quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Eu te convido a sentir a dor e a experimentar a força da vulnerabilidade ao emergir de sua desconstrução

   Desde muito cedo somos aconselhados a esconder as nossas emoções. Adultos que foram repreendidos quando crianças estendem estes mesmos conselhos aos seus filhos em uma corrente que nunca finda: devemos obrigatoriamente crescermos para nos tornarmos fortes e ponto final. Possivelmente, quase todos nós já presenciamos alguns pais pedindo aos seus filhos para "engolir o choro" ou até mesmo, de uma forma mais bem humorada, dizendo à estes após alguma batida no joelho que "não é necessário chorar pois quando casar sara!". O que o adulto não se dá conta, é que frases que parecem assim, tão despretensiosas, acabam gerando a informação errada nas crianças de que elas não podem demonstrar as suas fraquezas. Na pior das hipóteses, estas crianças tornam-se adultos ou frios ou fechados e por camuflar seus sentimentos por longo tempo, tendem a sofrer silenciosamente até que as suas dores se tornem explosões: estouram em somatizações, estouram em agressividade, estouram em depressão, estouram em câncer de estômago... Se permitir a sentir as dores é poder ter acesso a uma força interior que muitos desconhecem: a força proporcionada por nossa vulnerabilidade humana, que somente virá à tona após a nossa total desconstrução.

     Somos construídos em cima das mesmas bases, como se já houvesse um molde pronto. Em meu caminho de estudo ao autoconhecimento, comecei a desconstruir estas bases concretadas dentro de mim e a me posicionar tanto com a minha alegria quanto com o meu sofrimento. Não é necessário camuflar o que sinto. Entender as nossas dores como um processo natural e aceitar que precisamos passar por este período para que haja a cura, é diferente de nos lamentarmos ou sermos negativos. Muitas pessoas acreditam que estando em uma fase conturbada, o pensamento positivo deverá girar em torno de dizermos que "está tudo bem". Ao meu ver, verbalizar que "está tudo bem" quando não está tudo bem, é apenas uma maneira de evidenciarmos as nossas mentiras interiores. A gente aprende a nos esconder no banheiro quando estamos com os olhos vermelhos, a gente aprende a fingir um sorriso após a nossa derrota. A gente aprende a não sentir.

      Lembro nitidamente de que quando meu pai veio a falecer e eu teria de enfrentar o velório, tudo o que eu não precisava era das pessoas me abraçando em consolo me pedindo para ter forças - eu teria de inclusive, controlar a minha estupidez. Quando "perdemos" alguém, aquele ato de despedida é a nossa última experiência com aquela pessoa, e esta experiência é triste, não precisamos ser fortes, não precisamos mostrar a quem quer que seja que somos maduros emocional e espiritualmente. Hoje, quando uma pessoa próxima está passando por uma situação de despedida, eu lhe desejo fraqueza, eu lhe desejo que sinta todas as dores e que coloque para fora todo o choro necessário. Eu desejo que a pessoa sinta, simplesmente sinta e que consiga entender a sua vulnerabilidade diante daquele momento. É depois que pensamos como seguiremos a nossa jornada, é depois que faremos terapia como ajuda para preencher a lacuna, é depois que nos voltaremos a nossa espiritualidade interior para um maior entendimento daquela separação. Independente de sua religião, ou do Deus que acredita existir, lembre-se que não foi um Ser Divino que disse que precisamos enxugar as lágrimas e "tocar o barco" e voltar ao trabalho superados, apenas quatro dias depois da morte de alguém que amamos: quem inventou esta parte foi a sociedade, que independente de sua dor, precisa que você garanta o seu lucro. Não confunda: continuar vivendo em nada tem a ver com retornar ao molde. 

