sábado, 4 de maio de 2013

Quase trinta: Capítulo final - Experiência

     Cheguei na linha vermelha! Aquela da qual desde meus 25/26 anos eu intitulava de "a linha em que eu já deveria estar encaminhado na vida", antes dela, espaços abertos para experimentações. E ok, todos estavam certos: com o tempo ganha-se cada vez mais maturidade. Já dizia Shakespeare que a maturidade na verdade, tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Não fez nenhuma grande descoberta com esta citação - já que falou de uma questão um tanto óbvia, mas - chegando finalmente na celebração de meu trigésimo ano nesta existência, reverencio agora a minha experiência.

     Trinta anos e já trabalhei de tudo um pouco:  já sentei tijolo, já fui pintor, já colhi uva em época de safra para poder ter grana para um Carnaval, já trabalhei em fruteira, tive emprego em mercado, em Hotel, já fui vendedor de cartão, de eletros, de móveis, já "descarreguei" mercadorias de caminhões em madrugadas chuvosas de inverno, já passei por humilhações de chefia (calado) sem desistir para poder pagar o aluguel. Já trabalhei com gente boa, fiz bons amigos. Já trabalhei com gente má, preferi distância. E já deixei todos estes trabalhos para trás. Tenho hoje uma visão mais apurada do que é necessário e do que não é necessário "aguentar" para me estabelecer em qualquer lugar. Tenho voz ativa, tenho responsabilidade e profissionalismo, não tenho vocação para manter aparências, nem estômago para fazer qualquer - QUALQUER - coisa que eu não esteja a fim de fazer. Hoje, ajudo pessoas a decorarem os seus dias, logo logo formado como Designer de Interiores (e não, já não preciso mais pagar aluguel). Hoje, entendo que o respeito deve existir em mesma proporção em qualquer local de trabalho. De tudo, estranhamente percebi que somos um tipo de pessoa quando estamos com dinheiro (segurança) e outro tipo de pessoa quando o tal dinheiro nos falta. Os caminhos a percorrer apontam diferentes direções dependendo de cada situação. E o que vejo, é que a sociedade capitalista destrói valores severamente por conta disso, sendo que um de meus propósitos é lutar contra qualquer apego, naquilo que aqui deixarei.

     Trinta anos e já passei por algumas relações: já me apaixonei  pela primeira vez por uma colega de aula quando eu tinha  quinze anos mas terminei porque senti medo de um compromisso tão cedo (mesmo querendo continuar), já fiquei muito a fim de outra e fui deixado porque ela voltou para o ex, já passei um tempo com uma e ela me contou que estava apaixonada por "outra", já  senti  obsessão por alguém que sempre me deixava em dúvida do que eu sentia e do que sentia, em um período doentio e devastador que me fez chegar ao fundo do poço entre meus 19/20 anos. Já quis muito quem não me queria, já fui esnobado, já levei "costas" na cara mas também já traí confiança. Já tive casinhos alternativos, relações casuais, apenas sexuais. E já encontrei o amor. Ah, o amor! O outro lado da coisa toda, a calmaria, a doação, o cuidado. Dividindo a vida juntos há quase nove anos... É bem interessante o fato de que nos relacionamos com pessoas e com o tempo vamos entendendo porque continuamos ou não com aquela pessoa específica. Os caminhos, as afinidades, a intensidade dos sentimentos, as diferentes realidades ou o pensamento em comum: tudo contribui para seguirmos juntos ou não. Estar com alguém pra vida toda por exemplo, implica mais em esta pessoa ser boa companhia do que propriamente amá-la em qualquer condição. Tenho hoje uma grande companhia ao meu lado. E tenho também a necessidade de ter o meu espaço, a minha solitude, a minha liberdade, caso contrário, prefiro viver só! Nesta troca de experiências que vamos tendo, gosto de olhar pra trás e perceber que, apesar de ter sofrido com as mágoas e também ter causado algumas dores, cada fase contribuiu para moldar quem sou hoje e a forma como me relaciono. Boa também, é a sensação de saber que muitas destas pessoas seguem  felizes. Me sinto grato por terem dividido momentos de suas vidas comigo, por tudo o que ensinei, por tudo o que aprendi...

     Trinta anos e já vivi um bocado: já enterrei o meu pai, já chorei de saudade, já compreendi a morte na vida, já dei (e ainda dou) o devido valor à minha mãe, já fui um bom irmão para os meus irmãos, já me ausentei da vida de todos, já fui amigão de meus sobrinhos, já tive os melhores amigos do mundo, já me afastei de bons amigos da infância, já os feri, já fui ferido, já os amei muito, já aprendi muito com eles. Já compreendi os ciclos, o tempo necessário para cada coisa. Todas as coisas findam! Já deixei de lado qualquer rancor. Já viajei por aí, já toquei a Cordilheira dos Andes e senti a neve em meus dedos, já conheci o mar do Atlântico, já conheci o mar do Pacífico, já voei, já estive em lugares diferentes, encontrei pessoas diferentes, já mudei de casa algumas vezes, de cidade, de posição. Já passei pelo desespero, pelas dúvidas perfurantes, por períodos de depressão. Já fui criticado, não compreendido, julgado erroneamente. Já fui perdoado, já recebi gratidão. Já bebi além da conta, já fumei maconha, já experimentei outras sensações na mente. Já deixei de acreditar, já voltei a acreditar, já estudei outros caminhos e encontrei a minha própria espiritualidade. Sigo trabalhando em minha busca pela evolução, nesta fusão entre minhas explosões interiores e meu lado Zen aprendiz.

     Como alguém se torna o que é senão por suas experiências e sabedoria adquirida por conta destas?

     Passei a maior parte dos meus vinte e poucos anos não tendo vinte e poucos anos. Olhava para o rosto das pessoas com vinte e poucos anos e nunca me encontrava nelas. É como se minha juventude interior não transbordasse pele a frente. Minha expressão é mais velha! Por outro lado, tive experiências pouco comuns à minha idade e sempre tive uma maturidade a frente de meu próprio tempo. Acúmulo das existências passadas? Quem sabe. Minhas experiências me trouxeram até aqui desse jeito. Me sinto abençoado por entender a vida de forma mais clara hoje e principalmente por aceitar a minha condição humana plenamente, sem negar nenhuma das tantas partes das quais sou constituído. Clareza - mais uma vez - seja bem vinda!

Nos meus trinta anos que chegam agora, tudo o que realmente quero é ter trinta anos...

Seguindo a jornada...

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