quarta-feira, 22 de julho de 2015

O apontador

      Eu consigo lembrar nitidamente da primeira vez em que um ato de injustiça aconteceu comigo. Eu tenho trabalhado há algum tempo o meu rancor, e aquela parte em que dizem, não devemos guardar o que não nos fez bem, porém, guardo esta lembrança não exatamente como um acontecimento ruim, mas como um acontecimento que me fez prestar atenção naquilo que eu carregava dentro de mim e que talvez por ser tão cedo, certamente eu não sabia ainda como acessar. A história é curta: eu estava na primeira série escolar, um pouco atrasado porque iniciei os estudos no ano em que completaria oito anos de idade, e foi aos oito anos que entendi como eu deveria me preparar para a vida. Enquanto eu escrevia (rabiscava) algo que a professora havia posto no "quadro negro", dois colegas se aproximaram de mim, falando baixo entre eles, minha mochila estava "vestida" na minha cadeira. Logo eles saíram de perto e alguns minutos depois que voltaram a sentar, um deles gritou alto para a professora que havia "sumido" o apontador dele, enquanto o outro apontava em minha direção dizendo que havia me visto pegando o tal "aponta lápis" e colocando-o na mochila. Os dois colegas prontamente levantaram-se e foram até a minha mochila onde para a minha surpresa, lá estava o apontador, que eles mesmo haviam colocado, ergueram e mostraram para a professora. Lembro da minha expressão de choro e de minha voz falando para a professora que aquilo era mentira, que eu não havia pego nada, mas infelizmente também lembro da voz dela severamente me dizendo que "era feio roubar" e me mandando sentar quieto. Olhei para o lado chorando enquanto os dois colegas estavam rindo.

     Para ficar claro, esta não é uma história sobre o roubo de um apontador: é uma história sobre a essência da maldade, da mentira, do julgamento errado e da injustiça. Hoje, sendo um Ser consciente, entendo melhor aquela situação. Posso descrever por partes para que, quem está lendo este texto agora possa fechar os olhos e visualizar uma cena: meus colegas, um deles numa posição financeira melhor do que a minha e filho de uma das professoras daquele colégio, o amigo dele, amigo do filho de uma das professoras daquele colégio, a minha professora: bem esta não seria nem louca de acusar o filho rico da outra professora do colégio por conta do roubo de um simples apontador feito pelo aluno pobre daquele mesmo colégio, no caso eu. Entendido?  Agora sem melodrama posso continuar...

   A medida em que envelheço (ou ganho maturidade), meu senso de justiça cresce proporcionalmente. Este fato isolado que relatei acima, surge em minha lembrança como um marco do momento em que inconscientemente fui colocado à uma prova de valores humanos e tive uma de minhas primeiras decepções. Seria apenas uma simples brincadeira inofensiva destes meus colegas tão crianças, ou talvez havia neles uma tamanha propensão a maldade  que deveria ser compartilhada com seus pais a fim de um tratamento para que não continuassem a cometer atos injustos de proporções maiores na vida adulta? A falta de discernimento com que a professora agiu não ouvindo o aluno que tentava se explicar aos prantos, foi realmente uma simples falha ou foi cometido por um julgamento preconceituoso de distinção de classe social?  Quais seriam suas perdas e ganhos ao investigar melhor aquele "fato bobo" em que hoje, vinte e quatro anos depois ainda lembro? Eu me assusto com tais valores. 

     Com minha consciência em passos contínuos à lucidez, hoje não há como alguém passar por cima daquilo que não considero justo em minha vida. Seja em minhas relações, seja no meu trabalho, seja nas experiências puramente cotidianas em contato com o outro. Há algo que grita em mim se por ventura sou colocado a um mesmo tipo de prova. Às vezes admito, não tolero fatias pequenas de pensamentos injustos: não me diga que fiz se não fiz, não me julgue antes de ter certeza, não desconfie daquilo que está muito claro em mim. Diferentemente daquele momento, neste, eu existo e existindo tenho voz ativa e nenhuma paciência para este tipo de comportamento. O que houver contra mim, que seja no mínimo, justo.