       Este texto não se trata de uma "ode ao sofrimento", ao contrário. Trata de minha visão sobre a liberdade de sentir sem camuflar qualquer emoção que provamos. Trata ainda, mais pessoalmente, da minha abertura a me permitir estar em comunhão com o sentimento que me aflige ou que me alegra e do meu entendimento que tanto a alegria quanto a tristeza, são passageiras. Não há porque esconder a nossa raiva, a nossa tristeza, insatisfação tão pouco a nossa euforia, animação e felicidade momentânea, há espaço para todos estes sentimentos dentro de nós e eles irão chegar conforme o decorrer das nossas venturas na vida, conforme o andamento de nossas relações, nas nossas perdas e ganhos de cada dia, não há como prever... Eu desejo que você não sinta medo de se desconstruir e reformar quantas vezes forem necessário, não engula o seu choro e nem o seu riso mais solto, seja aberto e esteja atento à todos os insights soprados aos seus ouvidos mentais. Não se distraia, não se perca de sua verdadeira essência: somos espíritos tendo uma experiência humana e não o contrário. Respire para reencontrar quem é! Seja grato por cada sentimento que reverbera em energia interior e tenha uma linda e profunda jornada... Somos arranjos temporários, somos todos espíritos em reconstrução. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O desprendimento do rancor como consciência espiritual e a minha ausência no ritual do perdão

    Eu descobri onde ficava a tal linha tênue que divide o amor do ódio: assustadoramente a encontrei dentro de mim. Esta linha aparece sempre da forma mais cruel, quando emocionalmente a gama de bons sentimentos que carregamos por uma pessoa é implodida e derrubada como se fosse um prédio antigo que não deve mais pertencer aquele lugar. É quando o amor vira pó, e em cima daquele local podem acontecer duas coisas: ser reconstruído um novo prédio concretado com ressentimentos, ou se tornar totalmente vazio. No meu caso, este prédio foi construído até metade, mas fora abandonado em meio a obra, e portanto está sendo evacuado agora. Eu tenho carregado um ressentimento dentro de mim por muito mais anos do que pensei que carregaria e escrever sobre este assunto de uma forma transparente e clara, terá um efeito libertador para mim.

     Eu escrevi alguns textos sobre esta situação, os quais sempre tornavam tudo ainda mais pesado do que já era. A minha raiva interior sempre dominava a minha escrita quando precisava colocar num papel as emoções as quais eu estava sentindo. Todos estes escritos eram guardados e relidos de tempos em tempos, e, absolutamente nenhum daqueles sentimentos se modificava. Este desafeto já ultrapassa uma década e retrata mais do que o término de uma amizade, retrata a transição do sentimento do amor para o sentimento do rancor. O amor une, o desafeto ata. O sentimento de rancor nos torna presos dentro de nossa própria memória e ele desgasta a nossa energia.  Volta e meia, estas janelas de memória se abrem em minha mente. Estas janelas, brincam de "abre e fecha" se aproveitando de uma de minhas fraquezas: a minha insistência em não esquecer situações que me causaram dor. É como se de tempos em tempos, elas precisassem abrir para ventilar o lugar, e deixar sair com o vento alguns pedaços de recordações. Talvez sejam pequenos exercícios de purificação inconsciente já que durante todos estes anos, esta mágoa foi sendo alimentada por diálogos imaginários que criavam imagens nítidas de novas desavenças, onde eu conseguia colocar tudo para fora aos gritos, que na verdade ficaram apenas trancados dentro de mim.

    Há pouco tempo atrás, exatamente no dia em que eu completaria o meu trigésimo aniversário - tão esperado por mim - acabei por deixar de festejar, desmarcando inclusive a comemoração que seria feita com amigos naquela noite e os deixando sem compreender o porquê. Recebi uma mensagem enviada por esta pessoa e um texto da pessoa com a qual ela mantinha uma relação, onde ambas conseguiram emocionalmente destruir com o meu dia. A pessoa com a qual ela se relacionava aliás, foi o "Juíz" da situação, o "olho julgador", aquela a qual desconhecia os diferentes lados de uma história que era inteiramente pessoal, que era apenas entre duas pessoas,  mas apontava a culpa à mim sem racionalizar e desejava em palavras escritas que a vida me daria o devido troco. Mais outro atrito, mais outra discussão, mais e mais sentimentos ruins invadindo o meu interior. Porém após algumas semanas, fui até o seu encontro para que tivéssemos uma boa conversa. Naquele momento, eu pensei que estava dando o passo mais correto espiritualmente falando, deixei o meu orgulho de lado para tentar encontrar o entendimento, mas foi apenas um erro. Em uma conversa amena e pacífica, como tinha de ser, os gritos continuaram presos pela força de vontade da maturidade emocional. Tempos depois daquela conversa que aparentemente nos colocava novamente na rota da reconciliação, eu me senti profundamente triste. Eu percebi que aquela história toda que havia sido quebrada, cheia de ofensas e mágoas, ainda me causava muita dor, eu observei que ao invés de estar fazendo algo em prol da nossa evolução espiritual, eu estava apenas encobrindo sentimentos que ainda estavam  mal resolvidos dentro de mim, e preferi então me afastar definitivamente.

