quarta-feira, 29 de julho de 2015

O peso da jornada

     Nossa estadia por aqui é densa. Nossa passagem por aqui vai além do que no momento a minha capacidade espiritual consegue assimilar. Acredito que todas as buscas que fazemos, sejam rituais, retiros, religião, novas linhas de pensamento, ateísmo, filosofias zen, seja apenas uma parada do trabalho para respirar ar puro, para exercitar o corpo, uma viagem com o intuito de desligar a mente, todas, todas estas pequenas ou grandes práticas acontecem no fundo apenas para amenizar o peso de nossa estadia neste plano, para aliviar o nosso espírito, caso contrário a tal escalada na montanha se tornaria difícil demais, para não dizer insuportável.

     São regras demais, "certo e errado" demais, dúvidas demais, lutas internas demais para perseguir um portal de passagem que possui cores diferentes - sem contar ainda a variação de tons - de uma pessoa para outra. E se eu não ver a cor que eu deveria enxergar? E se o portal não existir e eu não puder retornar?

    Tenho pensado ultimamente que cada Ser que deixa este plano deveria ser aplaudido e ao invés de nossas lágrimas deveria receber honras por ter tentado fazer o melhor que podia aqui para elevar o seu espírito e retornar para um lugar que em verdade, desconhece, acredita que exista, mas desconhece. Viver uma vida aqui e uma lá não está sendo bom para mim, entrei novamente numa fusão de sentimentos que ora me acalmam e ora me perturbam.

    Os questionamentos de hoje, por falar em cores, saem sem nenhum tom. Ou seria em uma cor que ainda não descobri? Desviei da minha rota mais uma vez...Voltando.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O apontador

      Eu consigo lembrar nitidamente da primeira vez em que um ato de injustiça aconteceu comigo. Eu tenho trabalhado há algum tempo o meu rancor, e aquela parte em que dizem, não devemos guardar o que não nos fez bem, porém, guardo esta lembrança não exatamente como um acontecimento ruim, mas como um acontecimento que me fez prestar atenção naquilo que eu carregava dentro de mim e que talvez por ser tão cedo, certamente eu não sabia ainda como acessar. A história é curta: eu estava na primeira série escolar, um pouco atrasado porque iniciei os estudos no ano em que completaria oito anos de idade, e foi aos oito anos que entendi como eu deveria me preparar para a vida. Enquanto eu escrevia (rabiscava) algo que a professora havia posto no "quadro negro", dois colegas se aproximaram de mim, falando baixo entre eles, minha mochila estava "vestida" na minha cadeira. Logo eles saíram de perto e alguns minutos depois que voltaram a sentar, um deles gritou alto para a professora que havia "sumido" o apontador dele, enquanto o outro apontava em minha direção dizendo que havia me visto pegando o tal "aponta lápis" e colocando-o na mochila. Os dois colegas prontamente levantaram-se e foram até a minha mochila onde para a minha surpresa, lá estava o apontador, que eles mesmo haviam colocado, ergueram e mostraram para a professora. Lembro da minha expressão de choro e de minha voz falando para a professora que aquilo era mentira, que eu não havia pego nada, mas infelizmente também lembro da voz dela severamente me dizendo que "era feio roubar" e me mandando sentar quieto. Olhei para o lado chorando enquanto os dois colegas estavam rindo.

     Para ficar claro, esta não é uma história sobre o roubo de um apontador: é uma história sobre a essência da maldade, da mentira, do julgamento errado e da injustiça. Hoje, sendo um Ser consciente, entendo melhor aquela situação. Posso descrever por partes para que, quem está lendo este texto agora possa fechar os olhos e visualizar uma cena: meus colegas, um deles numa posição financeira melhor do que a minha e filho de uma das professoras daquele colégio, o amigo dele, amigo do filho de uma das professoras daquele colégio, a minha professora: bem esta não seria nem louca de acusar o filho rico da outra professora do colégio por conta do roubo de um simples apontador feito pelo aluno pobre daquele mesmo colégio, no caso eu. Entendido?  Agora sem melodrama posso continuar...

