dessa jornada, hoje afastados devido à alguns acontecimentos, o convite era para passarmos este tempo juntos lá, já que talvez pudesse ser um bom momento para conversarmos, avaliarmos a situação e nos entendermos novamente, para seguirmos bem, adiante. Mas cada coisa tem seu tempo e seu lugar, e então os amparos me conduziram "sozinho" até lá. No ano passado, cheguei no Templo em um momento perturbador. O ano de 2012 definitivamente foi um dos piores que eu já havia passado após ter mudado de cidade. Escolhas erradas, problemas familiares, falta de dinheiro, faculdade trancada, deprimido, minha namorada com problemas de saúde, havia "me despedido" de meu pai que faleceu no final de 2011, e inclusive, passei o Dia dos Pais no Templo, como uma forma de estar mais perto, mais conectado. Tudo contribuiu para agravar a minha situação e acabei procurando ajuda de uma Terapeuta para encontrar a saída, sendo que a lembrança mais vivida que tenho do meu ano de 2012, é de minha cabeça encostada no vidro na janela do ônibus enquanto eu chorava durante o caminho de casa, após sair do trabalho. Antes que o ano terminasse, tive ainda uma crise de coluna, diagnosticado com Hérnia de disco (uma estourada e duas por estourar) passei o Natal e Ano Novo em cima da cama, travado,  não podendo caminhar. Em férias, doente, sem poder viajar e logo após as férias, sem poder trabalhar novamente. Minha namorada, como sempre, suportou tudo junto comigo mais esta etapa, até as coisas começarem a melhorar e este outro novo e bom ciclo começar...

        Gosto de fazer estas análises. Elas são importantes para avaliarmos "as voltas que a vida dá", e o que traz esperança é que um ciclo se fecha sempre que outro se inicia. Ninguém passará nosso sofrimento por nós. O que é nosso, vem pra nós, sem que seja necessário o outro torcer contra. Tantas fases ruins, tantos aprendizados. Mas, de tudo, o psicológico e o emocional tendem a estar oscilando mais entre as nuvens e o chão, porém a saúde do corpo, esta caixa que acomoda o nosso espírito, é sempre mais delicada. Há quase seis meses, ainda não me recuperei. Voltei a andar normalmente quase três meses depois e agora faço fisioterapia além de tomar alguns remédios para fugir da dor e principalmente da cirurgia na coluna (por mais simples que possa parecer). Ainda sinto minhas pernas pesadas, não posso andar muito, nem sentar por muito tempo. Não posso carregar peso e nesta volta ao Templo, somente com o pouco peso de minha mochila, já senti minhas pernas doerem. Tenho me cuidado mas é difícil olhar para si tendo limitações. Voltei também para agradecer este processo de cura, apesar de lenta e lembrar do tempo em que eu não tinha doença alguma.

        Na verdade, não vou mais ao Templo para procurar algo. Até porque nos finais de semana, as pessoas visitam muito este lugar, então é impossível "meditar" por lá. Também não sou praticante de meditação (minha ansiedade agora medicada, não permite). Não carrego nenhuma obrigação de estar com a mente preparada, nenhum ritual misterioso para chegar lá. Não vou exatamente para fugir de algo ou para buscar nada. Paz? Descobri agora, até mesmo depois de ir até lá, que a paz está dentro de nós, não importa o quão silencioso ou barulhento seja o lugar. "Não é o que sinto por estar no Templo, é como me sinto depois que visito o Templo". É a Energia que sinto revigorar a partir do outro dia e que potencializa a minha semana toda, até meu mês. É como estou me sentindo agora, em casa, no meu silêncio, tomando o meu chá enquanto escrevo estas palavras após ter estado lá. É por esta sensação. Sabe, o jeito como nos sentimos após um banho no inverno, uma ducha quente?  É este calor afetuoso dentro do coração.


        Outro dia li uma declaração de um homem por volta de seus setenta anos em que ele dizia que quanto mais velho ficava, mais ele percebia que queria ter menos coisas, mais queria se desapegar. Agora, entrei nos meus trinta e tenho a mesma sensação, não quero envelhecer para perceber isso. Acredito que há algum tempo iniciei o meu processo de desprendimento. Ainda caio sim nas armadilhas da sociedade e do capitalismo (a casa própria, a comodidade), mas não me apego, e é aí que está a chave para continuar a minha vida por aqui, neste plano. Aqui, quero ter mais é experiências e estou fascinado por tudo o que tenho vivido. Enriqueço é com  maneira como me sinto após cada uma destas experiências, após cada viagem por exemplo (com ou sem dinheiro), após descobrir o que é novo, após absorver as informações visíveis, audíveis, invisíveis e inaudíveis. Me sinto abençoado com tanto amor que recebo das pessoas próximas a mim. Pessoas que me aceitam tal qual eu sou, que entendem a simplicidade com que vivo meus dias, que me ajudam sem cobranças, que me desejam o bem. Já não entendo mais qualquer tipo de amor que não me ofereça liberdade.