    Estando eu a percorrer a minha jornada, com tantos altos e baixos, e a qual me faz acreditar cada vez mais em mim mesmo como um Ser que está a procura de entendimento espiritual neste plano, eu simplesmente não podia defender o meu próprio ato de procura e reconciliação se dentro de mim ele não havia funcionado. Após meu retorno para casa e, passado alguns meses de tentativas frustradas de reaproximação (de ambas as partes), cansado das lembranças dos julgamentos, jogos emocionais, do apontamento de erros que couberam apenas a mim, e da falta de respeito por minhas escolhas,  eu precisava dar um basta na situação. Simbolicamente então, comecei marcando uma sessão de tatuagem onde cobri um desenho que havia feito há alguns anos atrás e que representava a "força" de nossa relação. Lembro que, enquanto o tatuador realizava a sessão, eu fazia uma espécie de ritual de exorcismo mental para expulsar os sentimentos doloridos, para tentar guardar os sentimentos anteriores, daquele passado registrado em nosso histórico, onde havia somente amor. Depois da tatuagem, apaguei o seu número de telefone, pedi para alguns amigos em comum não me darem mais notícias e profundamente implorei ao Universo para não mais nos encontrarmos nem nesta, nem numa próxima existência. . Eu prefiro o "desamor" ao rancor. Não há culpa em simplesmente deixar de sentir amor mas há responsabilidade energética ao continuarmos alimentando o rancor. E eu ainda sinto rancor e sinto uma explosão de sentimentos ruins e um incômodo no estômago quando penso em seu nome e eu não quero mais negar isso à mim mesmo, caso contrário, não conseguirei me curar. Eu tenho a livre escolha de não querer por perto quem não me faz sentir bem, eu não preciso ficar preso ao que éramos no passado, eu quero seguir meu caminho em paz. Eu tive uma espécie de bloqueio durante estes anos por conta de alguns dos motivos de nossos atritos: não consigo mais confiar plenamente em alguém, não consigo mais pedir ajuda por medo das cobranças depois. Se há algo que possa esclarecer a nossa separação, tentando ver pelo lado mais maduro possível,  é que talvez hajam explicações espirituais e evolutivas as quais ainda não temos acesso, e serão elas que mostrarão os porquês de nosso desvio de caminho. Mudaram os pensamentos, as experiências, as escolhas, os interesses, as afinidades, a visão de vida... Carregar todo este apontamento de culpa sozinho fez com que eu deixasse de sentir amor...

     Estou agora me preparando para o ritual do perdão interno, o qual estive ausente tempo demais por conta da minha incapacidade de perdoar plenamente sem ser envenenado pelas más recordações. Eu conheço a minha parte da responsabilidade e eu sei que o perdão é um processo poderoso de cura. Compreendo também que agir com a transparência do sentir, sendo sincero comigo mesmo, faz com que eu não caia na ilusão do falso alívio do perdão dito apenas da boca para fora. Esta mágoa me causou uma devastação interior grande demais e fingir ter superado só me afastará do meu verdadeiro caminho. Coincidentemente, há uma canção que consegue canalizar todo este sentimento que precisa ser modificado, a qual a cada vez que ouço me faz imergir nesta história, uma canção chamada "This Grudge" de uma cantora chamada Alanis, a qual compartilhávamos do mesmo gosto no período de maior união, quando nos sentíamos como "irmãos de espirito" envoltos de afinidades. Em um dos seus versos há o seguinte desabafo: "Eu quero ser grande e me livrar deste rancor que vem ficando velho. Todo este tempo e  eu não soube como descansar este passado. Eu quero ser leve e resolvido, limpo como uma lousa e libertado, eu quero perdoar por nós dois". 


      Não haveria melhor maneira de dizer Adeus.

