quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Carta à minha mãe

     Eu continuo querendo roubar a tua tristeza e esconder em algum lugar onde jamais possa encontrá-la de volta.  Eu não consigo lembrar em minha memória, período maior do que metade de um dia em que te senti realmente feliz. Talvez apenas, em nossos abraços de reencontro. Te sinto tão triste. Após a partida dele então, te sinto desistente.

     Eu queria arrancar este peso dos teus ombros, o rancor que tu guarda em vão, qualquer culpa que não é tua, a tua mente que não deixa o passado descansar. Olha para a vida mãe! Te peço. Só mais um pouco, só mais um tempo, menos reclamações. Olha para dentro, lá dentro, e procure entender o papel que tem, encontre o caminho da leveza do ser.

     Tenho receio. Receio que não haja espaço suficiente para a sua transformação interior. Em minhas mentalizações portanto, mesmo sem permissão, listo a sua cota de coisas boas. Porque quero que sua passagem seja em luz. A morte de quem ainda tenho já não me assusta mais. Me dói, mas não assusta. Morte não é sentido de fim: é o que dá o sentido da vida. Não perdemos o pai, mãe. Ele continua. Todos continuaremos.

     Em minha constante busca espiritual mãe, descobri recentemente, que é a alegria que nos guia neste plano. A alegria é nossa armadura interior e é irmã da paz. Quase por isso, deixei todas as minhas orações de lado e pus apenas um sorriso na alma. Te quero alegre mãe, quero que descubra a maravilha da existência antes de deixar a sua para trás. Por isso te acolho e cuido tanto. Eu sou teu filho e quero amenizar a tua dor.

     Eu entendo cada uma destas linhas, destas marcas profundas, destes desenhos esculpidos em seu rosto. Conheço cada história. Cada tristeza. Cada desilusão. Por isso te respeito e te dou o valor de um pedaço todo. Mas o tempo do cansaço, já se foi. Resta agora, o tempo para tua cura. Restam agora, as horas para teus próprios agradecimentos. Restam ainda, todos os anos até o final da tua vida.

    Te tenho amor. Tão grande, tão grato. Te guardo em mim. Estou contigo. Cuida de ti. Cuida do teu espirito. Aproveita teus filhos. Os sorrisos dos netos. O abraço da beleza dos dias. Nossa conexão, vem de outras e assim moldou essa forma. O cordão umbilical, ainda não cortado, me amarra em ti. Procurando o meu próprio sentido, após seu corte, seguirei. Seus setenta e poucos, meus quase trinta. Envolto em placenta, saí para o mundo. Me trouxe à vida, me deu amor. Minha querida, minha mãe.
(http://www.youtube.com/watch?v=hTaE-6-fM4M)

2 comentários:

Kássia Alves disse...

Nossa, que lindo. me emocionei!

Kássia Alves disse...

Nossa, muito lindo. me emocionei de verdade!