         Exercitar a compaixão é ainda a tarefa mais árdua a que a filosofia budista ensina. Como sentir compaixão pelas pessoas quando elas te agridem, te machucam, te ofendem, te julgam de forma errada ou ainda, desejam o seu mal, torcendo para que sua vida retorne em suas voltas para pior? Em minha caminhada, em minha lenta caminhada pela evolução, admito que posso até sentir doses de compaixão aqui ou ali, mas plenamente é algo que ainda não consegui encontrar. É difícil e requer muito treinamento interior. Intimamente, ainda penso na lei do retorno: o que pensamos/desejamos para o bem retorna à nós tanto quanto o que pensamos/desejamos como mal agouro para outras pessoas. Para amenizar a minha falta de compaixão, exercito a minha bondade e carrego em mim muita aceitação (não ganho nenhuma compensação por conta disso, mas me faz sentir melhor). Eu ainda tento visualizar qual é o fio que separa/junta a raiva do amor. Eu nunca dispenso a minha raiva interior, pois sinto que é ela que faz com que, em todas as relações, as outras pessoas não passem por cima de meus valores, ela faz parte de minha reação. E eu até penso que se nossa raiva for canalizada para uma outra vertente, ela pode ser sim vista de forma positiva. Se sinto raiva por alguma situação que não seja tão importante, produzo mais em meu trabalho por exemplo. Mas se a canalizo de forma errada, isso pode gerar rancor e consequentemente tristeza dentro de mim, o que acaba me anulando. De qualquer forma, se eu negar que sinto raiva, isso afetará cada vez mais o meu processo de entendimento de quem eu sou, de como sinto, do porque sinto. Desta vez, estranhamente, quis agradecer as coisas ruins da vida, das relações: as mágoas, as decepções e principalmente AS CONSEQUÊNCIAS já que após cada explosão em um desentendimento, sabemos exatamente o que cada indivíduo pensa de nós através de seu julgamento. Não fosse pelas consequências do ato deles dizerem, viveríamos na linha das aparências, fingindo compreensão. Nada sai por impulso, o impulso na verdade, apenas libera algo que já estava lá, preso. E pode revelar a nossa imaturidade emocional, sem que isso seja uma regra, obviamente. O que o indivíduo pensa sobre nós ou o que pensamos sobre uma outra pessoa, não significa nenhuma verdade absoluta, até porque verdades absolutas não existem.

       As minhas não resoluções, me levam para um caminho confuso. O jeito ruim como me sinto após qualquer desavença, revela na verdade a luz que existe em mim, como um ser do bem. Tenho receio apenas de partir para a outra camada espiritual e chegando lá, descobrir que tudo aquilo que não resolvi era na verdade muito fácil de ter sido resolvido, menos dramático do que tornei. E que estes ainda são traços antigos que eu deveria ter vindo e mudar, mas que me afastaram novamente desta etapa. Se não tenho a capacidade de resolver um problema no sentido microcósmico em minhas relações, com um amigo, com alguém da minha família, alguém muito próximo, como poderei então não compreender as razões de conflitos maiores  (macros) e a intolerância, as tantas brigas que geram inclusive guerras entre as nações, por exemplo. Esta é uma reflexão que a filosofia budista quer que tenhamos o entendimento pleno. Perceber que  nossas próprias ações são base para ações maiores em todas as nossas relações.


         Se eu pudesse dar um único conselho à todas as pessoas próximas a mim, eu diria para olhar cada vez mais para dentro de si mesmas, para o seu eu interior, para o seu ego (o eu superior), para o seu eu inferior, e com esta coragem libertadora, compreender a transparência do sentir. Olhar para si e entender quem você é, reconhecer quem você é, não quem você mostra ser para os outros: quem você é sozinho com os seus pensamentos, quem só você vê, quem só você conhece sem disfarce na imagem refletida no espelho. Olhar para dentro de si não só para perceber o seu lado bom,  a sua luz, a sua boa energia, aquilo que todos queremos ser e ter, esta é a parte fácil. Olhar para dentro de si e mexer no abismo, olhar para dentro daquilo que é ruim,  que é profano, aquilo que é incômodo, que é egoísmo, olhar para aquilo que você não aceita sentir,  olhar para dentro e perceber que também há escuridão, há uma parte tomada por sentimentos ruins. Durante a vida, é nosso autoconhecimento que permitirá entender que é por tudo aquilo que está dentro de nós que vamos desempenhando diferentes papéis com as pessoas. Isso porque, o que mostramos para algumas não mostramos para outras e por isso temos diferentes níveis de conexões. Oscilamos entre o bem e o mal no julgamento alheio: para alguns somos ótimos irmãos, para outros péssimos colegas de trabalho, para alguns somos os melhores filhos do mundo, para outros os piores amigos do universo. Embora ainda, ao meu ver, este rótulo "bonzinho/mal", aconteça porque na verdade não somos responsáveis por suprir a necessidade do outro e que  este empurra para nós. O que temos é o poder de decidir qual o caminho seguir e desejar que este seja o caminho da melhor verdade.