 







quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Sociedade e a sua Natureza Selvagem

 "Dois anos sobre a Terra. Sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, sem cigarros. LIBERDADE TOTAL. Um viajante radicalmente naturalista, que tem morada na estrada. Agora, depois de perambular dois anos, vem a aventura final e grandiosa, a apoteótica batalha para assassinar a falsa criatura interior e a conclusão vitoriosa da revolução espiritual. Sem ser envenenado pela civilização, ele escapa sobre a Terra para perder-se na natureza selvagem." (Alexander Supertramp, maio 1992).
     Esta foi a frase entalhada em uma madeira deixada por Christopher McCandless - o qual usou o codinome "Supertramp" - em um velho ônibus intitulado "Ônibus Mágico" que servira de abrigo, durante sua experiência no Alaska. Eis o enredo do filme que marcou a minha vida "Na natureza Selvagem [Into the wild]". Ele é inspirado na história real de Christopher, um jovem que após concluir seu curso de faculdade, abandona a vida de conforto para buscar a liberdade pelos caminhos do mundo. Doa todas as suas economias, cerca de vinte e quatro mil dólares para a caridade, coloca uma mochila nas costas e parte para o Alaska a fim de viver uma verdadeira aventura e um desafio supremo.

***

     Escrevi exatamente este parágrafo em um texto de outubro de 2009. Naquele momento, eu estava assistindo a este filme pela segunda vez - hoje, já passei da décima segunda - e apesar de meu sentimento por esta história nunca ter mudado, a minha visão sobre esta experiência se modificou um bocado. É apropriado dizer, que quando uma história é jogada em um filme, ela se torna romantizada, principalmente quando traz uma trilha sonora impecável assinada por Eddie Vedder (mestre), desta forma, a história aqui, trata de uma visão sobre a vida diante da sociedade e da sociedade diante dessa vida. É um filme reflexivo, inteligente, impressionante e profundamente belo, interagindo com paisagens incríveis. É uma fuga daquilo que se foi programado pra ser. É uma fuga daquilo que os outros esperam de nós em tempo integral. As pessoas já nascem com essa pressão: ser o melhor que puder; ir o mais longe que puder; voar o mais alto; ser o mais rápido; ser o mais forte que puder; ter a ambição pelo posto de primeiro lugar; ter destaque. Correr, correr, correr e se dar bem na vida! "O meu filho será Doutor!" Projeções inaceitáveis para uma criança que se quer abriu os olhos. Projeções daquilo que não foi realizado geralmente pelos pais,  atravessam gerações como se fossem parte de uma maldição capitalista. O personagem do filme, apesar de seus vinte e dois anos, aguentou até onde seu limite permitia, a vida que talvez, seus pais sonhavam à ele. Até que se cansou também das imposições da sociedade. Afinal o que é ser alguém na vida? Ele estava no caminho certo, aquele caminho moldado nas receitas, com se fosse ordem médica. Porém o melhor aluno, que teria uma carreira brilhante, pensou se realmente seu futuro promissor lhe traria alguma felicidade. E decidiu, ser feliz sozinho. Preferiu ficar longe de tudo aquilo que moldava a vida que ele não optou ter: lhe fora incumbido. Preferiu a distância. Quis provar que era possível viver fora dos parâmetros da sociedade, aventurar-se, ganhar sabedoria. E quando voltasse dessa viagem, publicaria um livro, baseado em seu diário de bordo e concluiria o seu próprio estudo sobre a vida. Deixou que as outras pessoas vivessem suas mentiras em algum lugar onde ele não se fizesse presente: a família perfeita, o trabalho perfeito, as crianças perfeitas, a vida como tinha de ser, perfeita! Cada cena, evoca um questionamento automático do cérebro. Não há como simplesmente assistir sem fazer parte.

