domingo, 23 de fevereiro de 2014

Crescido

     Definitivamente eu não soube como lidar com a chegada da vida adulta. Aqui, poderia dizer "ponto final", mas preciso discorrer sobre o tema. Meu total e angustiante despreparo fora camuflado com a responsabilidade que carrego desde a adolescência, porém tal responsabilidade não foi suficiente para enfrentar este mundo de gigantes sendo eu tão menor. A famosa maturidade, tão enaltecida por tantos, chegou em torno de pouco mais de quatro anos atrás, quando resolvi mudar para a cidade onde vivo hoje. Foi aqui que, sem me dar conta, fui adentrando a este mundo e esmagando o meu verdadeiro eu.
     A vida adulta, a qual eu não estava preparado para enfrentar, costura hoje no meu dia a dia uma colcha de retalhos nada atraente, em tons cinza que se mostram em um desinteressante degrade. Eu previa tantas cores. Sendo uma pessoa pacífica, eu esqueci de aprender quais armas eu teria de utilizar para esta tão árdua batalha e trouxe apenas a minha mochila. Neste espaço de tempo, me perdi. Minha fajuta bandeira da juventude ficou presa em alguma parte do labirinto e os círculos quadrados nos quais caminho em repetição estão me deixando cada vez mais longe dela. Não consigo voltar.
     Nesta cidade onde me tornei adulto, me estabeleci. A tal responsabilidade que mencionei anteriormente, me permite analisar que todo este despreparo fora apenas culpa minha. Eu assumo. Todos as outras pessoas as quais conheço souberam facilmente a lidar com suas vidas adultas. Eu não soube. Fato este, exemplificado por todos os sintomas psicológicos e disfunções no organismo que senti em decorrer deste tipo de vida no qual cai. Os tipos de prioridades me deixam devastado. Reflito diariamente sobre o meu planejamento interior e acordo com o brilho da tela em minha frente sobre a mesa em meu trabalho. Não era esta a luz que tanto desejava.
     No emaranhado de relações humanas que vou tendo, tento preservar a minha sensatez. Principalmente quando estou dentro de um jogo em que todos querem ganhar e usufruir de alguma forma de nossos erros. Por sobrevivência os lobos estão cada vez mais famintos e a rede de interesses esta cada vez maior e desprovida de verdade. Cuido para não corromper a minha essência. Ainda assim, erro absurdamente mais vezes do que quando era mais jovem e erros adultos, fazem sofrer tão mais.
    Estou me sentindo inadequado em frente ao espelho, dentro deste corpo, desta jornada, com estas pessoas. Voltei a sentir dores. Retomei meu pensamento febril de ter outro modo de vida. A fuga nunca pareceu tão próxima.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ele


Vez por outra ele precisava de sua solitude.
...
Vez por outra precisava ter muitas relações sociais.
...
De vez em quando, necessitava voltar a falar suas frases no singular.
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De tanto falar "nós", ele tinha medo de perder-se de si mesmo.
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Ele poderia surtar por não poder mais ter espaço para ser apenas ele.
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Ele tinha o cuidado de tentar não magoar o outro, por conta de seus desejos.
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Ele já havia perdido a esperança  sobre o entendimento pleno do outro sobre o seu jeito de ser.
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De vez em quando, ensaiava viagens solitárias sem sucesso.
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Seus desejos eram na verdade tão simples, sua mente complicava tudo.
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A vontade de estar sozinho mais vezes do que de costume, estava ali na verdade para salvar as suas relações.
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Antes que ele desistisse.
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Antes que o sentido se perdesse.
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Tempo solitário e tempo em conexão equivalia a felicidade.
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Na maioria das vezes, enquanto estava em seu trabalho, ele pensava que sua vida poderia ser outra.
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Vez por outra se deixava sonhar. Não muito.
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Todo o tempo, pensava em liberdade.
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Ou teria mais liberdade ou abandonaria a si mesmo.
...
Ou abandonaria a si mesmo.
...
Todo o tempo, ele pensava em liberdade.
...
Todo o tempo, ele pensava.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Status Libertatis (II)

     Ando interessado pela possibilidade de explorar mais da vida. Trago comigo uma vontade romantizada e constante de liberdade e solitude ao mesmo tempo em que sinto paixão em conhecer as pessoas, suas idiossincrasias e o quão tais individualidades podem influenciar os meus pensamentos e ações como o observador que sou. Sinto desejo de ver a alquimia mística de seus rostos e suas distintas formas de encarar esta vida. Sinto proximidade com meu espírito quanto estou perto de outros espíritos viajantes e inquietos tal quão emergisse de meu interior uma explosão de cores e luzes cheirando a flores.
     Não escrevo este texto sob o efeito de erva! Não hoje. Estou disposto a me permitir mergulhar mais neste processo de conectividade com diferentes energias: a substância necessária. Tenho anseio de uma vida simples porém com todas as experimentações necessárias para a abertura de minhas visões, sejam elas vistas como alucinações transitórias ou não. A doença paira na normalidade.
     Ando interessado naquilo que me transporta para diferentes lugares, inclusive dentro de mim. Sejam desejos ou medos. Não se permitir nesta viagem é destruir a possibilidade de evolução e cair em alienação. A troca de material não palpável com pessoas será parte fundamental desta nova etapa externa. Eu quero adentrar à um mundo no qual apenas aprecio teoricamente. A ideia  é  interagir mais com pessoas, sejam mais jovens ou mais sábias, interessar-se por suas experiências e dividir as minhas, para manter a mente como se fossem olhos sempre abertos.
    Eu tenho curiosidade sobre os caminhos que me levarão até onde devo ir. Pedindo carona...