       Sigo então a minha jornada cada vez mais livre, cada vez mais em desapego, cada vez mais interessado em descobrir o que me faz bem e longe de quem quer que seja que de alguma maneira me faz sentir mal. Carrego em mim erros grandiosos e toda a responsabilidade daquilo que me pertence, das dores que eu já causei à algumas pessoas. Só não carrego mais culpa e não adianta qualquer pessoa tentar causar. Não quero que ninguém mais a qual eu tive qualquer desentendimento, carregue ainda qualquer sentimento desse tipo. Os atritos estão em nossa vida por algum motivo que vamos descobrir somente depois, lá na frente. Tudo é aprendizado. A aceitação e o respeito pelas escolhas de cada um são chaves importantes para manter as boas relações. Obviamente, precisamos de esclarecimentos, entender que cada pessoa tem suas razões e que estas, não cabem a uma só. Sempre que me afastei de alguém é porque tive motivos fortes para tanto (não seria necessário criar outras estórias). Assim como as pessoas que se afastaram de minha vida, tiveram os seus bons motivos. Não há mais pesos para serem carregados, eles foram divididos como deveriam ser. Minha conduta de compreensão, também tem limite de tolerância e o que eu já não aceito mais é que tais pesos passados, sejam apenas colocados nas minhas costas. Sempre há dois (ou até mais) lados em uma situação e apontar o dedo sem conhecimento de cada causa, não ajuda em nada. Percebi também que não adianta querer se explicar o tempo inteiro, há pessoas que simplesmente não entendem, não mudarão o seu pensamento só por nossos argumentos ou compreendem apenas aquilo que convém à elas. Preferem que o outro carregue o fardo todo, querem sair imune, nunca admitem as suas próprias falhas como se apenas o outro fosse o culpado, apenas o outro estivesse errado, apenas o outro fosse o responsável pelas partes ruins. Não entendo mais amores que são cheios de cobranças, a procura deve ser natural. Assumo as minhas escolhas na vida tais como elas estão, prefiro levar a vida assim, me prefiro assim (não pretendo retornar a quem eu era e talvez quem sou hoje já não agrade mais algumas pessoas). Mas se não há aceitação pela parte do outro, há toda a liberdade de se  afastar, seguir o seu caminho, mas me deixar seguir o meu, me deixar seguir em frente (assim como faço).  Há dores que nos machucam, outras que nos modificam (eu, me tornei outro).  Não há rancor nestas palavras, não há raiva, elas querem reencontrar amor, leveza: os esclarecimentos que conduzem ao entendimento. Me sinto triste, muito triste  por não ter conseguido levar adiante relações com pessoas importantes na minha vida. Eu as perdi, elas me perderam, eu reconheço as minhas falhas. Fechei a porta da intimidade dentro de meu mundo interior e ainda sinto medo de abrir, por proteção. Nunca no entanto, fui mal agradecido à estas pessoas de que me afastei. Me sinto grato pelo tempo que passamos juntos, pela vida que vivemos juntos, pela ajuda que elas me ofereceram e pela ajuda (que elas sabem), também ofereci à elas. Amor e amizade, sempre serão trocas, genuínas trocas. Tenho a total compreensão daquilo que fiz e que de alguma maneira magoou estas pessoas, mas sinto também que ofereci uma gama de coisas boas às suas vidas enquanto vivemos juntos. Se for bom para todos, que um dia saibamos encontrar o caminho de volta.  Tenho no entanto ainda, os melhores amigos da vida, que carrego comigo e que me carregam com eles, que estão por perto mesmo longe. Me sinto abençoado por dividirem suas vidas comigo e por compreenderem a minha jornada. Tenho ainda uma família amada, a qual hoje consegui retribuir muito da ajuda e mais ainda do amor de uma vida toda. Tenho ainda um amor que me ama, que me cuida, sem condições. Conheci tantas pessoas lindas em meu caminho... Mas não posso ficar.

      Tantas coisas preciosas neste plano, mas não posso ficar.

    Tenho hoje o profundo entendimento da morte na vida, desta passagem a qual todos estamos tendo aqui. Acredito fielmente em outras existências e compreendo que sou "além daqui". Queria apenas ter uma vida bonita antes de ir para a outra camada. Uma vida que não passasse despercebida, que não fosse em vão, que deixasse alguma história, alguma inspiração. Venho escrevendo há um longo tempo, devaneios de minha jornada interior, quem sabe após minha partida, estes textos façam algum sentido. Minha tristeza, minha melancolia, minha alegria, minhas ajudas, minha bondade, minha raiva, minha escuridão, minha luz, meu amor, minhas palavras...tudo o que fez/faz com que esta minha jornada seja interessante. Me perco em minhas teorias, "sempre soam melhor no papel". Estou me colocando no caminho da prática, tentando encontrar a cura. Sempre que volto do Templo, fico assim: contemplativo de minha própria vida. Estou certo de que a felicidade é uma de minhas maiores procuras já que todas as minhas buscas no final das contas são para que eu mesmo me veja sorrir.
       Citando Thoreau novamente, embora em outro contexto: "Ao invés de amor, de dinheiro e até de fé, me deem verdade", não exatamente assim, mas nunca antes isso fez tanto sentido. Olho para dentro de mim e encontro as minhas verdades, mas quero encontrar todas aquelas que ainda não encontrei e assim vou seguindo a jornada nesta profunda experiência evolutiva que é a vida.
   Sigo só, embora já tenha aprendido que a felicidade só é verdadeira quando compartilhada.
        Enviando pensamentos de amor e luz...

Uma canção para ilustrar todas estas palavras, "Arc", Eddie Vedder, neste mantra que entendo como um ritual de passagem, como um processo de entendimento do espirito ao partir deste plano e chegar na outra camada. No meu tempo, no meu dia, eu quero olhar para trás e me sentir em paz: https://www.youtube.com/watch?v=maVKTZchxiA

sábado, 25 de maio de 2013

Seguindo a jornada

         Sigo a minha jornada cada vez mais em desapego, seja do que é material, do que é palpável, seja de pessoas. Sigo cada vez mais conectado espiritualmente ao que me faz bem e na simplicidade com que vivo meus dias. Cada vez  mais também, vejo tudo na vida como um ciclo. Tudo: já que inclusive a própria vida é a representante maior de que todas as coisas findam neste plano!