   A medida em que envelheço (ou ganho maturidade), meu senso de justiça cresce proporcionalmente. Este fato isolado que relatei acima, surge em minha lembrança como um marco do momento em que inconscientemente fui colocado à uma prova de valores humanos e tive uma de minhas primeiras decepções. Seria apenas uma simples brincadeira inofensiva destes meus colegas tão crianças, ou talvez havia neles uma tamanha propensão a maldade  que deveria ser compartilhada com seus pais a fim de um tratamento para que não continuassem a cometer atos injustos de proporções maiores na vida adulta? A falta de discernimento com que a professora agiu não ouvindo o aluno que tentava se explicar aos prantos, foi realmente uma simples falha ou foi cometido por um julgamento preconceituoso de distinção de classe social?  Quais seriam suas perdas e ganhos ao investigar melhor aquele "fato bobo" em que hoje, vinte e quatro anos depois ainda lembro? Eu me assusto com tais valores. 

     Com minha consciência em passos contínuos à lucidez, hoje não há como alguém passar por cima daquilo que não considero justo em minha vida. Seja em minhas relações, seja no meu trabalho, seja nas experiências puramente cotidianas em contato com o outro. Há algo que grita em mim se por ventura sou colocado a um mesmo tipo de prova. Às vezes admito, não tolero fatias pequenas de pensamentos injustos: não me diga que fiz se não fiz, não me julgue antes de ter certeza, não desconfie daquilo que está muito claro em mim. Diferentemente daquele momento, neste, eu existo e existindo tenho voz ativa e nenhuma paciência para este tipo de comportamento. O que houver contra mim, que seja no mínimo, justo.
     
    

    




   

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Vídeo gravado em tons de Zen e Azul e Preto e Branco

     Uma das coisas mais importantes sobre mim e que tenho tido a necessidade de deixar registrado é que de alguns anos pra cá me tornei um caminhante ativo da estrada Zen, sendo algumas pessoas mais próximas, conhecedoras desta minha total inclinação a esta parte da espiritualidade. Desta forma, percebi com o passar deste mesmo tempo, mais voltado ao meu interior, mais centrado no estudo do autoconhecimento, que minhas ações fizeram com que muitas pessoas tivessem uma percepção talvez um pouco equivocada a meu respeito. Explico: tenho a necessidade de meus períodos de isolamento interno, de meus estudos sobre meu próprio ser, tenho as minhas práticas espirituais, não porque necessariamente eu seja de uma natureza Zen, mas carrego emoções e sentimentos interiores que são tão turbulentos que preciso encontrar uma maneira sensata de controlá-los, adestrá-los, acalmá-los. Eu tenho dentro de mim uma mina em constante fervura que pode explodir e meu trabalho interno é mantê-la controlada, a fim de que ela vá esvaindo-se aos poucos, até desparecer. Então, esta é a percepção errada que as pessoas tem sobre mim: eu não sou exatamente assim, eu tenho necessidade de ser. 

     Por conta disso, constantemente escrevo sobre carregar dentro de mim luz e escuridão. Sou um espírito, sou uma energia. Eu, talvez às vezes, até canso desta maratona espiritual. Vivo transitando entre lá e cá. Vivo analisando cada coisa que faço enquanto vivo. E tenho sede, imensa sede de viver. Mas  ocorreu hoje, que eu estava ouvindo uma música onde a letra fala sobre um suposto vídeo que passaria ao chegarmos no "Céu", daqueles vídeos em câmera lenta com nossos melhores momentos. Pensei: qual vídeo eu deixaria aqui? Qual vídeo apareceria na tela de lá? Os mesmos? 

