sábado, 24 de agosto de 2013

O animal dentro de nós desperta na proporção em que a nossa natureza mais elevada desaparece

      De tempos em tempos retorno a leitura de Walden ou A vida nos Bosques de Thoreau. Na verdade, recorro aos tantos sublinhados que deixei nas páginas, tão significativos, tão cheios de sabedoria. Em suma, os seus registros de uma vida solitária no bosque por opção, construindo a sua própria casa de madeira e vivendo longe dos apelos cansativos da sociedade, o levou à sua própria descoberta espiritual. Talvez nem precisasse de tamanha fuga, mas assim o fez. O ano era 1845, o século era outro e o anseio de viver longe do tipo de mentalidade consumista e perfurante que percorreu o tempo como se fosse parte de uma praga capitalista, fora maior do que qualquer outra força. Há séculos, a maldição envolta como áurea nos bens materiais agarra a humanidade como uma espécie de feitiço que se alimenta de desespero.

     De tempos em tempos, reavalio então o meu caminho, e o quanto esta "vida moderna" desmonta com a minha saúde física e mental e o quanto os desejos repreendidos consomem a minha energia. Há sempre tempo para as mudanças, para alinhar o trilho das escolhas erradas. Por conta disso, tenho diminuído muitos dos gastos não necessários para não cair na armadilha que está sempre armada, pronta para pegá-lo, sedenta por sua ansiedade. "Não se incomode muito em ter coisas novas, sejam roupas ou amizades. As coisas não mudam; mudamos nós", balbucia Thoreau em uma parágrafo que salta do papel durante a leitura, então desperto.

     De tempos em tempos, entro na escuridão por opção, como um teste comigo mesmo pela vontade de enxergar outro tipo de luz. Aliado à minha imperfeição questiono a minha profissão, a minha futura formação, as pessoas ao meu redor, o tipo de pessoas que se amontoará depois, os meus interesses, a pressão vinda de todos os lados e a minha própria covardia e hipocrisia de me render a um tipo de vida e sistema do qual tanto me desagrada - por minha necessidade de sobrevivência. Em outro parágrafo, Thoreau exclama: "Eu encontrava, e ainda encontro, em mim mesmo um instinto para uma vida mais elevada ou, como dizem, espiritual, como ocorre com muitos homens, e um outro instinto para uma vida selvagem, e reverencio ambas". Releio e respiro fundo, olho para a outra janela por um tempo e então desvio o olhar e retorno para a minha vida, como costumeiramente faço.

     Fecho o livro, perco o sono e sinto tristeza.


Um comentário:

Rúbia disse...

Eu quero passar o resto da minha vida lendo esse texto.