domingo, 21 de junho de 2015

O instinto primitivo

     Eu lembro nitidamente de uma das cenas do filme "Comer, rezar, amar", onde emocionalmente é esta cena que dá o ponta pé inicial na jornada transformadora que a personagem teria a partir daquele momento: sozinha no banheiro, a personagem aos prantos se encara de frente no espelho deparando-se com o desespero do caminho que havia seguido até ali e com o medo da coragem que estava tendo de terminar a relação em seu casamento para iniciar assim o seu novo trajeto interior de uma descoberta espiritual através de buscas e viagens. Ainda que neste caso, a personagem seja feminina, já passei por momentos como este por diversas vezes até este instante de minha própria jornada, em diferentes assuntos que me angustiavam e não somente por conta de minhas relações (mas também delas). 

    Hoje a tarde, tive um momento parecido com o desta personagem (real, já que a história do filme/livro é autobiográfica), um pouco antes de entrar no banho. A diferença é que me ocorreu o inverso: não consegui chorar ou estar aos prantos, uma tristeza perturbadora secou a minha garganta e os pensamentos mais distantes invadiram minhas reflexões. Chovia muito dentro de mim, novamente como já choveu em outros tempos. Por dentro eu já estava ensopado, mas não queria mais estas nuvens, não queria... 

     Pela primeira vez em toda a minha existência desejei ser normal, comum, quando sempre achei que o que me diferenciava dos outros seres era justamente pensar o oposto. Ultimamente, tenho retrocedido em pensamentos primitivos sexuais. Pensado em sexo, comparado os sexos, o meu e o dos outros, imaginado sexos que não gostaria de imaginar e dando a tudo uma conotação altamente sexual. Pensando inclusive, que a pior das traições seria sexual, sendo que em verdade, o sexo faz parte deste instinto animal que carregamos dentro de nós em tempo integral e de todos os atos pode ser até o mais perdoável. Traições de sentimentos, traições de verdades contadas, estas sim, são bem piores. Trair seus próprios desejos, seria uma sentença ainda mais devastadora. 

     Estou passando por um momento interno solitário. Considerando que talvez a forma como sempre me expus abertamente nem sempre tenha sido favorável a mim e entendendo que para as pessoas ao meu redor talvez seja realmente difícil me aceitar nestas condições, tão duplas. Tenho esta duplicidade de desejos, tenho duplicidade em quase tudo o que carrego. Deveria eu ter ficado trancado dentro de mim? Ou deveria eu apenas me afastar deixando estas pessoas apenas no convívio de pessoas que sejam iguais a elas, que tenham sentimentos e desejos apenas como o delas? Namorados homens que apenas se interesse por mulheres, amigos homens que somente provem mulheres, mulheres que sejam apenas mulheres, pais que sejam somente pais, pessoas que absolutamente gostem de uma coisa só, já que eu, como nasci do avesso, não consigo ser assim. Mas acreditem, hoje eu gostaria de ser aquilo que seria o ideal ser. 

     Com pensamentos que não cessam, a subida na montanha hoje é outra. Profundamente esgotado e triste, nos meus ouvidos também toca um bocado de tristes canções. Comer, rezar, amar? Nenhuma das opções.

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