    O que mais quero é percorrer este caminho da transparência do sentir que eu mesmo abri, sem medo. Estou numa fase em que "ocultar" não tem qualquer serventia. Prefiro me mostrar assim, desta forma, deste jeito, claro e escuro. Eu não quero deixar nos vídeos registrados aqui, apenas uma imagem. Tal vídeo deverá ter muitos recortes em cores dos mais variados tons, filtros  e preto e branco. Presença e ausência. Inquietude e calmaria. Raiva e amor. Tudo o que eu carrego, tudo o que eu sou, tudo o que vim para experimentar ser. Expressões de tristezas e gritos, para só no final dos créditos entender a felicidade do Zen.

   Fim.

domingo, 12 de julho de 2015

Eu teria um orgasmo e mesmo assim não bastaria

     A insatisfação é inerente ao ser humano! Talvez nem o mais Zen de todos os zen's consegue realmente ter uma satisfação plena (aliás tudo o que é pleno, a meu ver é inatingível). Em algum dado momento até um monge deve ao menos sentir-se insatisfeito com sua própria técnica por não conseguir cessar alguns pensamentos durante uma meditação. Mas o que me intriga, é que nossas insatisfações geralmente são geradas pela falta de algo que não temos porque somos presunçosos a considerar que merecemos sempre mais do que nos é oferecido. E também sinto que nossa insatisfação acontece por não estabelecermos uma conexão maior com o nosso presente: sofremos pelo que tínhamos no passado e já não possuímos, sofremos por querer que o futuro recupere o que deixamos de ganhar. Raras às vezes, nos sentimos realmente gratos pelo nosso "agora".

     Sentimos insatisfação em diversas estágios e esta insatisfação envolve aquilo que é material e aquilo que não é palpável. Reclamamos quase em tempo integral: reclamos quando é calor demais, e quando é frio demais, quando estamos sem trabalho e quando temos muito trabalho, reclamamos por querer mais espaço para nós mesmos e também reclamamos de solidão, reclamamos muito por coisas poucas e acabamos por nos acostumarmos a sentir falta daquilo que não está em nós. Buscamos o que não está em nós de forma errada, na maioria das vezes. É como se nada bastasse, nada fosse bom o suficiente porque ao encontrarmos o que procuramos, surgem mais dois ou dez diferentes desejos e seguimos em nossa caminhada pelo campo florido de solo fértil a tudo o que não satisfaz.

      A frase do título deste escrito não é minha, é de uma letra de uma música da qual gosto muito e que fala da impossibilidade da felicidade plena ao alcance de nossas mãos. Chegar a um orgasmo, dito como prazer máximo de nosso corpo e não se satisfazer com esta liberação de energia, é fazer sala para o descontentamento. Tento assimilar que a felicidade plena realmente é inatingível por que sempre haverá uma lacuna, um espaço em branco que não completará nossa história pessoal. Porém, por outro lado, tenho tentado mudar em mim - seja um pedaço por dia - os pensamentos que me tiram deste momento, deste aqui e agora, assim ao menos diminuo a ânsia de correr atrás do que minhas pernas não precisam ter forças para fazê-lo. Prefiro assumir a responsabilidade de meus passos e escolhas, principalmente de minha inserção ao sistema por conta do estilo de vida que levo. Como reclamar quando fui eu mesmo que me joguei nesta arena?

    Minha insatisfação geralmente está associada àquilo que não tenho coragem de deixar para trás pensando em seguir em frente. Meus pensamentos inquietos, tem sua nascente ali, naquela fonte de dúvidas. Quero desembaçar a visão para enxergar o que tenho em meu momento real, deixar o mundo imaginário de lado e o planeta das lembranças para trás. Estou tentando prestar atenção no caminho em que poderei treinar minhas penas para percorrer. Ainda montarei o meu acampamento em cima de uma terra onde a minha gratidão seja maior do que qualquer coisa que me falte. Neste dia acomodarei a minha mochila e nunca mais sairei de lá.