     A sedução capitalista que envolveu grande parte dos meus textos e comentários pessoais nos últimos tempos, é o veneno que corre ao lado e é base do pensamento que leva o filme. E quando comparo aquela fuga com a história que carrego dentro de mim, encontro semelhanças gigantescas. O paradoxo entre a minha liberdade e a estrutura de vida que eu poderia ter estando inserido nesse sistema, me dilacera. Quantos de nós não sentiu vontade de pôr uma mochila nas costas e seguir com ou sem rumo em algum momento de nossas vidas? Esquecer desta vida fabricada desde criança, esquecer algumas regras, esquecer o olhar dos outros. Esquecer da dita "sociedade-controladora-manipuladora", dos julgamentos, do dinheiro, do dinheiro, do dinheiro. Mas será que não bastaria apenas mudar a maneira de como enxergamos as coisas? Encontrar o equilíbrio entre viver uma vida que seja proporcional aquilo que nos de uma condição de felicidade sem nos prendermos as armadilhas da sociedade? Existirá realmente uma mudança tão plena que fará com que nós, seres tão humanos, não sintamos insatisfação?  E é neste ponto que de alguma forma, eu comecei a entender este filme com um outro sentido. Principalmente após ter lido a história no livro e ter tido acesso a outras partes, como a visão da família.  Fugir ou enfrentar? Eu entendo, que é sempre mais poético assistir a história dos outros. Eu não sairia no agora com uma mochila nas costas. Até porque a filosofia da liberdade é emocionalmente encorajadora mas racionalmente não é sustentável por um longo tempo. Eu sentiria falta do café quente, da coberta limpa, do chuveiro... seria hipocrisia falar o contrário. Mas na primeira vez em que assisti, eu pensei em várias possibilidades. Vejo apreciadores do filme, falando sobre esta forma de viver a vida isoladamente, em acordo apenas com a Natureza, como se fosse um modelo a ser seguido, e me questiono: será mesmo? Particularmente, sou uma pessoa que tem necessidade de solitude para recarregar a energia de meu espírito tanto quanto tenho de alimento para recarregar a energia de meu corpo, utilizo em minha vida algo que intitulei de "Período de Isolamento Interno", que são momentos solitários importantes demais para o meu retorno a centralidade, eles podem durar dois dias, uma semana, um mês, mas fazem parte de um período, eu não acredito que eu conseguiria viver extremamente isolado, tão pouco acredito que o fato de viver em uma barraca entre as montanhas me traria a tal felicidade. Seria uma receita pronta, tanto quanto as tantas que a sociedade nos impõe e que tanto somos arredios. O filme também me indaga a questionamentos que não estão ali em destaque, como pro exemplo observar uma história, sem ter de seguir os mesmos passos desta, e sugar desta história, aquilo que poderá modificar a minha própria. Estar em uma casa simples, em uma mansão, em uma barraca, em uma oca, onde quer que seja, não trará o alivio tão desejado por nós, como se isto dependesse apenas da maneira como estamos acomodados no mundo: a complexidade mora em nós. Habita emocionalmente, psicologicamente e espiritualmente... sempre haverá um árduo trabalho interno para nos curarmos e encontrarmos um atalho para a felicidade passageira.

     A história de "Na Natureza Selvagem" me serve como uma válvula de escape. Eu consigo me ver por diversas vezes, dentro do filme. Eu me sinto cúmplice. Eu me sinto ali, como em minhas tantas fugas internas, subindo a montanha, atravessando o rio, reaprendendo... A diferença maior, é que agora, a cada vez que assisto esta história novamente, o que percebo é uma luta interna do personagem contra os seus demônios, não o vejo como um herói nem como um vilão, não o julgo pelo extremismo de sua fuga, não concordo com parte da população daquele local que o considera praticamente um suicida por sua falta de preparação ao mergulhar nesta aventura, o vejo como um ser humano que foi atrás de sua própria estrada, tenha sido esta certa ou errada. Seus vinte e poucos anos foram pontuados com pitadas de sabedoria e pitadas de imaturidade como aconteceu com quase todos nós que já passamos pelos vinte e tantos anos, esta casa que abriga o nosso EGO maior, onde "conhecemos" a vida sem termos vivido e não permitimos intromissões. Eu apenas, se pudesse voltar no tempo para um encontro com o Chris antes de sua partida,  teria sim o encorajado a ir. Eu teria dito para seguir em sua caminhada em busca do que tanto procurava, mas sem que parecesse uma fuga, eu teria o encorajado a falar, teria o encorajado a não deixar trancado dentro de si as suas emoções, angústias, sua raiva, sua desaprovação, eu teria o encorajado a ter um diálogo com os seus pais e esclarecido sua tristeza e revolta interior, eu teria o encorajado a sentir a leveza que a clareza nos proporciona, antes de sua partida... Teria o abraçado e o deixado ir.  O que estaria o esperando em seu caminho, seria algo o qual apenas ele poderia modificar...