        Pensar nas relações humanas e entendê-las como um ciclo, como um tempo de evolução para ambas as partes, com a liberdade de continuar junto ou seguir outros caminhos quando necessário, gera menos sofrimento. Ter este entendimento, faz com que eu também me posicione como ciclo passageiro na vida das pessoas com as quais convivo: sei que elas poderão me deixar quando um ciclo de suas vidas junto a mim, tiver chegado ao fim. Penso que cada etapa tem seu tempo e os componentes necessário para esta duração e obviamente também penso que alguns ciclos levam o tempo de uma vida inteira. Embora ainda, alguns outros possam terminar antes do que se pensava acabar por conta de diversos fatores. Sem culpas, sem cobranças, sem julgamento.

       Os julgamentos. Ah os julgamentos! Sempre presente e sempre direcionados de forma tão errada, tão inadequada. As pessoas erram feio ao tentar definir você, erram longe ao tentar apontar o dedo para o seus atos sem conhecê-lo interiormente, sem entendimento pleno, sem analisar as situações por todos os lados. Mas no final das contas, no convívio com pessoas, o julgamento está presente diariamente e tem lá o seu lado positivo: permite que você compreenda melhor a natureza interior de cada indivíduo, principalmente quando este lhe deseja que mudanças ruins aconteçam em sua na vida.

     Contraditório pensar que, logo eu, com minha luta árdua contra a sociedade, a sociedade do "ter de, adquirir", contra a sociedade "das aparências, do status", a sociedade que preza uma vida de mentira, de necessidades desnecessárias, a sociedade que impõe como uma obrigação cada pessoa ter seu carro, sua casa, seu casamento, seus filhos como uma receita enganosa de felicidade, eu que vivo em  profunda busca na minha jornada interior, acabei sendo julgado como materialista, como um ser humano desprezível que se aproveitou de um amigo apenas quando precisava da ajuda dele e após ter uma "condição melhor de vida", o descartei. Mesmo que o amigo em questão soubesse exatamente dos verdadeiros motivos de meu afastamento e os tivesse omitido à esta pessoa sendo que esta conhecia apenas as suas versões. Sempre será mais fácil apontar o dedo, tentar culpar o outro. Ironicamente, a avaliação da "condição melhor de vida", foi  julgada apenas por conta de fotos que acabei postando nas redes sociais. Pensei depois, que deve ter sido apenas pelas fotos de algumas viagens que serviram como expansão para meu ser e não estão expostas lá por outra razão (e que foram parceladas longos meses a fio para que eu tivesse estas oportunidades) ou pelas fotos do meu lar, o qual levarei a vida inteira para terminar de pagar ou ainda fotos de lugares em que estive com outras pessoas. Fotos, fotos, fotos que aparentemente mostram apenas "a parte boa da vida", como todas as fotos que as pessoas que usam as tais redes, costumam "postar". Por trás das poses, das conquistas, há o trabalho, os altos e baixos, as crises, as lutas diárias, as doenças, os remédios, as ajudas, a  história de vida de cada um...

     Triste engano. Será que em nenhum momento tal pessoa pensou que deveriam haver motivos fortes para esta distância, para este afastamento por opção?

       O que faço eu agora com esta ofensa que se instalou dentro de mim? Que tipo de ser espiritual eu seria, se tais acusações se referisse a uma verdade absoluta? Como fazer com que uma fotografia também revele o meu silêncio, aquilo que está aqui dentro de mim ou a minha "essência perdida", modificada?

     Eu continuo a minha jornada. Reaprendendo a lidar com a minha raiva, com a minha escuridão, com meus sentimentos ruins. Reaprendendo a lidar com o meu amor, com a minha luz, com meus sentimentos bons. Sem camuflar qualquer um deles pois há espaço para que todos convivam dentro de mim. Eu tentarei novamente encontrar a minha paz após esquecer este absurdo sem tamanho. Não quero que isso se torne novamente tristeza dentro de mim, já que meu pensamento tem esbarrado diariamente neste episódio e me deixado dolorido, distante, mudo. Desta vez eu preferi então, me deixar ser julgado. Minhas explicações não são satisfatórias, nunca serão. A única maneira de sairmos de uma situação é olhando para dentro de nós mesmos, percebendo então onde falhamos, onde erramos e pararmos  de procurar externamente por qualquer resposta. Me sinto bem ao fato, de que, mesmo estando afastado de algumas pessoas na vida, seja por conta do que elas me causaram, seja por conta do que eu causei à elas, mesmo que elas não queiram dividir os acontecimentos de suas vidas comigo, nunca desejei que suas vidas dessem voltas para pior só para que de alguma maneira elas precisassem novamente de mim. Eu prefiro desejar que elas encontrem seu verdadeiro caminho, sejam qual forem as suas escolhas, já que o mundo não gira em torno de meu umbigo. Quando alguém nos magoa, geralmente temos a reação de pensarmos "que vida dará o troco a esta pessoa", só porque ela falhou com nós, porém, possivelmente ela pode estar fazendo o bem para outro grupo, para a sua família, para o seus amores, para outros amigos. Porque então, ela teria de sofrer consequências ruins apenas por sermos egoístas?

       Quem está comigo ou quem já esteve, estará sempre em liberdade!

