quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Cada ganho equilibrado com uma perda (e vice-versa)


No afeto de minhas relações penso às vezes que seria melhor não ter a capacidade de sentir amor.
...
O amor gera também o medo de sentir mágoas. As mágoas, dilaceram com a minha energia e sobretudo fazem parte daquilo que ainda não aprendi a retirar com facilidade de dentro de mim: elas me deixam longe...
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Prefiro não me sentir barreira, empecilho, não ter atritos, não impedir os desejos do outro que pareceram maiores que outros sentimentos que nos unia.
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Nossos desejos carnais/sexuais nos levam a pensar num tipo de felicidade momentânea que deixa nublado todos os outros tipos de felicidade. Enquanto este tipo parece ser maior e mais importante do que qualquer outro, é no pós orgasmo que sentimos o primitivismo de nosso espírito e as relações que rompemos por conta deste desejo.
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Escolhas, desejos e consequências.
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No afeto de minhas relações penso às vezes que seria melhor não ter a capacidade de sentir amor.
No afeto de minhas relações penso às vezes que seria melhor não ter a capacidade de sentir amor.
No afeto de minhas relações penso às vezes que seria melhor não ter a capacidade de sentir amor.
...
Escolhas, desejos e consequências: disso eu entendo muito bem.
Longe.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Benzedrina

     Tenho tentado inutilmente trancar a minha alma dentro do meu corpo ao invés de deixá-la flutuar. Faço isso como se meu corpo fosse uma espécie de refúgio, mas de tempos em tempos este refúgio torna-se prisão. Fico preso em regras que eu mesmo criei e com isso me torno uma pessoa normal e é na normalidade que paira a doença: meu espírito livre então quer escapar dos ossos. Estou exatamente aqui, no meio da minha jornada, na metade do caminho e as dúvidas nas decisões estão embaçando a parte bonita da trajetória. Tal desprendimento traria mudanças, mudaria o vento, mudaria o jogo dos astros, mudaria a estrada, mudaria os rostos, mudaria o vazio, mudaria os desejos ocos (a não completude), mudaria sentimentos. Sentimentos. Sentimentos. Alegria ou dor? Percebi que não posso manter a minha mente sã, provavelmente seja esta a causa maior de minhas inquietações. Preferindo os meus devaneios. Preferindo o risco da minha transparência no sentir. Preferindo ir... (silêncio).

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O melhor para todos: ciclo fechado e pássaro azul

    Estas são as últimas palavras escritas dentro deste ciclo tão intenso-amargo-vulnerável-desolador e ao mesmo tempo tão revelador. Este ciclo foi um desafio interior constante onde as minhas buscas ficaram cada vez mais urgentes e minhas perdas cada vez mais óbvias. Financeiramente derrotado, espiritualmente mais calmo mas emocionalmente esgotado. Sentimentos em desordem, em absoluta desordem. Saí fora da trilha por diversas vezes e custei a reencontrar o trajeto, e no final de tudo, aqui estou eu sem direção. 

    Algumas coisas vieram ainda mais à tona como a minha tendência a tomar parte de toda a responsabilidade nas situações de conflitos em todas as minhas relações (tudo o que sinto está dentro de mim e não na outra pessoa), minha tendência a doer, mesmo que compreenda que nunca se trata daquilo que o outro faz e sim de como lido emocionalmente com aquilo que o outro faz, minha tendência a cada vez mais ter a clareza de que o que está dentro de mim é o que torna tudo mais desafiador e assustador, mas ao mesmo tempo, torna a minha jornada mais bonita. Por outro lado, o meu descontentamento interno e minha autoestima em declínio, desabaram num riacho de águas não tão limpas chamado "ciúmes", sentimento tão novo e tão estupidamente nocivo que me tornou nos últimos tempos em alguém desconhecido para mim mesmo. Foi perturbador conviver com as histórias que minha mente criou e que meu estômago sentiu. Nada é meu, tudo se modifica, não sou prisão e sim liberdade: precisei me esbofetear algumas vezes no espelho encarando meus próprios olhos e relembrar a minha inferioridade para assim poder continuar. 

   Quando estive em contato, por um curto período de tempo, com algumas premissas da Conscienciologia (Estudo da consciência do Ser, entendendo por consciência, aquilo que carregamos internamente e que não finda mesmo quando nosso corpo material falece), mantive em minha vida o cuidado com a minha Energia, algo que é bem explorado nesta ciência, e um pensamento que dizia algo como "que aconteça o que for melhor para todos". Explico: muitas vezes, quando precisamos que algo chegue até a nós, acabamos por nos colocar no centro deste desejo e nos esquecemos que tudo está conectado e que as coisas estão interligadas. Desta forma,  talvez não por egoísmo e sim por hábito, tratamos nossos pedidos como algo puramente pessoal e travamos uma luta com o que infinitas vezes será sempre maior do que nós mesmos: o Universo. O Universo por sua vez, sempre analisará nosso pedidos e anseios com o resultado que isto trará para nosso grupo, intrincado em nossas relações sejam familiares, de amores, de amizades ou trabalho. 

     É deste pensamento que quero sugar os aprendizados do próximo ciclo: evitar o sofrimento por aquilo que não vem até a mim pelo simples entendimento de que todo e qualquer desejo que carrego, não pode apenas me beneficiar. Tentar compreender que se não estou tendo aquilo que tanto procuro é por um conjunto de fatores que vão além do que meu Ser no estado em que me encontro hoje, consegue de fato assimilar, mas que preciso saber que existe esta razão universal para tudo. Se eu acreditar que se algo não aconteceu é porque "não seria o melhor para todos" em qualquer que seja a situação (relacionamentos, algo material...) deixo de focar naquilo que está impedindo que aconteça e pulo para a etapa de entendimento da situação. Eu sempre gasto uma energia desnecessária com aquilo que não me é permitido ter, ou sentir, ou usufruir, ou que não posso seguir, sendo que o melhor seria cuspir para fora do que nutrir, só que engulo a saliva na maioria das vezes e esta, entala no peito.

    Meus pensamentos turbulentos, minhas tentativas Zen, minha inquietude, minhas práticas espirituais, meus erros e falhas, meus desejos sexuais não convencionais, minha respiração, meus rituais, meu erros e falhas, "minha carreira", minha alienação e desaprovação ao tipo de trabalho que preciso manter por sustentação, meus erros e falhas, minha inclinação à outro tipo de vida e planos, minha gratidão, minha necessidade de solitude e silêncio, meus erros e falhas, minha clareza, minhas dúvidas, minha necessidade de afeto e pessoas, meu erros e falhas, minhas alegrias, meus amores, minhas dores, meu Ser. Tudo em mim.

    No devaneio confessional de Bukowski, pego alguns trechos emprestados e busco ajuda para definir este momento:  hora dessas, este pássaro azul também vai sair; porém agora, ainda continuará aqui...


Pássaro Azul (Bukowski)

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair

mas sou duro demais com ele,

eu digo, fique aí, não deixarei

que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair

mas eu despejo uísque sobre ele e inalo

fumaça de cigarro

e as putas e os atendentes dos bares

e das mercearias

nunca saberão que

ele está

lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair

mas sou duro demais com ele,

eu digo,

fique aí, quer acabar

comigo?

(...)



há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho

lá dentro, não deixo que morra

completamente

e nós dormimos juntos

assim

com nosso pacto secreto

e isto é bom o suficiente para

fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?






segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A beleza na dor da descoberta

(Preciso de silêncio)

     Há uma certa beleza na dor de descobrirmos quem exatamente somos ou o que queremos, ainda que surgida de dentro de um choro que estava trancado, quase seco. Há esta beleza na dor de descobrir quem não somos e o que não queremos, uma beleza na dor do entendimento daquilo que não podemos continuar a fazer.

(Preciso de silêncio)

     Há uma certa beleza no choque de nos darmos conta do que nos angustia e nos cansa, uma beleza no medo. Há esta beleza escondida no sentimento de indignação e de perda, escondida na ilusão do que consideramos justo. Uma beleza nesta tristeza de transformação. Há uma beleza na negação do tipo de vida que não queremos continuar a ter.

(Preciso de silêncio)

     Um choro, um respiro, pensamentos distantes e um silêncio, preciso de um profundo e curador silêncio.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Notícias nossas

      Talvez nos últimos quatro anos, houve esta distância material entre nossos corpos e nossa sintonia talvez tenha se perdido no caminho... A sintonia, não o amor, apesar da sintonia estar ligada ao amor e vice-versa. Talvez ela, minha irmã espiritual, tenha chegado a um estágio que eu ainda esteja distante demais para alcançar, em nossa busca desenfreada pela evolução e nossa incapacidade de assimilar que não importa o quanto a gente corra sempre estaremos atrasados neste processo. Somos seres espirituais primitivos demais querendo avançar e recuperar o tempo perdido pelas horas de desvios de nossa caminhada (atalhos nem sempre mais curtos).