    A sociedade do "ter de, adquirir" sempre será o meu calo no pé. Esta sociedade consumista, que nos coloca preço e nos tira valores, que cria desejos de plástico e em troca entrega o planeta de mãos beijada, que mata por dinheiro. Esta sociedade - leia-se pessoas - que enxergam outras pessoas como se elas fossem números, pela quantidade de bens materiais, pelo patrimônio, pelo carro que usam, marcas que vestem, pelo tipo de comida que consomem e idolatram as aparências. A sociedade que exige mais um diploma do que conhecimento. A sociedade que estimula a competição entre os indivíduos, melhor/pior, primeiro lugar/último lugar, e que controla o lucro gerado pela batalha de EGOS. Sem contar a parte mais triste, há uma sociedade,  pessoas, indivíduos, cada qual com a sua parcela de contribuição para o caos capitalista, incluindo eu, você, e todos aqueles que estão inseridos neste sistema falho sem conseguir sair. "Supertramp" teria hoje motivos ainda maiores para a sua fuga, ou talvez, soubesse ele que a felicidade é somente verdadeira ao ser compartilhada, teria motivos ainda maiores para unir o maior número de pessoas possíveis para enfrentar esta sociedade. De qualquer forma, eu amo o seu espírito e agradeço a inspiração, esteja ele onde estiver, esteja em luz!






sexta-feira, 14 de outubro de 2016

(Des) construção do EGO

      A minha entrada na casa dos trinta anos, trouxe mudanças poderosas em minha forma de enxergar o significado da vida. Foi além daquela parte onde gradativamente vamos amadurecendo, pois não se tratava apenas de maturidade. Quando estava prestes a completar os já esperados Trinta, escrevi um texto onde mencionava que passei  a maior parte dos meus vinte anos não tendo vinte anos. Eu olhava para o rosto das pessoas com vinte e poucos anos e não me encontrava nelas: elas eram tão jovens e eu já tinha marcas fundas de expressão em minha testa. Eu era tão proativo e carregava tanta responsabilidade em excesso sobre os meus ombros que a minha maturidade estava a frente de meu próprio tempo. Porém, era no EGO que eu depositava todos os meus pecados.

    Aos vinte e poucos anos, eu não tinha a plena consciência do que o meu EGO representava e a busca pelo autoconhecimento desde aquela época facilitou a descoberta do caminho que me levou até a clareza. Aos vinte e poucos anos acreditamos ser os donos de todas as verdades, sermos contrariados é quase um insulto, somos extremistas, dispensamos qualquer pessoa que não esteja de acordo com o nosso pensamento, estamos sempre certos, dizemos vários "nãos" mas esperamos "sim" em recíproca, não cedemos de jeito nenhum, a lei da convivência somos nós quem escrevemos, saboreamos o pedaço inteiro das "razões", somos "professores", sabemos tudo, explodimos por pouco, não admitimos nenhuma mudança, somos massageados com qualquer elogio, somos "é assim e pronto!", sem chance de resposta, não validamos a experiência do outro que poderia ser um grande mentor, nos importamos apenas com o nosso EGO, nada mais, e não percebemos. Na nossa estupidez de querer mostrar de alguma forma, que o que importa é o que pensamos, extrapolamos na petulância de considerar que as pessoas são obrigadas a nos aceitar tais como somos e nesta incapacidade de assimilação do que é ilusório e do que deveríamos pelo menos como hipótese considerar, como por exemplo, controlar internamente o nosso EGO, preferimos deixá-lo florescer, florescer e florescer, brotando mais do que podemos podar. E assim, vamos perdendo... perdendo oportunidades de evoluir, de aprender com o outro, de trocar conhecimento. Perdemos a capacidade de ouvir, de observar, perdemos a chance de nos redimir, de admitirmos erros e na parte mais cruel, perdemos as pessoas mais próximas a nós. Passado esta fase - cuidado: ela pode nunca passar independente da idade - entendemos que as pessoas não, não são obrigadas a nos aceitar tal qual nós somos, e que a liberdade de mantermos o nosso padrão de personalidade e EGO acima de todas as coisas, nos faz ter de aceitar as consequências deste posicionamento e entender que a vida não funciona unicamente sob o nosso ponto de vista e que por conta disso, as pessoas estarão no direito de se afastar. E elas irão... 