      E esta liberdade é a minha fiel companheira. Nossa jornada aqui neste plano é solitária. Linda, profunda e solitária demais. Temos pessoas ao nosso redor, temos a nossa família, temos os nossos amigos, nossos amores, mas somos na verdade todos sós, estamos aqui pela evolução própria. E esta solitude, esta visão filosófica de mim mesmo, sozinho, sentado em algum lugar no qual eu aviste o horizonte ao mesmo tempo em que possa olhar para dentro de mim e refletir sobre o meu caminho, nunca me caiu tão bem.

       Sigo a estrada...sigo só.


sábado, 4 de maio de 2013

Quase trinta: Capítulo final - Experiência

     Cheguei na linha vermelha! Aquela da qual desde meus 25/26 anos eu intitulava de "a linha em que eu já deveria estar encaminhado na vida", antes dela, espaços abertos para experimentações. E ok, todos estavam certos: com o tempo ganha-se cada vez mais maturidade. Já dizia Shakespeare que a maturidade na verdade, tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Não fez nenhuma grande descoberta com esta citação - já que falou de uma questão um tanto óbvia, mas - chegando finalmente na celebração de meu trigésimo ano nesta existência, reverencio agora a minha experiência.

     Trinta anos e já trabalhei de tudo um pouco:  já sentei tijolo, já fui pintor, já colhi uva em época de safra para poder ter grana para um Carnaval, já trabalhei em fruteira, tive emprego em mercado, em Hotel, já fui vendedor de cartão, de eletros, de móveis, já "descarreguei" mercadorias de caminhões em madrugadas chuvosas de inverno, já passei por humilhações de chefia (calado) sem desistir para poder pagar o aluguel. Já trabalhei com gente boa, fiz bons amigos. Já trabalhei com gente má, preferi distância. E já deixei todos estes trabalhos para trás. Tenho hoje uma visão mais apurada do que é necessário e do que não é necessário "aguentar" para me estabelecer em qualquer lugar. Tenho voz ativa, tenho responsabilidade e profissionalismo, não tenho vocação para manter aparências, nem estômago para fazer qualquer - QUALQUER - coisa que eu não esteja a fim de fazer. Hoje, ajudo pessoas a decorarem os seus dias, logo logo formado como Designer de Interiores (e não, já não preciso mais pagar aluguel). Hoje, entendo que o respeito deve existir em mesma proporção em qualquer local de trabalho. De tudo, estranhamente percebi que somos um tipo de pessoa quando estamos com dinheiro (segurança) e outro tipo de pessoa quando o tal dinheiro nos falta. Os caminhos a percorrer apontam diferentes direções dependendo de cada situação. E o que vejo, é que a sociedade capitalista destrói valores severamente por conta disso, sendo que um de meus propósitos é lutar contra qualquer apego, naquilo que aqui deixarei.

     Trinta anos e já passei por algumas relações: já me apaixonei  pela primeira vez por uma colega de aula quando eu tinha  quinze anos mas terminei porque senti medo de um compromisso tão cedo (mesmo querendo continuar), já fiquei muito a fim de outra e fui deixado porque ela voltou para o ex, já passei um tempo com uma e ela me contou que estava apaixonada por "outra", já  senti  obsessão por alguém que sempre me deixava em dúvida do que eu sentia e do que sentia, em um período doentio e devastador que me fez chegar ao fundo do poço entre meus 19/20 anos. Já quis muito quem não me queria, já fui esnobado, já levei "costas" na cara mas também já traí confiança. Já tive casinhos alternativos, relações casuais, apenas sexuais. E já encontrei o amor. Ah, o amor! O outro lado da coisa toda, a calmaria, a doação, o cuidado. Dividindo a vida juntos há quase nove anos... É bem interessante o fato de que nos relacionamos com pessoas e com o tempo vamos entendendo porque continuamos ou não com aquela pessoa específica. Os caminhos, as afinidades, a intensidade dos sentimentos, as diferentes realidades ou o pensamento em comum: tudo contribui para seguirmos juntos ou não. Estar com alguém pra vida toda por exemplo, implica mais em esta pessoa ser boa companhia do que propriamente amá-la em qualquer condição. Tenho hoje uma grande companhia ao meu lado. E tenho também a necessidade de ter o meu espaço, a minha solitude, a minha liberdade, caso contrário, prefiro viver só! Nesta troca de experiências que vamos tendo, gosto de olhar pra trás e perceber que, apesar de ter sofrido com as mágoas e também ter causado algumas dores, cada fase contribuiu para moldar quem sou hoje e a forma como me relaciono. Boa também, é a sensação de saber que muitas destas pessoas seguem  felizes. Me sinto grato por terem dividido momentos de suas vidas comigo, por tudo o que ensinei, por tudo o que aprendi...

     Trinta anos e já vivi um bocado: já enterrei o meu pai, já chorei de saudade, já compreendi a morte na vida, já dei (e ainda dou) o devido valor à minha mãe, já fui um bom irmão para os meus irmãos, já me ausentei da vida de todos, já fui amigão de meus sobrinhos, já tive os melhores amigos do mundo, já me afastei de bons amigos da infância, já os feri, já fui ferido, já os amei muito, já aprendi muito com eles. Já compreendi os ciclos, o tempo necessário para cada coisa. Todas as coisas findam! Já deixei de lado qualquer rancor. Já viajei por aí, já toquei a Cordilheira dos Andes e senti a neve em meus dedos, já conheci o mar do Atlântico, já conheci o mar do Pacífico, já voei, já estive em lugares diferentes, encontrei pessoas diferentes, já mudei de casa algumas vezes, de cidade, de posição. Já passei pelo desespero, pelas dúvidas perfurantes, por períodos de depressão. Já fui criticado, não compreendido, julgado erroneamente. Já fui perdoado, já recebi gratidão. Já bebi além da conta, já fumei maconha, já experimentei outras sensações na mente. Já deixei de acreditar, já voltei a acreditar, já estudei outros caminhos e encontrei a minha própria espiritualidade. Sigo trabalhando em minha busca pela evolução, nesta fusão entre minhas explosões interiores e meu lado Zen aprendiz.

