segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O melhor para todos: ciclo fechado e pássaro azul

    Estas são as últimas palavras escritas dentro deste ciclo tão intenso-amargo-vulnerável-desolador e ao mesmo tempo tão revelador. Este ciclo foi um desafio interior constante onde as minhas buscas ficaram cada vez mais urgentes e minhas perdas cada vez mais óbvias. Financeiramente derrotado, espiritualmente mais calmo mas emocionalmente esgotado. Sentimentos em desordem, em absoluta desordem. Saí fora da trilha por diversas vezes e custei a reencontrar o trajeto, e no final de tudo, aqui estou eu sem direção. 

    Algumas coisas vieram ainda mais à tona como a minha tendência a tomar parte de toda a responsabilidade nas situações de conflitos em todas as minhas relações (tudo o que sinto está dentro de mim e não na outra pessoa), minha tendência a doer, mesmo que compreenda que nunca se trata daquilo que o outro faz e sim de como lido emocionalmente com aquilo que o outro faz, minha tendência a cada vez mais ter a clareza de que o que está dentro de mim é o que torna tudo mais desafiador e assustador, mas ao mesmo tempo, torna a minha jornada mais bonita. Por outro lado, o meu descontentamento interno e minha autoestima em declínio, desabaram num riacho de águas não tão limpas chamado "ciúmes", sentimento tão novo e tão estupidamente nocivo que me tornou nos últimos tempos em alguém desconhecido para mim mesmo. Foi perturbador conviver com as histórias que minha mente criou e que meu estômago sentiu. Nada é meu, tudo se modifica, não sou prisão e sim liberdade: precisei me esbofetear algumas vezes no espelho encarando meus próprios olhos e relembrar a minha inferioridade para assim poder continuar. 

   Quando estive em contato, por um curto período de tempo, com algumas premissas da Conscienciologia (Estudo da consciência do Ser, entendendo por consciência, aquilo que carregamos internamente e que não finda mesmo quando nosso corpo material falece), mantive em minha vida o cuidado com a minha Energia, algo que é bem explorado nesta ciência, e um pensamento que dizia algo como "que aconteça o que for melhor para todos". Explico: muitas vezes, quando precisamos que algo chegue até a nós, acabamos por nos colocar no centro deste desejo e nos esquecemos que tudo está conectado e que as coisas estão interligadas. Desta forma,  talvez não por egoísmo e sim por hábito, tratamos nossos pedidos como algo puramente pessoal e travamos uma luta com o que infinitas vezes será sempre maior do que nós mesmos: o Universo. O Universo por sua vez, sempre analisará nosso pedidos e anseios com o resultado que isto trará para nosso grupo, intrincado em nossas relações sejam familiares, de amores, de amizades ou trabalho. 

     É deste pensamento que quero sugar os aprendizados do próximo ciclo: evitar o sofrimento por aquilo que não vem até a mim pelo simples entendimento de que todo e qualquer desejo que carrego, não pode apenas me beneficiar. Tentar compreender que se não estou tendo aquilo que tanto procuro é por um conjunto de fatores que vão além do que meu Ser no estado em que me encontro hoje, consegue de fato assimilar, mas que preciso saber que existe esta razão universal para tudo. Se eu acreditar que se algo não aconteceu é porque "não seria o melhor para todos" em qualquer que seja a situação (relacionamentos, algo material...) deixo de focar naquilo que está impedindo que aconteça e pulo para a etapa de entendimento da situação. Eu sempre gasto uma energia desnecessária com aquilo que não me é permitido ter, ou sentir, ou usufruir, ou que não posso seguir, sendo que o melhor seria cuspir para fora do que nutrir, só que engulo a saliva na maioria das vezes e esta, entala no peito.

    Meus pensamentos turbulentos, minhas tentativas Zen, minha inquietude, minhas práticas espirituais, meus erros e falhas, meus desejos sexuais não convencionais, minha respiração, meus rituais, meu erros e falhas, "minha carreira", minha alienação e desaprovação ao tipo de trabalho que preciso manter por sustentação, meus erros e falhas, minha inclinação à outro tipo de vida e planos, minha gratidão, minha necessidade de solitude e silêncio, meus erros e falhas, minha clareza, minhas dúvidas, minha necessidade de afeto e pessoas, meu erros e falhas, minhas alegrias, meus amores, minhas dores, meu Ser. Tudo em mim.

    No devaneio confessional de Bukowski, pego alguns trechos emprestados e busco ajuda para definir este momento:  hora dessas, este pássaro azul também vai sair; porém agora, ainda continuará aqui...


Pássaro Azul (Bukowski)

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair

mas sou duro demais com ele,

eu digo, fique aí, não deixarei

que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair

mas eu despejo uísque sobre ele e inalo

fumaça de cigarro

e as putas e os atendentes dos bares

e das mercearias

nunca saberão que

ele está

lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair

mas sou duro demais com ele,

eu digo,

fique aí, quer acabar

comigo?

(...)



há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho

lá dentro, não deixo que morra

completamente

e nós dormimos juntos

assim

com nosso pacto secreto

e isto é bom o suficiente para

fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?






Nenhum comentário: