domingo, 24 de fevereiro de 2013

Desde que saí de lá

     Eu lembro que antes, bem antes, eu reclamava que por lá só tinha mato. E que apesar desse mato ser meu fiel companheiro junto as tardes infindáveis, eu queria antes ainda da adolescência, viver no centro das grandes cidades. Eu queria barulho já que vivia em meio ao marasmo. Minha estúpida surdez, tornava aqueles sons suaves de pássaros ou do vento batendo nas folhas das árvores quase dispensáveis. "Quase" neste caso, foi o fio que nunca me deixou desprender totalmente do lugar de onde vim. E desde que saí de lá, é pra lá que volto para buscar novamente os sons e o mato que deixei para trás.

    A primeira vez  em que visitei a capital por exemplo, ainda era muito novo e fiquei deslumbrado. Nunca havia visto prédios tão altos, faróis de carros que brilhavam mais do que as estrelas lá do meu céu e ouvido o barulho que eu tanto queria para mim. Reverencio hoje, o momento em que caí na real e percebi que tudo passava sim de ilusão: era de verdade e era insuportável. Logo percebi que nada era mais bonito do que as estrelas lá do meu céu.

    Hoje, morando em uma cidade de porte médio (eu até diria "grande"em proporção a minha cidade natal) é pra esta cidade natal que retorno para me reencontrar. A frequência, tem diminuído é bem verdade, uma por conta da distância, outra por conta que desde a morte de meu pai, minha mãe acabou decaindo muito e no momento está inclusive na capital, na casa de uma de minhas irmãs.  Também por conta disso, a relação entre a família mudou, então acabei me afastando. A família de minha namorada também é de lá, e é onde com menos frequência ainda apareço de vez em quando. Isso acontece apenas por conta desse meu jeito reservado -por incrível que pareça-  e por me sentir arredio as reuniões familiares por conveniência (nunca convincentes). Mas neste último final de semana, estive com eles. Minha cunhada, me disse em uma de nossas conversas, que na verdade pensava ser eu uma "pessoa urbana", quando ficou surpresa com o fato de eu comentar que preferia estar em lugares como onde eles moram: uma casa afastada da cidade, com campo, gramado, ar puro, sossego, diferentes tipos de cantos de pássaros e muito, muito verde ao redor.

    Obviamente, eu não usaria de minha hipocrisia para depreciar os ganhos que tenho morando "na cidade grande", principalmente pelas boas oportunidades de emprego. Mas de tal "urbanidade", o que sugo são as facilidades encontradas, o acesso à cultura, cinema, livrarias, loja de discos, opções para entretenimento ou a estrutura dos serviços de saúde, por exemplo. Mas, desta vez, não senti vontade alguma de voltar para a vida agitada depois desses poucos dias "lá fora". Para cá onde a cidade é tomada por veículos, barulhos e ostentação. Onde as pessoas dão facadas uma nas outras por conta de um cargo e são capazes de enganar a si próprias levando uma vida de mentira e enganações, misturadas a infelicidade que carregam dentro de si. Para cá onde "verdade" é facilmente confundida com "vaidade" e ficamos perplexos com tamanha maldade que existe dentro daqueles que já não têm salvação: os acorrentados ao ego, os amarrados às aparências

    Desde que saí de lá, é daquele mato que sinto falta e é para aquele mato que retorno quando preciso reciclar. Há uma abismo de distância que separa o "eu antigo" do "eu de agora", mas há em todos estes "eus", a essência das coisas que não mudam. Já que o que não muda, é aquilo que ainda me leva pelas estradas a fora e me permite voltar mesmo já não sendo eu, o eu que deixei pra trás. Não, eu não moraria por lá novamente, quero apenas usufruir da liberdade de ir e vir. Me sinto nômade dos lugares que habito. Pretendo não pertencer a lugar algum. E finalizo exaltando o pensamento de Thoreau sobre viver em um lugar só: "Graças aos Céus, aqui não é o mundo inteiro!"

Jaguari-RS




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