     Hoje recordei dos verdadeiros jornais que escrevíamos um para o outro contando detalhes de nossas vidas e pedaços inteiros recortados de nossos estados emocionais como uma espécie de troca, uma genuína troca de aprendizados e ajuda recíproca. Me fazem tanta falta tamanhas linhas e tempo de conversas presentes. Aquela a qual intitulei de irmã espiritual, não escolhida mas sentida por nossas energias em fusão, a parte feminina que completava a minha metade masculina, a metade masculina que completava a minha parte feminina. E em nosso recesso,  eu erroneamente passei um período não entendo esta reclusão e tantos desencontros e a forma como se ausentou quase que por completo de nosso pequeno círculo. Houve preocupação, depois incompreensão e agora um novo estágio de sentimento de paz interior e entendimento de caminhada.

    Eu daria notícias mais completas dos últimos acontecimentos que me ocorreram neste tempo afastados, mas receio pelo pouco tempo... Minha vida está mudando freneticamente e meu interior abrindo espaços que talvez eu nem sabia que conseguiria abrir. Ando inspirado pelos andarilhos livres das estradas, aqueles que sobem até as montanhas e enxergam as imagens mais significativas da natureza em toda sua energia e esplendor, tudo assim, ao seu redor. Me descobri Folk, um andarilho folk que anda cambaleante a procura de sua verdadeira rota.  Eu poderia dizer que pós meus trinta anos, a poeira emocional parece ter começado a se assentar (nem por isso tenho menos dúvidas), minha preocupação desenfreada com o trabalho finalmente diminuiu e aquela minha costumeira ajuda à minha família, antes doada sem me considerar, hoje está mais mansa, já não carrego mais o bastão e o fardo maior: consegui dividir as tarefas. Minha estrada solitária sempre me chama, mas ainda me encontro em um tempo rodeado por pessoas. Eu me tornei um Ser espiritual muito ligado aos rituais, diferenciando assim as nossas experiências, eu ainda procuro por substâncias para aberturas e e eu gosto delas. E não, ainda não sei lidar com mágoas, ainda não sei o que fazer quando alguém me machuca, me percebi e me aceitei como um Ser profundamente emocional, como uma característica maior de minha personalidade cheia de dualidades,  sou uma explosão de alegria que se deprime facilmente, sou luz e escuridão. E ainda sou apaixonado por música como antes, como se fosse uma energia  a me complementar e inclusive escrevo estes parágrafos rasgados ouvindo "Johnny Cash- Hurt" repetidamente. A arte não me distrai, apenas me possibilita um respiro.  E o sexo, ahhh o sexo, assunto tão presente em nossas conversas de experimentações, a excitação entrou em um outro canal que é diferente da excitação carnal primitiva humana, meus desejos são outros. Chegou a um estágio vital para a manutenção da minha energia.

    Minha doce e fiel amiga,  ainda vivo com um turbilhão de  sentimentos dentro de meu Ser, e sinto ter tantos afazeres espirituais que as vezes acabo por deixar esta vida terrena em segundo plano mesmo sabendo no meu íntimo que este não é o caminho  correto: sustentamos apenas uma ilusão do que vem depois, nada que de fato seja sentido como uma verdade absoluta. Preciso contar também que há pouco tempo encontrei no meio do caminho o meu irmão espiritual, uma das partes de que chamo de irmandade neste plano e que assim como a nossa conexão,  me conforta e me enche a vida de alegria neste momento. Eu estou numa fase espiritual da vida em que há três prioridades que busco: energia, clareza e equilíbrio. E ainda resvalo, resvalo muito para dentro do poço, mas é na escalada de volta até a montanha que vejo os lampejos do que devo fazer para continuar em frente. Descobri uma paixão absurda por viver nunca sentida antes até a casa de meus vinte e poucos anos. Toda esta possibilidade de vida me excita.

     Em minhas orações e pensamentos de energia, eu a vejo e a sinto como uma luz brilhante, uma luz que encontrou um caminho diferente do meu, mas o que posso oferecer de melhor é a liberdade para que ela siga conforme o seu tempo e o caminho que considerar correto para a sua evolução. Minha irmã espiritual, o espírito que mais ajudou o meu espírito em questões emocionais,  que me ajudou a descobrir partes importantes de mim mesmo, confidente das paixões mais devastadoras e do meu amor encontrado: sempre será uma inspiração em minha jornada. Minha jornada aliás, ganhou outro sentido por nosso reencontro. Não há coisa mais linda que a aceitação e amor pelo caminho escolhido do outro, ainda que os olhos fiquem assim, tão marejados de saudade. Escondido dentro daquela minha tatuagem no braço esquerdo, "Status Libertatis". que desenhei pensando em nossa trajetória na vida, guardo simbolicamente todo o meu amor. Esta amizade é uma celebração daquilo que não cabe em palavras dizer. Gratidão talvez um dia explique. Siga livre.



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“Tenho um bocado de coisas para te ensinar agora, no caso de nunca mais nos vermos, relativas à mensagem que me foi transmitida embaixo de um pinheiro na Carolina do Norte em uma noite fria e enluarada de inverno. Diz-se que nada nunca acontece, então não se preocupe. É tudo como um sonho. Tudo é êxtase, no interior. Nós só não sabemos disso por causa de nossas mentes pensantes. Mas em nossa verdadeira essência da mente sabemos que tudo está certo lá dentro.
Feche seus olhos, deixe suas mãos e terminações nervosas relaxarem, pare de respirar por 3 segundos, escute o silêncio que está por trás da ilusão do mundo, e você se lembrará da lição que esqueceu, e que foi ensinada na imensa e suave nuvem da Via Láctea inumeráveis mundos atrás e nunca mais depois disso. Tudo e uma só coisa desperta. Eu a chamo de Eternidade Dourada. É perfeito.
Nós nunca realmente nascemos, nós nunca iremos realmente morrer. Isso não tem nada a ver com a ideia imaginária de um ‘eu’ pessoal, outros ‘eus’, muitos ‘eus’ em todos os lugares: ‘Eu’ é apenas uma ideia, uma ideia de mortais, que ocorre a todas as coisas que são uma coisa. É um sonho que já acabou.
Não há nada a temer e nada a agradecer. Eu sei disso por olhar as montanhas por meses a fio. Elas nunca mostram nenhuma expressão, são como a vacuidade do espaço. Você acha que a vacuidade do espaço irá algum dia desmoronar? As montanhas irão desmoronar, mas a vacuidade do espaço, que é a essência universal da mente, o vasto despertar, vazio e consciente,  jamais desmoronará porque jamais nasceu..."
                 (Carta de 1957, de Jack Kerouac para a sua ex-esposa 10 anos após sua separação)



domingo, 4 de outubro de 2015

Estrada

     A minha estrada é a do Folk, da espiritualidade, é a estrada do devaneio, das experimentações. É a estrada da liberdade. A estrada que sigo é a estrada da solitude, caminho que poucos gostam de percorrer: muitos temem quem de fato reconhecerão em si mesmos ao estarem assim, tão a sós com o seu próprio "eu". Na minha estrada, personagens como Dean Moriarty e Sal Paradise são como velhos bons amigos, Kerouac me inspira, Alexander Supertramp me inspira. Sebastião Salgado e Amyr Klink me inspiram. Donavan Frankenreiter me inspira.  Vidas livres e iluminadas me inspiram. O fundo do poço e a escalada de volta até montanha me inspiram. Natureza, natureza, natureza me inspira. E gente, gente me inspira. Gente que não é comum, gente que não segue os moldes me inspira, gente que está passos a frente de si mesmo, gente que é feita de luz e escuridão, gente que está consciente das dualidades da vida me inspira, gente que celebra o amor, a amizade e a paz de espírito, gente que pertence a lugar nenhum porque precisa sentir todos, me inspira, gente que observa e  entende gente, gente que sente o sexo com um outro tipo de excitação e entende a estrada como um portal de energia para “experienciar” esta linda e profunda jornada. Gente assim é que me inspira: gente com bagagem, com estrada.  Aliás, a estrada e os encontros que teremos durante a nossa caminhada sempre serão um mar aberto de inspirações. É neste ponto que a vida transborda todo o seu sentido.

sábado, 19 de setembro de 2015

Sobre sentir-se do lado de fora, não enfeitar sentimentos e não criar expectativas

       Entender a minha inferioridade me ajuda a cuspir o meu ego: não sou bom para tudo em minhas relações de amizade. Preciso aceitar este fato antes de sentir qualquer mágoa. Mas o que fazer quando nos sentimos deixados do lado de fora em certas situações além de tentar entender para quais momentos servimos e em qual momento nossa companhia pode ser descartada? O sentimento de exclusão/negação acaba por perfurar a minha energia e destrói com a minha auto estima, faz com que eu me sinta tão para baixo que levo dias a retornar à escalada. Então releio as palavras que recebi para tentar compreender mas continuo sentindo que não as merecia (palavras que brotaram muito além do assunto), ouço argumentos que não me convencem e lembro que eu estou ali, sempre pronto para qualquer situação, todas as situações, sempre reservando o primeiro lugar e fico perdidamente pensativo e longe. Sem drama, sem mais enfeitar sentimentos... Eu tento, mas não considero justo.

       A necessidade deste momento é refletir sobre "expectativas": parar de esperar do outro aquilo que desejo que aconteça e saber esperar do outro aquilo que jamais pensaria que pudesse esperar. Por vezes, acabo me fechando numa espécie de proteção por medo de ser machucado, eu infelizmente, mesmo nesta altura da vida, ainda não sei lidar com as mágoas, elas demoram a deixar a minha mente, o meu corpo e meu espirito e acabam por anular as minhas melhores partes.

      Se a minha maior busca é pelo equilíbrio espiritual, energético, emocional e psicológico eu preciso vasculhar dentro de mim tudo o que me ajuda e tudo o que me magoa e colocar cada sentimento que eu encontre em seu devido lugar. Eu sei que logo, tudo passa, inclusive a vida passa. Falar abertamente sobre este assunto, mostrando onde se encontram as minhas fraquezas é uma forma de encontrar um caminho que me leve até a cura. Escrever sobre isso é apenas uma forma de me libertar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Um céu para os meus voos

     Quando passei da linha dos trinta anos, tudo pareceu ter ficado mais confortável, o meu entendimento das situações ficou menos dramático, a minha maneira de encarar a vida e até a aceitação dos conflitos das relações humanas, pareceu ter ganhado outro peso, outra relevância. Pareceu: nas últimas semanas desaprendi e retornei à casa um tanto confusa dos vinte anos.

      Eu sinto sobretudo, que em minhas relações, fui me incluindo em grupos que nem tinham tanto em comum comigo. Meu espirito livre me permite se aventurar nestas relações e sempre pensar na hipótese de sugar delas novos aprendizados e energias e doar à elas algum conhecimento e energia. Aquela troca genuína que deve acontecer naturalmente. Mas adentrando nestes chamados grupos, percebi o quanto deslocado eu comecei a me sentir: são outras direções, outros sentidos, outras predileções sexuais e eu ali ao lado, tão desajustado, tentando encaixar um retângulo em um círculo, tentando parecer o mais próximo, tentando agir igual. Falha minha. Os choques de realidade sempre chegam em seu tempo e gritam para que eu acorde.

     Expectativas, desejos, sentimentos, apoios, atenção e ajuda, intensidade e sintonia, às vezes colidem. E não parece ser justo com nós. Penso então que a relação de como nos sentimos em algumas situações nunca está naquilo que o outro nos fez ou deixou de fazer: sempre estará na forma como lidamos com aquilo que o outro fez ou deixou de fazer. É difícil aceitar esta responsabilidade, assumir esta responsabilidade, pois exige uma maturidade emocional acima do limite do topo, mas uma hora ou outra, ela precisa prevalecer.

       A gente costuma projetar nos outros os erros e as falhas: não prestamos atenção muitas vezes, na maneira que podemos levemente machucar a outra pessoa e devíamos prestar mais atenção nas pequenas coisas que fazemos e em como elas podem ser consideradas maiores dependendo em como atingem. Como seres humanos, nosso ego muitas vezes esgota a possibilidade de enxergar o outro, porque geralmente nossas preocupações são egoístas e tendem a favorecer apenas a nós próprios: tudo tem de ser do nosso jeito, na hora em que consideramos melhor, quando queremos...sem considerar tanto a outra parte.

      Estranhamente, toda vez que encontro um chão em minhas relações (de todos os tipos), ele se abre em minha frente. Eu percebi que não tenho me considerado tanto quanto deveria dentro delas e tenho estendido uma ponte maior para que estas outras pessoas atravessem. Eu, enquanto isso, fico preso nas nuvens e é aqui que deve haver a minha maior mudança: talvez o chão e a terra firme não sejam assim tão necessários neste momento. Eu preciso é de um céu para os meus voos...eu preciso sentir que as pessoas em minhas relações me ofereçam um céu para meus tantos voos. Sem queda livre.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sabotar a si mesmo

     A desordem interior gera um certo tipo de vício. Acabamos nos viciando na sensação de autocomiseração. Nos viciamos em boicotar nossa boa energia porque em determinadas fases, algumas emoções por mais dolorosas que possam parecer, nos preenchem e talvez esta seja uma atitude particularmente humana. Eu tenho então, a chamada "solitude" como uma poderosa aliada, porque compreendo que se trata de um tempo reservado, uma espécie de retiro interior, uma pausa de outras companhias para um momento a sós comigo mesmo, é uma necessidade para minha condição emocional. A "solitude" diferente da solidão, não é um processo dolorido, ao contrário. Porém quando me sinto sozinho, como nesses últimos tempos, costumo questionar as minhas relações todas e se as trocas têm sido equilibradas. Toda relação é uma troca e quando há desiquilíbrio é sinal que uma das partes está a doar mais do que a outra e apenas uma destas partes tem ganhos com esta doação.
     A questão é que, até entendermos este desiquilíbrio nas relações, sabotamos partes importantes de nós mesmos, porque não encontramos o mesmo espaço para ser quem costumávamos ser com o outro. Sabotamos nossa energia e sabotando nossa energia nos desestimulamos e nos desestimulando não sentimos prazer ou as pequenas alegrias do dia a dia e não sentindo prazer e alegria nos tornamos passíveis a problemas emocionais maiores. A essa altura da vida compreendemos pelo menos, que tudo está interligado. Nesta fase, questionamos a atenção que merecíamos ter em proporção àquela que prestamos, e tentamos, veja bem, tentamos compreender melhor as coisas ao nos colocarmos como seres mais conscientes nas situações, mas esquecemos que nossos sentimentos estão conectados com nossas emoções e que ser mais consciente não muda a falta que sentimos dentro. Ao sabotarmos estas nossas partes importantes, nos sentimos cada vez mais inferiores: não nos sentimos tão atraentes física e psicologicamente, comparamos até a nossa forma de fazer sexo com a dos outros e sentimos que não somos tão bons quanto, e aceitamos que somos facilmente substituídos em nossas relações, ou amorosas, ou de amizades ou familiares, seja por outras pessoas, por outros compromissos, por outras prioridades. Como então nos conectar novamente com o nosso "eu maior"? Aliás no singular: como devo me reconectar com meu "eu maior" e não me sentir assim, tão inferior?
     Eu seguramente posso dizer que sou um Ser grato e abençoado na maior parte do tempo, aprendi a agradecer mais do que reclamar, mas obviamente carrego as minhas insatisfações debaixo do braço. Quando estamos passando por uma fase ruim, a gente costuma  visualizar a situação de outras pessoas e comparar com a nossa para aceitarmos que estamos em uma condição melhor (financeira, emocional, etc...) para que desta forma consigamos aceitar e compreender melhor a nossa situação. Mas acontece que nada é tão simples assim, não podemos comparar as dores, cada um sabe o que afeta mais. Por que a dor de perder um amor tem de ser menor do que a dor de perder alguém por um câncer? Por que esta diferença entre o emocional e o físico? Tudo depende do quanto estamos preparados para cada uma destas situações. Além do mais, do ponto de vista espiritual, se cada uma de nós têm suas provações para passar, sendo que elas irão contribuir para a chamada evolução, podemos então dizer que cada um está dentro de um caminho que tem de se estar.
    Os ensinamentos budistas tratam o sofrimento como algo inerente à jornada do ser. Compreender esta realidade ao invés de camuflar a dor me traz a possibilidade de usufruir melhor da parte da vida onde se é feliz. A gente sofre e precisa aceitar o fato para podermos transgredir: a gente sofre por coisas pequenas e por razões maiores, sofre de saudade, sofre porque termina um namoro, sofre porque um amigo não está tão presente quanto gostaríamos, sofre porque alguém morreu, sofre porque alguém nos magoou, sofre porque a vida descarrilhou dos trilhos, sofre. E sofre por sofrer porque fomos criados para negarmos qualquer tipo de sentimento ruim como se tivéssemos que nos punir por não estarmos felizes em alguns momentos da vida. Sendo que uma das maneiras mais eficazes para encontrarmos alivio e felicidade é abrir nossos sentimentos e emoções ao invés de  trancá-las dentro de nós.
     Temos que  entender que o sofrimento é inevitável, ainda que impermanente, inevitável. E que sabotar a si mesmo, esta etapa sim é melhor evitar...

sábado, 15 de agosto de 2015

Pensamento, sentimento, energia

     Aquela velha história de que atraímos o que pensamos nem sempre pode ser considerada uma regra. Se assim fosse, reuniríamos apenas todos os nossos bons pensamentos e deixaríamos em repeat numa espécie de telão dentro de nossa mente para usufruirmos somente daquilo que é necessário para nos sentirmos felizes. Mas na vida real, não é bem assim que funciona. Isso porque não há tanto tempo para simplesmente parar a descarga de diferentes  pensamentos que produzimos por minuto, o que existe é aquele nosso momento zen num final de dia ou num final de semana, onde paramos por alguns instantes. Mas se vivermos esta vida dentro das limitações da sociedade, dificilmente teremos mais tempo do que isso para nos desligarmos. Sem me desdizer, o que acredito é que tudo é energia e que sim, o que pensamos gera um sentimento e se transforma em energia, seja boa ou ruim. Se treinarmos o que pensamos, conseguiremos trabalhar melhor a nossa energia e desta forma estaremos mais abertos a receber coisas positivas. Mas discordo do fato de que nossos pensamentos negativos - os quais também considero necessários para o equilíbrio de nossa condição emocional - atraiam apenas situações negativas para a nossa vida. Sinto que até mesmo em meio aos pensamentos mais turbulentos, eu consiga absorver boas energias que chegam sempre ao meu redor, por exemplo. Há algo maior do que isso ao nosso redor.

     Esta análise surgiu porque durante esta semana em minhas horas de folga, consegui observar as pessoas andando pelas ruas e percebi que em sua grande maioria, o pensamento delas não me pareciam nada positivos por suas feições: rostos preocupados, geralmente olhando para baixo, como se tentassem alinhar os pensamentos numa espécie de diálogo interior, repassando histórias, lembranças ou outras tantas situações cotidianas: as contas, o trabalho, uma discussão, uma carência, um desentendimento, uma vontade de sentar e conversar com alguém que não podiam...não sei...Mas a maioria das expressões que observei não me pareciam nada positivas.  Pelas paradas de ônibus coletivo, as pessoas olham distantes para algum ponto enquanto pensamentos borbulham em suas cabeças. Poucas pessoas estão visivelmente felizes, com um sorriso natural no rosto. Ninguém está completo, isto é fato. Ninguém se sente inteiro: todos temos lacunas em aberto, espaços vazios,  desejos inapropriados e muita, muita luta interna.

    "Luta interna" tem aparecido de alguns textos pra cá, cuspido pelo meu subconsciente. Somos espíritos tão cheios de questionamentos e tentamos sempre andar na trilha certa nunca porém tendo a exata certeza do final deste caminho. Somos tão fortes para algumas situações da vida, tão fracos para outras. Desejamos um equilíbrio quase utópico. Enxergamos cada pessoa ou grupos de pessoas carregando suas diferentes verdades: não sabemos ao certo se a nossa verdade é válida, se existe mais de uma verdade ou se na verdade não existe verdade alguma. Percebo que muitas vezes gasto uma energia valiosa pensando nisso. Busco alívio na maior parte do tempo. Algumas de minhas inquietudes de certa forma me fazem sofrer, outras me trazem serenidade.

     Durante as últimas duas semanas mergulhei numa imensidão entupida de vazio, e entendi a minha inferioridade, até a aceitei. Sozinho, senti a completa sensação de que somos facilmente substituídos em nossas relações sejam elas quais forem,  e também me dei uns bons "tapas na cara" para que meu espírito pudesse se recompor e eu retornasse para um caminho onde a minha atenção se voltasse mais para mim do que para o outro. É em tempos como este que consigo renascer novamente, em tempos assim que consigo libertar a essência daquele que realmente eu sou. Todas estas passagens fazem parte do meu aprendizado. Feliz, triste, inteiro e vazio, sou igual a outros tantos... não carrego nada de especial e aceito esta condição.
   

domingo, 2 de agosto de 2015

Qual parte do "não" eu não entendi?

     Uma das maiores razões de buscarmos a "clareza", é para que possamos nos dar conta daquilo que é para nós, e daquilo que não é. Ou seja, em prol de nosso conhecimento, daquele conhecimento do "saber", do entendimento das coisas, sentimentos, emoções... Então, porque sofremos internamente por questões das quais sabemos que a resposta é "não"?  Por quantos "nãos" sofremos à toa? Porque insistimos nos "nãos" em nossa caminhada? Que mistério assombroso carrega esta palavra que tentamos convertê-la em "sim"?

    Os "nãos" estão ecoando em minha cabeça e eu não estou conseguindo entender porque eu não estou os entendendo. Não é "não" e pronto. Mais do que um ponto final: um não. Preciso tirar a venda dos olhos e enxergar os "sim" e chegar do outro lado daquela ponte. Do lado de lá daquela ponte.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O peso da jornada

     Nossa estadia por aqui é densa. Nossa passagem por aqui vai além do que no momento a minha capacidade espiritual consegue assimilar. Acredito que todas as buscas que fazemos, sejam rituais, retiros, religião, novas linhas de pensamento, ateísmo, filosofias zen, seja apenas uma parada do trabalho para respirar ar puro, para exercitar o corpo, uma viagem com o intuito de desligar a mente, todas, todas estas pequenas ou grandes práticas acontecem no fundo apenas para amenizar o peso de nossa estadia neste plano, para aliviar o nosso espírito, caso contrário a tal escalada na montanha se tornaria difícil demais, para não dizer insuportável.

     São regras demais, "certo e errado" demais, dúvidas demais, lutas internas demais para perseguir um portal de passagem que possui cores diferentes - sem contar ainda a variação de tons - de uma pessoa para outra. E se eu não ver a cor que eu deveria enxergar? E se o portal não existir e eu não puder retornar?

    Tenho pensado ultimamente que cada Ser que deixa este plano deveria ser aplaudido e ao invés de nossas lágrimas deveria receber honras por ter tentado fazer o melhor que podia aqui para elevar o seu espírito e retornar para um lugar que em verdade, desconhece, acredita que exista, mas desconhece. Viver uma vida aqui e uma lá não está sendo bom para mim, entrei novamente numa fusão de sentimentos que ora me acalmam e ora me perturbam.

    Os questionamentos de hoje, por falar em cores, saem sem nenhum tom. Ou seria em uma cor que ainda não descobri? Desviei da minha rota mais uma vez...Voltando.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O apontador

      Eu consigo lembrar nitidamente da primeira vez em que um ato de injustiça aconteceu comigo. Eu tenho trabalhado há algum tempo o meu rancor, e aquela parte em que dizem, não devemos guardar o que não nos fez bem, porém, guardo esta lembrança não exatamente como um acontecimento ruim, mas como um acontecimento que me fez prestar atenção naquilo que eu carregava dentro de mim e que talvez por ser tão cedo, certamente eu não sabia ainda como acessar. A história é curta: eu estava na primeira série escolar, um pouco atrasado porque iniciei os estudos no ano em que completaria oito anos de idade, e foi aos oito anos que entendi como eu deveria me preparar para a vida. Enquanto eu escrevia (rabiscava) algo que a professora havia posto no "quadro negro", dois colegas se aproximaram de mim, falando baixo entre eles, minha mochila estava "vestida" na minha cadeira. Logo eles saíram de perto e alguns minutos depois que voltaram a sentar, um deles gritou alto para a professora que havia "sumido" o apontador dele, enquanto o outro apontava em minha direção dizendo que havia me visto pegando o tal "aponta lápis" e colocando-o na mochila. Os dois colegas prontamente levantaram-se e foram até a minha mochila onde para a minha surpresa, lá estava o apontador, que eles mesmo haviam colocado, ergueram e mostraram para a professora. Lembro da minha expressão de choro e de minha voz falando para a professora que aquilo era mentira, que eu não havia pego nada, mas infelizmente também lembro da voz dela severamente me dizendo que "era feio roubar" e me mandando sentar quieto. Olhei para o lado chorando enquanto os dois colegas estavam rindo.

     Para ficar claro, esta não é uma história sobre o roubo de um apontador: é uma história sobre a essência da maldade, da mentira, do julgamento errado e da injustiça. Hoje, sendo um Ser consciente, entendo melhor aquela situação. Posso descrever por partes para que, quem está lendo este texto agora possa fechar os olhos e visualizar uma cena: meus colegas, um deles numa posição financeira melhor do que a minha e filho de uma das professoras daquele colégio, o amigo dele, amigo do filho de uma das professoras daquele colégio, a minha professora: bem esta não seria nem louca de acusar o filho rico da outra professora do colégio por conta do roubo de um simples apontador feito pelo aluno pobre daquele mesmo colégio, no caso eu. Entendido?  Agora sem melodrama posso continuar...

   A medida em que envelheço (ou ganho maturidade), meu senso de justiça cresce proporcionalmente. Este fato isolado que relatei acima, surge em minha lembrança como um marco do momento em que inconscientemente fui colocado à uma prova de valores humanos e tive uma de minhas primeiras decepções. Seria apenas uma simples brincadeira inofensiva destes meus colegas tão crianças, ou talvez havia neles uma tamanha propensão a maldade  que deveria ser compartilhada com seus pais a fim de um tratamento para que não continuassem a cometer atos injustos de proporções maiores na vida adulta? A falta de discernimento com que a professora agiu não ouvindo o aluno que tentava se explicar aos prantos, foi realmente uma simples falha ou foi cometido por um julgamento preconceituoso de distinção de classe social?  Quais seriam suas perdas e ganhos ao investigar melhor aquele "fato bobo" em que hoje, vinte e quatro anos depois ainda lembro? Eu me assusto com tais valores. 