     Como alguém se torna o que é senão por suas experiências e sabedoria adquirida por conta destas?

     Passei a maior parte dos meus vinte e poucos anos não tendo vinte e poucos anos. Olhava para o rosto das pessoas com vinte e poucos anos e nunca me encontrava nelas. É como se minha juventude interior não transbordasse pele a frente. Minha expressão é mais velha! Por outro lado, tive experiências pouco comuns à minha idade e sempre tive uma maturidade a frente de meu próprio tempo. Acúmulo das existências passadas? Quem sabe. Minhas experiências me trouxeram até aqui desse jeito. Me sinto abençoado por entender a vida de forma mais clara hoje e principalmente por aceitar a minha condição humana plenamente, sem negar nenhuma das tantas partes das quais sou constituído. Clareza - mais uma vez - seja bem vinda!

Nos meus trinta anos que chegam agora, tudo o que realmente quero é ter trinta anos...

Seguindo a jornada...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Quase trinta: Capítulo IV - Humor e Melancolia

     Eu não teria como escapar de um traço visível de minha personalidade: meu humor! Todos: o bom, o mau, o sarcástico, o engraçado. Humores que carrego comigo impregnados às minhas falas como partes inseparáveis de quem sou. Há espaço para o riso frouxo, há espaço para o meio riso, espaço e meio para a "rabugice". Mas faço "graça" na maior parte do tempo, eu sei, com certa vocação para tanto. Aliás, porque gosto de pessoas divertidas e vejo o humor como um sinal de inteligência (li numa frase uma vez, nunca esqueci).
     Em contra ponto, assumo ter um pé na melancolia, quem sabe os dois (e o corpo inteiro). Os dias cinzas, o inverno, os pensamentos distantes, a paisagem em mudança, as canções tristes, a presença sutil de uma reflexão permanente que se tornou companhia, fazem também parte de quem costumo ser, do que costumo sentir. Mergulhado no silêncio e nos sons, viajo. Ultimamente, "pego o trem" como em alguma antiga existência ouvindo "Beirut". Sentado  em meu banco, tomando meu café,, olhos avançando a janela, descansando no horizonte, nas cidades onde passo. Sorriso doce, sem fala. Melancolia, não solidão. 
     Quase trinta! Sem descartar qualquer uma destas partes, aos meus extremos, brindo hoje!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Quase trinta: Capítulo III - Coragem

     Engraçado como o tempo vai afastando certos medos. É piegas eu sei, falar isso. Mas chega-se em uma etapa da vida, onde na verdade, a idade vai encorajando nossos atos. Obviamente, nossas experiências contribuem para tanto. Vamos nos tornando quem de fato somos. Mas já antes não éramos? Acontece que quando estamos na casa dos vinte anos, temos uma espécie de urgência em  mostrar serviço. Temos a necessidade de relatar o que sabemos, esclarecer que temos uma maturidade a frente de nosso próprio tempo e que mesmo nesta idade mutante, já adquirimos uma boa dose de sabedoria. Temos tendência a sermos proativos, de assumirmos posições, de termos muitas opiniões formadas, respostas prontas e de sermos dedicados como se tivéssemos que provar constantemente nossas capacidades: profissionais, emocionais, sexuais e todos os outros "ais" que couberem aqui. Chega a ser exaustivo! Não nos damos conta de que estamos apenas tecendo a nossa personalidade e nos envolvendo com aquilo que nem sempre faz parte do que realmente somos ou pretendemos ser. Estamos seguindo uma linha, embora nossa rebeldia juvenil garanta que não!
     Acontece que, em menos de um mês estarei deixando a tão mágica "casa dos vinte". Meus "trintões" já estão quase batendo à porta e sabe o que é mais interessante? O fato de eu estar em uma fase receptiva à eles. Este não é o momento para ter qualquer tipo de crise, ao contrário, parece que as coisas estão ficando cada vez mais esclarecidas, mais palpáveis, mais próximas a mim. Clareza! Algo que tanto busquei! A nova Era que iniciará há pouco tempo, não me assusta mais. Já não sou mais o garoto de onze anos de idade que acreditava que uma pessoa de trinta anos, era na verdade uma pessoa bem, bem mais velha, que já deveria estar estruturada financeiramente, casada, com filhos e feliz. Tenho orgulho de não ter seguido "a receita padrão" imposta pela sociedade, de não ter me tornado parte de uma família modelo não convincente, como estas que estampam as embalagens de margarina do nosso café da manhã do dia a dia.

