segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A secura do coração

      Escrevo esse texto ouvindo repetidamente a canção "Tardei" do Rodrigo Amarante, letra e música combinam com as lembranças densas de minha memória. Percebi que nos últimos tempos agi de maneira diferente da qual costumo, mais por conta de meu pensamento de evolução espiritual do que propriamente pelo o que meu coração sentia. Revi conceitos, fui atrás de antigos desafetos para resoluções positivas, abri meu ser fechado, deixei de lado as minhas razões para tentar compreender a razão do outro, mas aqui, aqui dentro deste coração, todas estas ações não me beneficiaram. O sossego paira distante. Sinto isso pela forma como meu estômago ferve a cada vez que penso em alguns episódios que ainda me afetam muito. Menti para mim mesmo: não era vontade minha voltar atrás. Era apenas uma forma de camuflar um sentimento que ainda está guardado aqui dentro em que tentei fazer a teoria dar certo, confesso agora, sem sucesso. Abrir meu ser fechado é uma tarefa e tanto! Minha condição espiritual me força à isso e por conta desta condição deixo de lado o meu orgulho, mas meu coração não quer assim. Preferia que meu coração estivesse seco pra nada sentir. Mas ele pulsa e ainda sente certas dores de um passado distante e de outro que ainda está logo ali. Passado este, que por alguns instantes desaprendi a esquecer, embora saiba que urgentemente preciso revisitar este processo.

     Por conta do que acredito ser uma etapa evolutiva, bloqueio algumas ações que eu cometeria inconsequentemente. Costumo por exemplo, tentar usar uma fala mansa em minhas conversas de resolução de conflitos não escutando o meu coração que na verdade precisaria gritar. Afogo gritos que precisariam ter força, engulo choros que precisariam ser correnteza, disfarço a raiva com compreensão. Anulo a minha verdadeira vontade de explosão para não me sentir pior depois, por acreditar que minhas palavras tortas possam perfurar um ser. Tudo isso apenas para tentar controlar aquilo que finjo ter: o equilíbrio.

      Para a maior parte das pessoas, agir com racionalidade é o correto. Porém, esta racionalidade tem me deixado em profunda desvantagem emocional. Sinto tristeza ao pensar em um caso específico, caso este que na verdade só me causa mal: sento, paro, mão segurando o queixo, olhar distante, balanço a cabeça negativamente, fluxo incontrolado de lembranças que retornaram, desse tipo de amor que já não entendo após tantos julgamentos, tanta "razão", tanta cobrança, tanta ironia, após tanto apontamento de culpa, tanta falta de respeito com as minhas escolhas, minhas relações e meus segredos. Após eu ter sido pintado com tinta preta para o olhar dos outros que aproveitaram para fazer as suas doces críticas sem nenhum conhecimento das razões pelas quais mudei e me afastei, e me desejaram profundamente o mal. E mais do que tudo, após o egoísmo de não compreender e não querer a minha felicidade pelo simples pensamento de que eu deveria ter tido uma vida como a sua. Como alguém ousa pensar que conhece o que é melhor para o outro sem ter a certeza de que conhece a si mesmo? Sou agora desprovido de compaixão: não sinto e não sinto culpa por já não sentir. Tenho tentado esvaziar da minha angústia todos os erros que me couberam. Cansei de ser o culpado, o errado, de estar sempre enganado enquanto o outro sai imune como vítima de uma história que começou a construir. Cansei de carregar estas lágrimas nos olhos e engolir a seco durante pelo menos sete, oito anos, sendo o vilão da história toda, sendo aquele que mudou demais o que era antes, sendo que apenas quis me afastar por motivos meus. Tenho dois traumas não superados dos quais nunca falei: hoje não consigo mais confiar plenamente em uma pessoa para contar meus segredos, costumo deixar histórias pela metade porque simplesmente parece que as pessoas também trairão a minha confiança. Trauma maior ainda, é hoje eu não conseguir pedir ajuda quando estou passando por dificuldades, principalmente financeiras, tanta cobrança por ter tido ajuda antes como se eu devesse então seguir a vida que o outro acreditava ser melhor para mim, me tornaram uma pessoa orgulhosa ao extremo, por medo de cobranças futuras ou de quem me ajudar sentir-se no direito de me dizer o que devo fazer da vida, no direito de contar meus segredos para quem quer que seja, como se fosse o pagamento da dívida. Sou grato ao tempo que fui ajudado e sei também que ajudei de outras maneiras. Porque "amizade" é assim, é troca, uma genuína troca. Estendo a minha ajuda a outras pessoas hoje, esta também é uma forma de continuar um caminho de bondade, sem cobranças. Meu aniversário de trinta anos fora destruído. Meus trinta anos, tão esperados. Como esquecer? Fui ofendido: perdi minha essência, fui um mal amigo, fui um aproveitador que estava por perto apenas quando precisava e ainda pagarei caro com a vida que dará voltas para pior. Será que nunca passou por sua cabeça que talvez o que tenha me causado com as mágoas tenha me ferido muito mais do que o que causei? Cansei, cansei, cansei de carregar um peso que não é só meu, de ter de ficar me explicando de tempos em tempos. Cansei de estar na minha hora de dormir e perder sono por conta disso. Carrego ainda pavor da escrita destas falas em mensagens e seria inútil fingir que não. Eu tento apagar de minha memória, mas não consigo, erro meu, eu sei.

     Sou um mochileiro, um aprendiz zen que com muitas falhas ainda carrega algumas pedras nas costas. Estão na mochila sempre à mão, as uso como defesa, mas se precisar também sei mirar bem. Quero me livrar do peso, mas sou precavido. Certo de que precisarei retornar algumas vezes para a correção deste e de outros traços, espero a minha morte ciente de tudo o que não consegui melhorar nesta existência. Eu preciso aprender a esquecer o que me faz mal mas ainda tenho dificuldades com as mágoas principalmente com cobranças e jogos emocionais. Então prefiro a honestidade do que sinto, do que há de humano em mim à minha falsa compreensão espiritual.

     "Tardei, tardei, tardei, só na volta eu vi qual senda me levou, qual me trouxe aqui...desce pelo rio, da terra pro mar, um fio de prata que me leva...", calmamente Amarante me diz para que eu entenda e eu ouço.

     Quem não aceitar a vida que levo, peço apenas que me deixe seguir o meu caminho em paz e siga em sua paz. Eu não julgo as suas escolhas, quem está comigo, sempre estará em liberdade.

      Meu destino me quer só.
    
    








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