     Com minha consciência em passos contínuos à lucidez, hoje não há como alguém passar por cima daquilo que não considero justo em minha vida. Seja em minhas relações, seja no meu trabalho, seja nas experiências puramente cotidianas em contato com o outro. Há algo que grita em mim se por ventura sou colocado a um mesmo tipo de prova. Às vezes admito, não tolero fatias pequenas de pensamentos injustos: não me diga que fiz se não fiz, não me julgue antes de ter certeza, não desconfie daquilo que está muito claro em mim. Diferentemente daquele momento, neste, eu existo e existindo tenho voz ativa e nenhuma paciência para este tipo de comportamento. O que houver contra mim, que seja no mínimo, justo.
     
    

    




   

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Vídeo gravado em tons de Zen e Azul e Preto e Branco

     Uma das coisas mais importantes sobre mim e que tenho tido a necessidade de deixar registrado é que de alguns anos pra cá me tornei um caminhante ativo da estrada Zen, sendo algumas pessoas mais próximas, conhecedoras desta minha total inclinação a esta parte da espiritualidade. Desta forma, percebi com o passar deste mesmo tempo, mais voltado ao meu interior, mais centrado no estudo do autoconhecimento, que minhas ações fizeram com que muitas pessoas tivessem uma percepção talvez um pouco equivocada a meu respeito. Explico: tenho a necessidade de meus períodos de isolamento interno, de meus estudos sobre meu próprio ser, tenho as minhas práticas espirituais, não porque necessariamente eu seja de uma natureza Zen, mas carrego emoções e sentimentos interiores que são tão turbulentos que preciso encontrar uma maneira sensata de controlá-los, adestrá-los, acalmá-los. Eu tenho dentro de mim uma mina em constante fervura que pode explodir e meu trabalho interno é mantê-la controlada, a fim de que ela vá esvaindo-se aos poucos, até desparecer. Então, esta é a percepção errada que as pessoas tem sobre mim: eu não sou exatamente assim, eu tenho necessidade de ser. 

     Por conta disso, constantemente escrevo sobre carregar dentro de mim luz e escuridão. Sou um espírito, sou uma energia. Eu, talvez às vezes, até canso desta maratona espiritual. Vivo transitando entre lá e cá. Vivo analisando cada coisa que faço enquanto vivo. E tenho sede, imensa sede de viver. Mas  ocorreu hoje, que eu estava ouvindo uma música onde a letra fala sobre um suposto vídeo que passaria ao chegarmos no "Céu", daqueles vídeos em câmera lenta com nossos melhores momentos. Pensei: qual vídeo eu deixaria aqui? Qual vídeo apareceria na tela de lá? Os mesmos? 

    O que mais quero é percorrer este caminho da transparência do sentir que eu mesmo abri, sem medo. Estou numa fase em que "ocultar" não tem qualquer serventia. Prefiro me mostrar assim, desta forma, deste jeito, claro e escuro. Eu não quero deixar nos vídeos registrados aqui, apenas uma imagem. Tal vídeo deverá ter muitos recortes em cores dos mais variados tons, filtros  e preto e branco. Presença e ausência. Inquietude e calmaria. Raiva e amor. Tudo o que eu carrego, tudo o que eu sou, tudo o que vim para experimentar ser. Expressões de tristezas e gritos, para só no final dos créditos entender a felicidade do Zen.

   Fim.

domingo, 12 de julho de 2015

Eu teria um orgasmo e mesmo assim não bastaria

     A insatisfação é inerente ao ser humano! Talvez nem o mais Zen de todos os zen's consegue realmente ter uma satisfação plena (aliás tudo o que é pleno, a meu ver é inatingível). Em algum dado momento até um monge deve ao menos sentir-se insatisfeito com sua própria técnica por não conseguir cessar alguns pensamentos durante uma meditação. Mas o que me intriga, é que nossas insatisfações geralmente são geradas pela falta de algo que não temos porque somos presunçosos a considerar que merecemos sempre mais do que nos é oferecido. E também sinto que nossa insatisfação acontece por não estabelecermos uma conexão maior com o nosso presente: sofremos pelo que tínhamos no passado e já não possuímos, sofremos por querer que o futuro recupere o que deixamos de ganhar. Raras às vezes, nos sentimos realmente gratos pelo nosso "agora".

     Sentimos insatisfação em diversas estágios e esta insatisfação envolve aquilo que é material e aquilo que não é palpável. Reclamamos quase em tempo integral: reclamos quando é calor demais, e quando é frio demais, quando estamos sem trabalho e quando temos muito trabalho, reclamamos por querer mais espaço para nós mesmos e também reclamamos de solidão, reclamamos muito por coisas poucas e acabamos por nos acostumarmos a sentir falta daquilo que não está em nós. Buscamos o que não está em nós de forma errada, na maioria das vezes. É como se nada bastasse, nada fosse bom o suficiente porque ao encontrarmos o que procuramos, surgem mais dois ou dez diferentes desejos e seguimos em nossa caminhada pelo campo florido de solo fértil a tudo o que não satisfaz.

      A frase do título deste escrito não é minha, é de uma letra de uma música da qual gosto muito e que fala da impossibilidade da felicidade plena ao alcance de nossas mãos. Chegar a um orgasmo, dito como prazer máximo de nosso corpo e não se satisfazer com esta liberação de energia, é fazer sala para o descontentamento. Tento assimilar que a felicidade plena realmente é inatingível por que sempre haverá uma lacuna, um espaço em branco que não completará nossa história pessoal. Porém, por outro lado, tenho tentado mudar em mim - seja um pedaço por dia - os pensamentos que me tiram deste momento, deste aqui e agora, assim ao menos diminuo a ânsia de correr atrás do que minhas pernas não precisam ter forças para fazê-lo. Prefiro assumir a responsabilidade de meus passos e escolhas, principalmente de minha inserção ao sistema por conta do estilo de vida que levo. Como reclamar quando fui eu mesmo que me joguei nesta arena?

    Minha insatisfação geralmente está associada àquilo que não tenho coragem de deixar para trás pensando em seguir em frente. Meus pensamentos inquietos, tem sua nascente ali, naquela fonte de dúvidas. Quero desembaçar a visão para enxergar o que tenho em meu momento real, deixar o mundo imaginário de lado e o planeta das lembranças para trás. Estou tentando prestar atenção no caminho em que poderei treinar minhas penas para percorrer. Ainda montarei o meu acampamento em cima de uma terra onde a minha gratidão seja maior do que qualquer coisa que me falte. Neste dia acomodarei a minha mochila e nunca mais sairei de lá.


domingo, 21 de junho de 2015

O instinto primitivo

     Eu lembro nitidamente de uma das cenas do filme "Comer, rezar, amar", onde emocionalmente é esta cena que dá o ponta pé inicial na jornada transformadora que a personagem teria a partir daquele momento: sozinha no banheiro, a personagem aos prantos se encara de frente no espelho deparando-se com o desespero do caminho que havia seguido até ali e com o medo da coragem que estava tendo de terminar a relação em seu casamento para iniciar assim o seu novo trajeto interior de uma descoberta espiritual através de buscas e viagens. Ainda que neste caso, a personagem seja feminina, já passei por momentos como este por diversas vezes até este instante de minha própria jornada, em diferentes assuntos que me angustiavam e não somente por conta de minhas relações (mas também delas). 

    Hoje a tarde, tive um momento parecido com o desta personagem (real, já que a história do filme/livro é autobiográfica), um pouco antes de entrar no banho. A diferença é que me ocorreu o inverso: não consegui chorar ou estar aos prantos, uma tristeza perturbadora secou a minha garganta e os pensamentos mais distantes invadiram minhas reflexões. Chovia muito dentro de mim, novamente como já choveu em outros tempos. Por dentro eu já estava ensopado, mas não queria mais estas nuvens, não queria... 

     Pela primeira vez em toda a minha existência desejei ser normal, comum, quando sempre achei que o que me diferenciava dos outros seres era justamente pensar o oposto. Ultimamente, tenho retrocedido em pensamentos primitivos sexuais. Pensado em sexo, comparado os sexos, o meu e o dos outros, imaginado sexos que não gostaria de imaginar e dando a tudo uma conotação altamente sexual. Pensando inclusive, que a pior das traições seria sexual, sendo que em verdade, o sexo faz parte deste instinto animal que carregamos dentro de nós em tempo integral e de todos os atos pode ser até o mais perdoável. Traições de sentimentos, traições de verdades contadas, estas sim, são bem piores. Trair seus próprios desejos, seria uma sentença ainda mais devastadora. 

     Estou passando por um momento interno solitário. Considerando que talvez a forma como sempre me expus abertamente nem sempre tenha sido favorável a mim e entendendo que para as pessoas ao meu redor talvez seja realmente difícil me aceitar nestas condições, tão duplas. Tenho esta duplicidade de desejos, tenho duplicidade em quase tudo o que carrego. Deveria eu ter ficado trancado dentro de mim? Ou deveria eu apenas me afastar deixando estas pessoas apenas no convívio de pessoas que sejam iguais a elas, que tenham sentimentos e desejos apenas como o delas? Namorados homens que apenas se interesse por mulheres, amigos homens que somente provem mulheres, mulheres que sejam apenas mulheres, pais que sejam somente pais, pessoas que absolutamente gostem de uma coisa só, já que eu, como nasci do avesso, não consigo ser assim. Mas acreditem, hoje eu gostaria de ser aquilo que seria o ideal ser. 

     Com pensamentos que não cessam, a subida na montanha hoje é outra. Profundamente esgotado e triste, nos meus ouvidos também toca um bocado de tristes canções. Comer, rezar, amar? Nenhuma das opções.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A amizade é meu troféu

    Ele havia se preparado para aquela corrida,  física e mentalmente. Bicicleta pronta, era hora de colocar o seu treinamento em prática. Na mochila, pensamentos soltos sobre o que de fato significaria uma conquista naquela altura de sua juventude. Quão orgulhosa deixaria a sua família? Quanto de atenção receberia de volta? Quais comparações deixaria para trás?

     Em sua companhia um treinador, amigo e incentivador. Na vida, nunca encontramos as pessoas por acaso, sempre haverá uma troca, nem sempre um motivo, mas sempre uma troca. Quão genuínas são as trocas em uma amizade? O que valoriza esta nossa estrada?

     Se eu forçar meu pensamento um pouco agora, consigo imaginar uma cena, como naqueles filmes em câmera lenta minutos antes da largada: respiração ofegante, coração batendo forte, capacete ajustado, olhar compenetrado naquele trajeto, emoção impulsionando a velocidade das pedaladas com as pernas, segue a pista, ultrapassa, segue a frente, com suor e  força."Eu preciso vencer!". 

   E quantas vezes precisaremos vencer na vida? Quantas vezes provar nossa capacidade de superação? Quanto tempo até entendermos que não é necessário tal prova?

     Num espaço pequeno de tempo, a largada e a chegada carregam simbolismos muito maiores do que apenas esportivos. Quem "larga" é aquele menino ciclista que desde moleque fazia sua bicicleta viajar, quem "chega" é o filho, o irmão, o amigo, o jovem que queria mostrar para os pais, para o irmão, para os amigos e, para ele mesmo que poderia estar lá, no lugar mais alto daquele pequeno "altar". E é lá que ele está!

     Vence! Recebe o troféu, o troféu que tanto desejava, com os olhos marejados e sentimentos que só ele sabe que carrega dentro de si. Sentimentos que ainda levará algum tempo para compreender melhor, nesta linda "pista de corrida" que chamamos vida. Ele ainda vencerá inúmeras vezes e ainda perderá, inúmeras vezes. Tudo isso faz parte do que chamamos evolução.

     Esta é uma pequena história de um dia que marcou a vida de um ciclista por ter recebido naquela ocasião, um troféu que simbolizava a primeira conquista de sua vida. Há uma importância tamanha neste momento. E a maior importância que cabe a mim, é que hoje este troféu está guardado comigo. Eu tive esta honra de receber o presente mais especial que já recebi na vida: "Nunca encontrei alguém que eu amasse tanto para entregar este troféu: irmão primeiro lugar".  Recebi de um amigo, de um irmão de conexão espiritual, de um ser de luz, que se tornou importante demais em minha jornada. Naquele momento, chorei. Eu compreendi a responsabilidade daquele presente. Eu compreendi tamanho amor naquele gesto. Eu compreendi a força da nossa relação de irmandade. Gratidão, gratidão, gratidão.

     Melhor ainda é entendermos esta vida como nosso mais valioso prêmio.
     Quero aprender com teu pequeno grande coração...


quinta-feira, 4 de junho de 2015

Sobre viagens, dualidades e espírito latino

     Uma viagem nunca caberá em uma fotografia. Nunca. Eu gosto dos registros, mas eles não carregam os cheiros dos lugares por onde fiz minhas andanças, não carregam a energia das pessoas que eu vejo, não carregam a medida da expansão de meu espirito após a estadia.  Mas estes registros, eles ajudam a contar parte da história, eles me ajudam com as lembranças exatas e nítidas enquanto as outras fazem moradia em minha memória e recontam passagens com um romantismo ainda maior. Minhas andanças: nunca caberão em um registro. Nunca. Não há espaço suficiente para capturar o vento, a atmosfera, meu ser, em uma revelação tamanho 10 x 15. Ainda assim, amo fotografar e me rever nestes lugares de passagem. Me descobri viajante. No fundo era tudo o que eu esperava ser em minha vida, mas não tinha acesso e, em outros tempos, pensei que não seria permitido seguir adiante. Me perceber como um viajante aprendiz me impulsiona a viver esta linda jornada. A cada viagem, volto pra casa com uma nova parte que desvendei em mim, não há espaço para ser o mesmo, todos os espaços internos foram modificados: meus pensamentos, meu olhar, meu conhecimento, e meu ego, cada vez mais diminuído pela grandiosidade daquilo que vejo e que me torna pequeno.

     Quando por conta do resultado do meu esforço em meu trabalho há alguns anos atrás, pude ter acesso a seguir adiante, comecei inconscientemente a traçar a minha rota latina nas viagens. Lembro perfeitamente a primeira vez que pousei em solo argentino. Foi a primeira vez que voei e senti a sensação de estar sob as nuvens vendo a vida de um outro ângulo. Foi lindo ver o sol na mesma linha de meus olhos. Buenos Aires foi uma viagem mais urbana e turística naquela ocasião, é bem verdade, mas após repetir este roteiro três vezes, agora há uma outra descoberta além daquele turismo: há um encanto, há um cheiro, há o olhar de reconhecimento e há também a mesma vontade de entrar nos metrôs e percorrer o mapa todo da cidade em minutos, para sempre descobrir algo novo naquela arquitetura histórica contrastando com a modernidade das novas construções. Tive até história de assombro, que remete a um trem que peguei para o Rio Tigre e que não conseguiu me deixar no destino, mas algo me dizia que não era mesmo para ter chegado lá. Retornarei ainda para a continuidade daquele trajeto, desta vez sem encanações. O "Caminito" sempre estará lá a me esperar. Em Buenos Aires provei alguns dos melhores cafés e passei um dos invernos mais charmosos junto com aquelas também charmosas pessoas. Embora vale lembrar, que as pessoas são lindas por lá, independente da estação. 

     Quando eu estava na Cordilheira dos Andes chilena, na ponta daquela montanha coberta de neve, era impossível não associar aquele momento com a minha infância e adolescência. Era impossível não lembrar da situação financeira difícil daqueles - tão presentes - anos atrás. Chegar naquele topo, carregava significados importantes em minha trajetória e o sentimento de gratidão emergia naquele lugar. Eu vi de perto, uma das paisagens mais incríveis até hoje vista, "O Lago de Los Incas", manso e cristalino entre as montanhas nevadas. Um presente sublime da natureza a ser contemplado. Com o Chile, tive a maior conexão já sentida com um lugar. Pelas ruas de Santiago, sentia como se morasse por lá, me sentia acolhido, talvez porque foi o lugar onde encontrei as pessoas mais atenciosas, abertas e receptivas dentre os poucos lugares que conheço. Visitei mais bares e cafeterias lá do que em minha vida toda aqui, Fui com o olhar curioso, sedento, observador. Aquela cidade carregava algo que mexia comigo e eu ainda hoje não entendi exatamente o que é, mas sinto que ela está a minha espera para uma temporada maior. Conheci a terra do poeta Pablo Neruda "Valparaíso", com seus contrastes e desigualdades sociais que explodiam em cultura. Penso que este é o único bem que as desigualdades sociais provocam em todos os lugares: a oportunidade de não haver uma cultura singular. Conheci o lado periferia e o lado Porto, percebi as diferenças de cor, entre o opaco e o brilho. Já em "Viña del Mar", toquei as águas do Oceano Pacífico, e as aulas de geografia do período escolar fizeram então total sentido, eu estava ao lado esquerdo do mapa que tanto olhei. Me senti deprimido ao ter que deixar Santiago, imaginei assim, ter sido algum lugar onde pousei meu espirito em existências passadas. Quem sabe. Como saber de onde eu vim?

     A grandiosidade daquilo que é sagrado, eu senti quando pisei em Machu Picchu. Eu estava de frente para o que restou de uma cidade Inca, histórica, espiritual, mística e carregada de indagações. Como aquilo era possível? Tratei de não perder tempo com este questionamento e sentir a energia que emergia daquele Vale. Mais outra vez eu estava no alto de uma montanha, desta vez, sem neve, e no Perú. Se eu girasse 360 graus, meu olhar tocava montanhas e nuvens tocavam em mim. O dia variava entre chuvoso e ensolarado. o Sol chegava para mostrar o verde intenso e purificador. Fiz meu próprio ritual para aproveitar aquele templo, pensamento aberto e direcionado, alguns incensos acesos, fotos de meus pais para agradecer ter sido acolhido como filho por eles neste plano, agradecimento também pelo fechamento de dez ciclos junto com a minha parceira evolutiva e companheira destas viagens, gratidão pela vida e pessoas que cercam esta minha existência. O que vi lá, não cabe em palavras. Antes de Machu Picchu, conheci um "vilarejo" no meio do nada, chamado "Águas Calientes", não haveria melhor lugar para um esconderijo opcional quando um dos motivos das viagens for "fuga", geralmente são buscas, mas ainda que seja fuga, esta cidadezinha rodeada de montanhas que quase se perdem de vista no céu, é um lugar favorável para tempos de "Períodos de Isolamento Interno". A capital Lima, não me trouxe nada mais do que o óbvio. Mas em Cusco, tive a melhor surpresa: há algo de mágico envolvendo aquela cidadela. Há algo de encantado. Um passeio por Cusco é como regressar há vidas passadas, caminhando por velhas construções, mas ao entrar na maioria dos estabelecimentos sejam bares, restaurantes, clubes, é como atravessar um portal para o novo mundo. Há ruelas por todos os lados, que levam sempre há caminhos lindos. Há um povo sofrido também, pedinte, quase em miséria, mas há uma espiritualidade singela vagando em cada esquina além da história de um povo guardada com amor em seus tantos museus. Fui tocado pela mágica deste lugar. Não por acaso, cidade onde mais conheci e me comuniquei com pessoas de diferentes partes do mundo.
     
     Foram durante ou após estas viagens que fiz descobertas importantes sobre mim: me aceitei inquieto e curioso,  reafirmei a minha liberdade, a minha tendência à solitude, compreendi minha postura aprendiz, expandi minha análise observadora, entendi o prazer e a alegria de me comunicar com diferentes pessoas e culturas, reconheci meu lado nativo, indígena, o meu lado povo, e o mais importante assumi meu lado latino de alma, espírito e coração. Eu posso lembrar perfeitamente de minha total inclinação a cultura estrangeira, especialmente de língua inglesa durante a minha juventude. E a minha ilusão em perceber nos países europeus e na cultura norte americana por exemplo, um desenvolvimento sempre muito a frente da América do Sul. Mas, "a frente" em qual dos sentidos? Minha rota pelos países latinos felizmente fez com que eu encontrasse a minha verdadeira essência. Tudo tem um tempo certo. O latino carrega em si dores, alegrias e paixões. Poderia dizer que todo ser humano carrega tais sentimentos e emoções, mas o latino, sente paixão pela vida,  paixão pelas dores, paixão por sua história, paixão pelas pessoas, paixão pelo o que é. Paixão, paixão, paixão como uma força motriz carregada de sensualidade e revolução . É a forma apaixonada e às vezes dramática de lidar com as situações, que diferencia nós latinos do resto do mundo. É uma alegria/prazer que se transformou com a dor e não ao contrário. 

    Eu sou profundamente apaixonado por esta cultura e não consigo me perceber seguindo outro caminho senão cada vez mais explorando os lugares da América Latina. Os planos de outras viagens estão traçados em um cronograma e no momento incluem: Montevideo - Uruguay (e arredores) / Mendoza e Patagônia - Argentina (inclui aqui Ushuaia e "Carretera Austral" patagônia chilena) / Cidade del México - México/ Havana -Cuba/ explorar diferentes regiões na Bolívia como Tiahuanaco, Vale de la Luna e Laguna Verde/ Quito - Equador/ retornar para Cusco - Peru, ainda no Peru conhecer Nasca e Lago Titicaca para entrar em contato com os nativos e de volta ao Chile, aproveitar a proximidade para visitar a Ilha de Páscoa  e finalizar em Santiago, tentando compreender o que deixei por lá. Pensar nestas viagens me faz ter entusiasmo para seguir em meu caminho. Se eu pensar que preciso ter um trabalho apenas para me sustentar e pagar a moradia e planos materiais e todos os outros supérfluos, não tenho energia para seguir adiante.  Preciso traçar metas de viagem e liberdade, caso contrário tal prisão do dia a dia terá a minha desistência. Eu aprendi a lidar com as minhas chamadas "dualidades". Preciso experimentar ambos os lados. Carrego extremos bem pontuados e vivo me alternando entre eles. Minha responsabilidade tende a me deixar focado e centrado no trabalho por exemplo, mas se eu apenas levar este lado a sério demais, me sinto sufocado e preciso me desligar e fazer coisas pelas quais não sinta pressão. Da mesma forma, se eu andar pelo caminho torto por muito tempo,  sinto falta de estar em conexão com a minha centralidade. Sou assim em diversas outras situações. É como às vezes acreditar em Deus e em outras no Almodóvar, o sagrado e o profano andam juntos comigo, principalmente quando o assunto é sobre desejos sexuais: tenho todos! Não escolhi ser assim, vim assim e aceito a condição. Mas, retornando, o fato é que, estabelecer um mapa em minha cabeça destes lugares que pretendo conhecer, torna meu cotidiano menos denso, como se eu elaborasse pequenas soluções mentais para continuar a levar uma vida que talvez não seja a minha verdadeira essência, mas que ainda dependo dela para usufruir das possibilidades que ela me oferece: viajar, é a principal delas!

      Carrego muita bagagem interior pelos fatos que foram acontecendo em minha vida e minha forma ora errada, ora correta de lidar com eles me trouxeram até este que sou hoje. Quero me dar continuidade e sou impulsionado pelas experiências que ainda nem vivi, mas que sei, chegarão. Todos estes acontecimentos acumularam uma espécie de repertório e este repertório carrega minhas verdades em aberto. Se hoje sou assim, se minhas palavras saem nuas é porque encontrei na transparência do sentir, o melhor caminho para inspirar outras pessoas. Trato esta minha nudez com devoção, embora obviamente guarde meus mistérios. Sou este viajante aprendiz que sente paixão, felicidade e se emociona ao chegar em cada lugar que deseja explorar. Guardo comigo tudo o que vi: céu, nuvens, cidades, montanhas, pessoas, histórias, chão, mar...

     Na mochila, carrego um espírito livre. Na alma, um destino: nunca chegar!
Machu Picchu, Peru - Março 2014

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Onze ciclos: uma linda jornada

De alguns anos pra cá,  trato todas as fases e tempos de minha vida,  como ciclos. Desta forma,  meu entendimento,  principalmente sobre relações (de todos os tipos) se torna mais claro.  Perceber com esta clareza o tempo necessário que temos com a outra pessoa para evoluirmos juntos e que esta nossa jornada juntos depende de fatores emocionais,  psicológicos, filosóficos e ainda de afinidades e sentimentos múltiplos,  é também compreender o tipo de troca e aprendizados destas relações.

       Quanto de nós pode ser modificado pelo outro? 

      Há onze ciclos atrás fui modificado quase que por completo no encontro espiritual com a minha parceira evolutiva. Tenho a certeza absoluta que nosso (re) encontro aconteceu para ajudarmos um ao outro a evoluir em todos os potenciais por se tratar de uma continuidade de outras existências. No início deste encontro,  houve ainda a certeza de que o  sentimento envolvido nos manteria conectados por muitos anos.  Mas ainda lembro de uma frase que escrevi no primeiro texto sobre este assunto: "...é algo para muito tempo ou para lembrar com a saudade mais bonita se um dia acabar..."  E,  com este pensamento vivi todos esses onze anos de união,  sem a pretensão de que estivéssemos engessados naquele "para sempre" inexistente. Não acredito em nada que tenha que durar mais do que o tempo necessário: o tempo onde ambos estão felizes, enquanto há energia em sintonia. O melhor caminho sempre foi a liberdade,  a vontade de permanecer juntos pelo simples fato de querer continuar ou de buscar em outra pessoa uma nova forma de felicidade. 

        Assim funcionam os ciclos.

     Eu posso dizer que nunca encontrei (nem encontrarei) alguém que me doasse tamanho amor. Nesse tempo,  eu tive suporte,  encontrei o melhor colo para meus dias ruins, a melhor companheira de viagem,  a pessoa que mais compreendeu os meus chamados "Períodos de Isolamento Interno"(que foram tantos). Encontrei, de uma certa forma,  a pessoa que conseguiu entender quem eu sou, meu espirito livre, meus desejos diferentes, minha visão da vida,  minha tendência à solitude, meus devaneios e minhas tantas buscas espirituais. Alguém que me ajudou a amadurecer, ajudou  em minhas conquistas, em me tornar quem hoje sou. Fui amado, fui perdoado - cometi grandes erros. Carrego falhas,  não consegui suprir algumas carências,  alguns períodos de reclamações: não sou completo. Mas, olhando para trás,  numa espécie de fita onde aperto o "Rewind"  e depois o "Play" e assisto nossos vídeos em câmera lenta,  tudo o que mais vejo são os nossos risos. Fomos complementos. E em determinados momentos de nossa relação, fomos um só.