     Sigo, em liberdade.
     Eu não preciso camuflar como sou, como sinto, como vejo, como penso. Eu simplesmente estou eu e aceito esta condição. Tirando qualquer roupagem, trato a minha nudez com devoção.
   

quinta-feira, 28 de março de 2013

Do que se é capaz

     Em retrospecto, me vejo hoje, com um abismo de diferença entre quem eu era e quem sou.  Passos largos voltando cinco anos atrás. Mas o que ainda sou capaz de fazer que já não deveria mais?
Em outros tempos, minha natureza responsável, preocupada, pacífica, contruída de amor, divinamente deixou que meus demônios controlassem a situação descontrolada e eu falhei. Sou hoje constituído de tal falha, que não me deixa, que está vivendo em mim.
     Eu diria que, sei lidar bem melhor com as mágoas  que o outro me causa, não sabendo como amenizar aquelas que eu próprio causo. Carrego em mim certa estupidez. E não há nada a fazer com aquilo que o outro não consegue esquecer e te aponta, que sabe que está intrínseco a ti. Incrivelmente este tipo de dor, dói mais. Como então, ainda ver o reflexo no espelho da mesma forma? Quem realmente se é?
    Não confiável, desprezível, imaturo, irresponsável, egoísta...
    Sou então capaz de ser quem jamais se pensou que eu fosse.
 

sexta-feira, 22 de março de 2013

Quase trinta: Capítulo II - Liberdade

     Em meu braço direito, a tattoo "Status Libertatis" (em latim), faz  referência ao que intitulo "uma de minhas maiores buscas para manter a minha paranóia emocional equilibrada": o estado de liberdade! Vim parar aqui livre demais! Tão livre que às vezes nem meu próprio corpo consegue segurar o espírito que carrega dentro dele - vago por aí, na maior parte do tempo inconscientemente. Tenho mais necessidade de espaço do que alimentar.  De alguns anos pra cá - talvez nos últimos cinco - me percebi assim e daqui para pior (ou melhor). Ter meus momentos solitários nunca foi problema, os chamo de "encontro".
 
     Não gosto de nada que me prenda, nada que esteja fora do limite da minha aceitação, nada que me sufoque, nada que me pressione. Nada que deixe meu estômago incômodo. Por conta disso, às vezes me afasto. Corpo presente em pensamentos distantes. Por vezes muitas, me sinto egoísta sendo assim. Por vezes outras, transfiro esse egoísmo ao outro, quando não há entendimento do que realmente me faz bem. Sabores e dissabores das relações humanas. Mas qual o grande sentido de estar aqui a não ser a evolução própria?

     Concedo esta mesma liberdade a qual tanto necessito à todas as pessoas ao meu redor: não suporto cobranças, portanto não as faço, não gosto de obrigações, então deixo as pessoas naturalmente decidirem, não sou de insistir nem de pedir explicações e com isso apenas gostaria destas mesmas não-ações comigo. Quem está comigo aliás, está sempre em liberdade.
 
     A liberdade para a solidão e para a companhia. A liberdade de seguir e voltar. A liberdade de fazer e de não.  A liberdade de ficar e de partir.  A liberdade de ser, sem magoar ninguém, sem prejudicar quem quer que seja, sem deixar de ser pelo outro. A liberdade da fala e do silêncio. A liberdade de não querer ter filhos e a de realmente não ter filhos. Todo o tipo de liberdade me interessa! E nesta etapa, já me acostumei com os tantos julgamentos vindos de fora.

     Cada vez mais próximo de chegar aos trinta anos, estou me percebendo mutante. E estou pra lá de interessado nestas constantes mudanças. Aliás,  também tenho refletido aquilo que deveria estar seguindo e não estou, as minhas poucas próprias regras das quais usufruo menos do que teria de. A brevidade do tempo me assusta, quero então caber dentro de minha própria vida. Nada mais. É assim que tornarei a minha jornada mais interessante.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Desde que saí de lá

     Eu lembro que antes, bem antes, eu reclamava que por lá só tinha mato. E que apesar desse mato ser meu fiel companheiro junto as tardes infindáveis, eu queria antes ainda da adolescência, viver no centro das grandes cidades. Eu queria barulho já que vivia em meio ao marasmo. Minha estúpida surdez, tornava aqueles sons suaves de pássaros ou do vento batendo nas folhas das árvores quase dispensáveis. "Quase" neste caso, foi o fio que nunca me deixou desprender totalmente do lugar de onde vim. E desde que saí de lá, é pra lá que volto para buscar novamente os sons e o mato que deixei para trás.

    A primeira vez  em que visitei a capital por exemplo, ainda era muito novo e fiquei deslumbrado. Nunca havia visto prédios tão altos, faróis de carros que brilhavam mais do que as estrelas lá do meu céu e ouvido o barulho que eu tanto queria para mim. Reverencio hoje, o momento em que caí na real e percebi que tudo passava sim de ilusão: era de verdade e era insuportável. Logo percebi que nada era mais bonito do que as estrelas lá do meu céu.

    Hoje, morando em uma cidade de porte médio (eu até diria "grande"em proporção a minha cidade natal) é pra esta cidade natal que retorno para me reencontrar. A frequência, tem diminuído é bem verdade, uma por conta da distância, outra por conta que desde a morte de meu pai, minha mãe acabou decaindo muito e no momento está inclusive na capital, na casa de uma de minhas irmãs.  Também por conta disso, a relação entre a família mudou, então acabei me afastando. A família de minha namorada também é de lá, e é onde com menos frequência ainda apareço de vez em quando. Isso acontece apenas por conta desse meu jeito reservado -por incrível que pareça-  e por me sentir arredio as reuniões familiares por conveniência (nunca convincentes). Mas neste último final de semana, estive com eles. Minha cunhada, me disse em uma de nossas conversas, que na verdade pensava ser eu uma "pessoa urbana", quando ficou surpresa com o fato de eu comentar que preferia estar em lugares como onde eles moram: uma casa afastada da cidade, com campo, gramado, ar puro, sossego, diferentes tipos de cantos de pássaros e muito, muito verde ao redor.

