quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sabotar a si mesmo

     A desordem interior gera um certo tipo de vício. Acabamos nos viciando na sensação de autocomiseração. Nos viciamos em boicotar nossa boa energia porque em determinadas fases, algumas emoções por mais dolorosas que possam parecer, nos preenchem e talvez esta seja uma atitude particularmente humana. Eu tenho então, a chamada "solitude" como uma poderosa aliada, porque compreendo que se trata de um tempo reservado, uma espécie de retiro interior, uma pausa de outras companhias para um momento a sós comigo mesmo, é uma necessidade para minha condição emocional. A "solitude" diferente da solidão, não é um processo dolorido, ao contrário. Porém quando me sinto sozinho, como nesses últimos tempos, costumo questionar as minhas relações todas e se as trocas têm sido equilibradas. Toda relação é uma troca e quando há desiquilíbrio é sinal que uma das partes está a doar mais do que a outra e apenas uma destas partes tem ganhos com esta doação.
     A questão é que, até entendermos este desiquilíbrio nas relações, sabotamos partes importantes de nós mesmos, porque não encontramos o mesmo espaço para ser quem costumávamos ser com o outro. Sabotamos nossa energia e sabotando nossa energia nos desestimulamos e nos desestimulando não sentimos prazer ou as pequenas alegrias do dia a dia e não sentindo prazer e alegria nos tornamos passíveis a problemas emocionais maiores. A essa altura da vida compreendemos pelo menos, que tudo está interligado. Nesta fase, questionamos a atenção que merecíamos ter em proporção àquela que prestamos, e tentamos, veja bem, tentamos compreender melhor as coisas ao nos colocarmos como seres mais conscientes nas situações, mas esquecemos que nossos sentimentos estão conectados com nossas emoções e que ser mais consciente não muda a falta que sentimos dentro. Ao sabotarmos estas nossas partes importantes, nos sentimos cada vez mais inferiores: não nos sentimos tão atraentes física e psicologicamente, comparamos até a nossa forma de fazer sexo com a dos outros e sentimos que não somos tão bons quanto, e aceitamos que somos facilmente substituídos em nossas relações, ou amorosas, ou de amizades ou familiares, seja por outras pessoas, por outros compromissos, por outras prioridades. Como então nos conectar novamente com o nosso "eu maior"? Aliás no singular: como devo me reconectar com meu "eu maior" e não me sentir assim, tão inferior?
     Eu seguramente posso dizer que sou um Ser grato e abençoado na maior parte do tempo, aprendi a agradecer mais do que reclamar, mas obviamente carrego as minhas insatisfações debaixo do braço. Quando estamos passando por uma fase ruim, a gente costuma  visualizar a situação de outras pessoas e comparar com a nossa para aceitarmos que estamos em uma condição melhor (financeira, emocional, etc...) para que desta forma consigamos aceitar e compreender melhor a nossa situação. Mas acontece que nada é tão simples assim, não podemos comparar as dores, cada um sabe o que afeta mais. Por que a dor de perder um amor tem de ser menor do que a dor de perder alguém por um câncer? Por que esta diferença entre o emocional e o físico? Tudo depende do quanto estamos preparados para cada uma destas situações. Além do mais, do ponto de vista espiritual, se cada uma de nós têm suas provações para passar, sendo que elas irão contribuir para a chamada evolução, podemos então dizer que cada um está dentro de um caminho que tem de se estar.
    Os ensinamentos budistas tratam o sofrimento como algo inerente à jornada do ser. Compreender esta realidade ao invés de camuflar a dor me traz a possibilidade de usufruir melhor da parte da vida onde se é feliz. A gente sofre e precisa aceitar o fato para podermos transgredir: a gente sofre por coisas pequenas e por razões maiores, sofre de saudade, sofre porque termina um namoro, sofre porque um amigo não está tão presente quanto gostaríamos, sofre porque alguém morreu, sofre porque alguém nos magoou, sofre porque a vida descarrilhou dos trilhos, sofre. E sofre por sofrer porque fomos criados para negarmos qualquer tipo de sentimento ruim como se tivéssemos que nos punir por não estarmos felizes em alguns momentos da vida. Sendo que uma das maneiras mais eficazes para encontrarmos alivio e felicidade é abrir nossos sentimentos e emoções ao invés de  trancá-las dentro de nós.
     Temos que  entender que o sofrimento é inevitável, ainda que impermanente, inevitável. E que sabotar a si mesmo, esta etapa sim é melhor evitar...