segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Notícias nossas

      Talvez nos últimos quatro anos, houve esta distância material entre nossos corpos e nossa sintonia talvez tenha se perdido no caminho... A sintonia, não o amor, apesar da sintonia estar ligada ao amor e vice-versa. Talvez ela, minha irmã espiritual, tenha chegado a um estágio que eu ainda esteja distante demais para alcançar, em nossa busca desenfreada pela evolução e nossa incapacidade de assimilar que não importa o quanto a gente corra sempre estaremos atrasados neste processo. Somos seres espirituais primitivos demais querendo avançar e recuperar o tempo perdido pelas horas de desvios de nossa caminhada (atalhos nem sempre mais curtos).

     Hoje recordei dos verdadeiros jornais que escrevíamos um para o outro contando detalhes de nossas vidas e pedaços inteiros recortados de nossos estados emocionais como uma espécie de troca, uma genuína troca de aprendizados e ajuda recíproca. Me fazem tanta falta tamanhas linhas e tempo de conversas presentes. Aquela a qual intitulei de irmã espiritual, não escolhida mas sentida por nossas energias em fusão, a parte feminina que completava a minha metade masculina, a metade masculina que completava a minha parte feminina. E em nosso recesso,  eu erroneamente passei um período não entendo esta reclusão e tantos desencontros e a forma como se ausentou quase que por completo de nosso pequeno círculo. Houve preocupação, depois incompreensão e agora um novo estágio de sentimento de paz interior e entendimento de caminhada.

    Eu daria notícias mais completas dos últimos acontecimentos que me ocorreram neste tempo afastados, mas receio pelo pouco tempo... Minha vida está mudando freneticamente e meu interior abrindo espaços que talvez eu nem sabia que conseguiria abrir. Ando inspirado pelos andarilhos livres das estradas, aqueles que sobem até as montanhas e enxergam as imagens mais significativas da natureza em toda sua energia e esplendor, tudo assim, ao seu redor. Me descobri Folk, um andarilho folk que anda cambaleante a procura de sua verdadeira rota.  Eu poderia dizer que pós meus trinta anos, a poeira emocional parece ter começado a se assentar (nem por isso tenho menos dúvidas), minha preocupação desenfreada com o trabalho finalmente diminuiu e aquela minha costumeira ajuda à minha família, antes doada sem me considerar, hoje está mais mansa, já não carrego mais o bastão e o fardo maior: consegui dividir as tarefas. Minha estrada solitária sempre me chama, mas ainda me encontro em um tempo rodeado por pessoas. Eu me tornei um Ser espiritual muito ligado aos rituais, diferenciando assim as nossas experiências, eu ainda procuro por substâncias para aberturas e e eu gosto delas. E não, ainda não sei lidar com mágoas, ainda não sei o que fazer quando alguém me machuca, me percebi e me aceitei como um Ser profundamente emocional, como uma característica maior de minha personalidade cheia de dualidades,  sou uma explosão de alegria que se deprime facilmente, sou luz e escuridão. E ainda sou apaixonado por música como antes, como se fosse uma energia  a me complementar e inclusive escrevo estes parágrafos rasgados ouvindo "Johnny Cash- Hurt" repetidamente. A arte não me distrai, apenas me possibilita um respiro.  E o sexo, ahhh o sexo, assunto tão presente em nossas conversas de experimentações, a excitação entrou em um outro canal que é diferente da excitação carnal primitiva humana, meus desejos são outros. Chegou a um estágio vital para a manutenção da minha energia.

    Minha doce e fiel amiga,  ainda vivo com um turbilhão de  sentimentos dentro de meu Ser, e sinto ter tantos afazeres espirituais que as vezes acabo por deixar esta vida terrena em segundo plano mesmo sabendo no meu íntimo que este não é o caminho  correto: sustentamos apenas uma ilusão do que vem depois, nada que de fato seja sentido como uma verdade absoluta. Preciso contar também que há pouco tempo encontrei no meio do caminho o meu irmão espiritual, uma das partes de que chamo de irmandade neste plano e que assim como a nossa conexão,  me conforta e me enche a vida de alegria neste momento. Eu estou numa fase espiritual da vida em que há três prioridades que busco: energia, clareza e equilíbrio. E ainda resvalo, resvalo muito para dentro do poço, mas é na escalada de volta até a montanha que vejo os lampejos do que devo fazer para continuar em frente. Descobri uma paixão absurda por viver nunca sentida antes até a casa de meus vinte e poucos anos. Toda esta possibilidade de vida me excita.

     Em minhas orações e pensamentos de energia, eu a vejo e a sinto como uma luz brilhante, uma luz que encontrou um caminho diferente do meu, mas o que posso oferecer de melhor é a liberdade para que ela siga conforme o seu tempo e o caminho que considerar correto para a sua evolução. Minha irmã espiritual, o espírito que mais ajudou o meu espírito em questões emocionais,  que me ajudou a descobrir partes importantes de mim mesmo, confidente das paixões mais devastadoras e do meu amor encontrado: sempre será uma inspiração em minha jornada. Minha jornada aliás, ganhou outro sentido por nosso reencontro. Não há coisa mais linda que a aceitação e amor pelo caminho escolhido do outro, ainda que os olhos fiquem assim, tão marejados de saudade. Escondido dentro daquela minha tatuagem no braço esquerdo, "Status Libertatis". que desenhei pensando em nossa trajetória na vida, guardo simbolicamente todo o meu amor. Esta amizade é uma celebração daquilo que não cabe em palavras dizer. Gratidão talvez um dia explique. Siga livre.



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“Tenho um bocado de coisas para te ensinar agora, no caso de nunca mais nos vermos, relativas à mensagem que me foi transmitida embaixo de um pinheiro na Carolina do Norte em uma noite fria e enluarada de inverno. Diz-se que nada nunca acontece, então não se preocupe. É tudo como um sonho. Tudo é êxtase, no interior. Nós só não sabemos disso por causa de nossas mentes pensantes. Mas em nossa verdadeira essência da mente sabemos que tudo está certo lá dentro.
Feche seus olhos, deixe suas mãos e terminações nervosas relaxarem, pare de respirar por 3 segundos, escute o silêncio que está por trás da ilusão do mundo, e você se lembrará da lição que esqueceu, e que foi ensinada na imensa e suave nuvem da Via Láctea inumeráveis mundos atrás e nunca mais depois disso. Tudo e uma só coisa desperta. Eu a chamo de Eternidade Dourada. É perfeito.
Nós nunca realmente nascemos, nós nunca iremos realmente morrer. Isso não tem nada a ver com a ideia imaginária de um ‘eu’ pessoal, outros ‘eus’, muitos ‘eus’ em todos os lugares: ‘Eu’ é apenas uma ideia, uma ideia de mortais, que ocorre a todas as coisas que são uma coisa. É um sonho que já acabou.
Não há nada a temer e nada a agradecer. Eu sei disso por olhar as montanhas por meses a fio. Elas nunca mostram nenhuma expressão, são como a vacuidade do espaço. Você acha que a vacuidade do espaço irá algum dia desmoronar? As montanhas irão desmoronar, mas a vacuidade do espaço, que é a essência universal da mente, o vasto despertar, vazio e consciente,  jamais desmoronará porque jamais nasceu..."
                 (Carta de 1957, de Jack Kerouac para a sua ex-esposa 10 anos após sua separação)



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