       Me sinto grato e abençoado por ter experimentado um amor assim. Sinto sobretudo, que nossa conexão espiritual, faz com que eu compreenda nosso caminho ainda juntos. Mesmo que não seja em uma relação amorosa, eu sinto de qualquer forma, que não haveria como nos separar por completo. Nossos espíritos estarão juntos a fim de auxiliar um ao outro, com o propósito de amor para evolução. Não haveria forma melhor de falar sobre estes ciclos, senão com a palavra GRATIDÃO. Foi uma linda jornada.

          A nossa relação se tornou uma espécie de estado de espírito que sempre me acompanhará.

Machu Picchu - Peru (Março 2014)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Diálogo

     Após aquela conversa,  senti um certo desconforto e uma sensação de distanciamento. Eu estava ouvindo uma grande diferença de pensamento entre nós sobre desejos. Eu estava sentindo pela primeira vez,  que talvez nosso caminho não era tão parecido quanto eu pensei ser (ou que quis tanto que fosse) e senti um certo vazio por isso. Eu havia passado tanto tempo a procura de alguém como eu: obviamente não igual a mim,  mas com uma visão sobre vida,  espiritualidade e prazeres semelhantes e, dessa forma,   me senti triste por pensar que na verdade,  poderia não ser quem eu já  havia encontrado.  Naquela conversa os pontos de interesses foram divergentes e não haveria nada de mal em uma inconformidade de pensamentos,  não fosse tamanha vontade que habitava em mim de que pudéssemos ser de algum modo, compatíveis em tudo. Mas que pretensão era a minha?  Favorecer o meu ego? Pensar que eu deveria estar como primeira opção em todas as experiências?  Como,  se o que posso oferecer de melhor ao outro é a liberdade? 

     Se aquela conversa,  me fez sentir um pouco rejeitado e até comparado, também me fez rever o meu pensamento de respeitar a condição e os desejos do outro de eu não ser a melhor escolha e desse outro sentir-se confortável com o fato de encontrar em outra pessoa uma afinidade maior e gostos iguais.  As minhas diferenças ora me favorecem,  ora me fazem sentir desajustado,  mas ainda me prefiro assim.  Pude compreender durante estes dias de reflexão sobre este assunto, que este meu entendimento pode ser aplicado em outras situações em minha jornada.  Me conforta ao menos,  o fato de eu conseguir sugar de uma conversa com respostas inesperadas,  um novo aprendizado e perceber que a maneira como algo me afeta também me ajuda a ajustar o que não está tão bom em mim (analisar meu comportamento e ciúmes por exemplo)  e,  por fim,  aceitar a minha própria condição.

     Entendo que assim é o meu caminho,  tudo o que faço, falo, ouço ou observo tem muita intensidade e talvez por conta disso algumas coisas ganham uma importância maior do que deveriam.  Nenhuma outra importância porém,  neste caso,  é maior do que a de saber dos outros sentimentos maiores que envolvem esta relação espiritual. Talvez eu apenas precise aceitar que nem tudo o que eu desejo deve se tornar real. 

     De resto,  muito amor. 


terça-feira, 28 de abril de 2015

Eu cativo, tu cativas, ele cativa...

      Os significados misturaram-se em uma espécie de espiral e os sinônimos saltaram aos meus olhos como faíscas que refletiam luzes e tentavam me mostrar clareza. Mas havia assim, tanta dúvida? Pela primeira vez então, eu fiquei confuso em relação a tal fato. Tive visões imaginárias que me provocaram o estômago, a ansiedade, a minha raiva interior: imaginava cenas e queria fugir delas o quanto antes, antes que eu causasse uma destruição. Mas a destruição fora interna, em forma de perdas. Perde-se certezas, perde-se a noção de confiança plena. Novamente a culpa é minha?

    Tentei camuflar a minha falta de capacidade de não suprir as "chamadas carências" com uma distração qualquer. Sou incapaz, sou menos, sou diminuído pelas minhas dúvidas. Não sou completo. Como ser completo? Como competir com o frescor de novas possibilidades? Esqueci do quanto nunca tive esta necessidade. Fui apenas observando, fui tentando compreender, e observando, tentando decifrar, e observando. Tantos afetuosos elogios, diferentes risos, tanta proximidade e necessidade de outras energias. Afinal, talvez mais do que outras pessoas,  entendo que somos todos carregados de desejos. Como pude então não saber filtrar estas percepções. 

     Os sinônimos foram sacudidos em frente a mim como se saltassem do dicionário, falavam sobre encantamento, sobre sedução, sobre atração. Então, confundi as palavras, troquei o entendimento que eu tinha sobre elas e me retirei. Um tanto resistente talvez para alguém que levanta tanto a bandeira da liberdade e da livre escolha como eu. Tive medo, como se fosse sofrer uma espécie de morte de sentimentos. Não queria velá-los. Mágoas me jogariam novamente em um cômodo onde já passei um tempo perdido de vida. Retornei então à minha covardia e me mantive aqui, quando tudo o que deveria ter feito era ter deixado seguir.

     Precisando retornar ao meu eu. Resiliência.

      

quinta-feira, 23 de abril de 2015

(Re) Apresentação: A TRANSPARÊNCIA DO SENTIR: relatos de uma jornada interior (Um novo nome/ciclo para o mesmo blog)

     Antes de qualquer coisa: não sou escritor. Meus textos não seguem exatamente as normas da gramática e por vezes as minhas palavras soam repetitivas. Escrevo, porque esta é a minha forma favorita de expressão, escrevo porque preciso transferir para algum lugar - seja uma página de papel ou uma página da web – os retalhos de sentimentos que surgem em minhas divagações. Escrevo para remediar minhas doenças. Escrevo para me livrar de meus próprios sintomasEscrevo porque anseio ser lido.  Entendo obviamente, que escrever é desabafo em sua maior parte, não resolução. Porém, entendo também, que a forma como registro este “estar de cada coisa” vai de certa forma emoldurando a minha própria história. Sou fascinado por tudo que é autobiográfico: não haveria então melhor caminho a seguir com esta minha “assim chamada escrita”.
     Os primeiros registros de textos que escrevi são do ano de 1998 (dezesseis anos atrás). Posso dizer que a partir desta data até aproximadamente o ano de 2007, escrevia constantemente como se fosse uma espécie de diário, onde os textos não seguiam uma fórmula exata. Mesmo assim, estes textos foram todos postados em um blog pessoal que intitulei de “Palavras Pensadas: o som do sentido das coisas” (estando agora em modificação). Basicamente, eles se resumiam em inconformismos e amarguras, passando por paixões não recíprocas avassaladoras da juventude, mágoas destiladas por uma explosão de sentimentos imaturos e logo ali, diários sobre como as escolhas, o tempo e principalmente a minha relação com os meus empregos e a sociedade do “ter de, adquirir” me fizeram sofrer de algo que chamava de “síndrome do arrependimento e sofrimento antecipado”. Um muro de lamentações, grafitado sem cor alguma em desenhos tortos. Resolvi, portanto, enxugá-los aqui. Exceto àqueles que apesar da distância, foram decisivos e contribuíram para moldar a minha personalidade.
     De aproximadamente três anos pra cá, meus textos foram tomando outro rumo e retratando novos interesses. O fluxo de consciência encontrou outras vertentes e desaguou em outros mares. Neste momento a frase “a transparência do sentir” começou a aparecer constantemente em meus devaneios. Esta frase de uma maneira direta e bastante intensa, imprime uma nova direção para o que escrevo, tornando meus relatos com um nível cada vez maior de espiritualidade, psicologia emocional e consequentemente de consciência.  Falar abertamente, com a transparência do que sinto coloca meu Ser em busca constante de evolução. Embora a confusão de sentidos também me fascine: deixo nas entrelinhas espaços abertos para interpretações. Desta forma, aqui inicia um novo ciclo que começa com um novo título para estas tantas divagações escritas. Nasce portanto, “A transparência do sentir: relatos de uma jornada interior”.
     Não haverá nestas palavras, nada de extraordinário. Meus textos, meus devaneios, minhas divagações me servem como uma terapia. Meus relatos interiores de acontecimentos puramente cotidianos entrelaçados com as minhas relações (de todos os tipos) e minha visão sincera sobre estes assuntos sendo compartilhados de uma forma aberta através deste “canal” é uma maneira de, através de minhas próprias experiências, inspirar a quem ler a sentir a coragem libertadora de olhar para dentro de si e vasculhar tudo o que há lá, numa viagem profunda ao autoconhecimento. 
         A estrada é longa. Seguindo a jornada...
                                                                                             Cléo Medeiros