    Obviamente, eu não usaria de minha hipocrisia para depreciar os ganhos que tenho morando "na cidade grande", principalmente pelas boas oportunidades de emprego. Mas de tal "urbanidade", o que sugo são as facilidades encontradas, o acesso à cultura, cinema, livrarias, loja de discos, opções para entretenimento ou a estrutura dos serviços de saúde, por exemplo. Mas, desta vez, não senti vontade alguma de voltar para a vida agitada depois desses poucos dias "lá fora". Para cá onde a cidade é tomada por veículos, barulhos e ostentação. Onde as pessoas dão facadas uma nas outras por conta de um cargo e são capazes de enganar a si próprias levando uma vida de mentira e enganações, misturadas a infelicidade que carregam dentro de si. Para cá onde "verdade" é facilmente confundida com "vaidade" e ficamos perplexos com tamanha maldade que existe dentro daqueles que já não têm salvação: os acorrentados ao ego, os amarrados às aparências

    Desde que saí de lá, é daquele mato que sinto falta e é para aquele mato que retorno quando preciso reciclar. Há uma abismo de distância que separa o "eu antigo" do "eu de agora", mas há em todos estes "eus", a essência das coisas que não mudam. Já que o que não muda, é aquilo que ainda me leva pelas estradas a fora e me permite voltar mesmo já não sendo eu, o eu que deixei pra trás. Não, eu não moraria por lá novamente, quero apenas usufruir da liberdade de ir e vir. Me sinto nômade dos lugares que habito. Pretendo não pertencer a lugar algum. E finalizo exaltando o pensamento de Thoreau sobre viver em um lugar só: "Graças aos Céus, aqui não é o mundo inteiro!"

Jaguari-RS




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Morte Vida Descabida

     Obviamente já não é necessária mais uma outra versão dos fatos acontecidos no incidente ocorrido em Santa Maria no último Domingo 27. Foram mais de duzentas mortes, o que por si só, já grita o bastante, inclusive em silêncio. Mais de duzentas pessoas! Ainda fico atordoado com tamanho número. A noticia terrível que tive logo ao acordar, enviada por uma sobrinha, fez com que minha primeira reação fosse enviar mensagens via celular e ligar para os amigos que poderiam estar lá, ou conhecer quem quer que seja que lá estivesse. Na verdade, confundi esta danceteria com outra, já que sua inauguração aconteceu após eu ter ido embora daquela cidade. Meus melhores amigos ainda estão lá, mas o tipo de festa, não seguia o nosso gênero. O alívio da notícia de não ter "perdido" ninguém próximo a mim, emocionalmente falando, não aliviou a tensão, espiritualmente falando, de me entristecer com cada perda, de me colocar no lugar de cada um que "perdeu" seus filhos, seus amigos, seus namorados, seus colegas. E assim, eu assumi a responsabilidade espiritual daquele momento. Foi um dia de mentalizações muitas aos amparos, preso naquilo em que acredito. Além da dor das famílias, me importei com "a passagem" de cada um desses seres, da quantia de energia necessária que deveria ser enviada à eles para que tentassem compreender aquele momento de deixar este plano e adentrar em outra camada. Pendo pra estes lados e minhas "crenças" são formadas por partículas sugadas daqui e dali, onde da luz indicada por cada filosofia ou religião, filtro aquela que me aquece. Porém, meu lado racional, me permite analisar que, se tratando de uma tragédia de proporção gigantesca, é confortante espiritualmente, a resposta de que há um motivo maior, de grande transformação resultante deste acontecimento horrendo. É uma resposta de alívio imediato. É uma resposta fácil de nosso cérebro processar como aceitação daquilo que não se explica. Mas, centenas de pessoas precisam morrer para que apenas dezenas de outras aprendam a lição? Qual lição? Que tipo de transformação? Se aos meus olhos, até parece devaneio, mas "lições" como estas evaporam num espaço menor do que sessenta dias. São perecíveis. São atropeladas pela frase pronta "de que a vida continua".

     Por vezes muitas, de tanto acreditar, desacredito... Não encontro razões nas alucinógenas explicações (descabidas). Discussões, estas sim surgiram: justiça, poder público, segurança, carnaval. Carnaval??? Mas tais assuntos em pauta, tão logo desaparecerão. A rotina do dia a dia, logo logo faz tudo virar história e um memorial "para lembrar o fato" é construído em cima de sentimentos que não deveriam ser esquecidos. Eu não quis usar de minha estupidez para escrever um texto sobre dor. A DOR NÃO CABE AQUI. Não cabe em mim, não cabe em ti, não cabe em nós. Prefiro, exaltar o amor humano espalhado nesses tumultuados dias. Os corações solidários, voluntários, oradores. Foi grandioso demais perceber a humanidade de cada ser que aqui ficou. As ajudas prestadas, as preocupações compartilhadas. Eu, em minha pequena contribuição, continuo com as mentalizações, como se elas fizessem parte importante de um longo ritual de passagem. Acabei por enaltecer meu ego, que estava guardado em uma caixa há meses, já que me senti extremamente bem por estar consciente e lúcido ao ponto de não precisar de um evento como este para usufruir de algum tipo de transformação. Eu, apenas como tantos, senti a tristeza que a impotência causou. Eu, apenas como tantos, me assustei com a fragilidade da vida.

     Somos tanto, somos tão pouco. Deus perdoe a nossa ignorância. Amém!
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