     Cada um de nós está em seu processo individual de evolução e desta forma, não há um tempo certo para acordar ou parar de se distrair, embora espiritualmente falando, o mais cedo isto aconteça, obviamente terá resultado mais satisfatório. Tenho visto as pessoas próximas a mim passando por processos pelos quais já passei há dez anos atrás e então sinto que estamos em etapas muito diferentes de direcionamento na vida. E quando há tal disparidade de pensamento e ações, as afinidades vão diminuindo. Ao observar as situações cotidianas, sinto que concedemos valores e importâncias diferentes demais para o significado desta jornada e assim naturalmente deixamos de fazer parte de um mesmo grupo. Novamente então, cada um de nós se encaixa em outro grupo, etapa a etapa, não há certo ou errado, há tempos e vivências distintas.

    Venho destruindo o meu EGO aos poucos, saindo das armadilhas da mente, da satisfação ilusória de ser quem eu sou. Tenho desconstruído valores ilusórios, competitividades ilusórias, ganhos ilusórios, o desejo ilusório de ser "o escolhido", sentimentos ilusórios, esperas ilusórias... E confesso, não tenho tido a devida paciência com quem ainda está apegado ao seu EGO sem deixar ao menos uma pequena fresta para a luz entrar. O espaço onde o EGO se encontra é escuro, a luz ali também se chama ilusão...

      Deixando a mente deslizar pela correnteza da clareza.

sábado, 24 de setembro de 2016

Para onde o vento leva a minha oração?

     Eu posso dizer que há aproximadamente quinze anos atrás fui tocado por minha espiritualidade, ainda sem saber como conduzi-la dentro de mim. Primeiro houve o processo necessário da descrença, quando entendi a religião a qual fui batizado como um caminho que não me levava à minha verdadeira evolução. A visão do catolicismo com todos os seus dogmas, seus temores e suas penitências fizeram com que ao me afastar, eu entendesse o único poder o qual esta religião está envolvida: o poder político. Fui então, permeando outros caminhos. Eu posso ainda dizer inicialmente, que destes quinze anos os quais fui percebendo a minha espiritualidade, foram nos últimos nove anos que realmente adentrei para o meu mundo interior de forma mais completa e numa jornada repleta de buscas.

      Me interessei por algumas filosofias/religiões/ciências distintas umas das outras e neste processo, consegui filtrar de cada uma delas aquilo que me motivava a continuar a estrada, afinal não existem verdades espirituais absolutas, existem? Hoje, o pensamento mais concreto que tenho sobre a nossa inclinação a acreditar em algo que faça a nossa existência fazer sentido, é que estamos sempre a procura daquilo que amenize à nossa estadia por aqui, porque a nossa estadia por aqui é uma tanto difícil seja para quem acredita que haverá outras estadias, seja para aqueles que não acreditam em nenhuma possibilidade de outra vida além daqui. Como humanos, estamos diariamente em busca de alívios emocionais que nos levem à sanidade e há diferentes tipos de sanidade a serem perseguidas e que são absolutamente necessárias para continuarmos a caminhada: sanidade mental, sanidade espiritual, sanidade do corpo físico... Equilíbrio se torna portanto, a palavra mais poderosa em significado neste plano. É impossível separar a minha existência da espiritualidade. Ela é inerente a quem eu sou. Passei algum tempo inclusive, em uma certa turbulência interna por ter um pé neste plano e um no outro e desta forma tudo ficava mais confuso. Não havia uma entrega sem a clareza, até que a clareza chegou. Nesta miscelânea de religiosidades, culturas e filosofias tão diferentes em crenças, idéias e linhas de pensamento, qual é a verdade afinal? Se praticamente todos nós carregamos uma verdade dentro de si em que acredita e segue, como julgar a nossa verdade maior do que a do outro? Qual é a razão para discutirmos qual verdade prevalece se cada um de nós está em um tempo de evolução diferente?

     Em síntese a evolução espiritual é o que me permite acreditar na continuidade de nossa alma através do tempo. Alguns chamam de reencarnação, a volta do espirito a carne, ao corpo. Mas "acreditar" é uma palavra que prefiro trocar por "considerar", quando estou desconfiado de algo, estou considerando aquilo como possível mesmo sem uma comprovação, e mais uma vez o processo de descrença pode ajudar a clarear as coisas.  Considero que existam outras existências, e que estes antigos caminhos espirituais me trouxeram até este corpo que estou hoje e me levarão para os próximos. Reverencio desta forma os meus ancestrais.  Por considerar outras existências é que entendo que cada um de nós está em uma etapa diferente justamente por que estamos cumprindo o nosso caminho individual. Considero ainda que, por termos diferentes tempos de evolução - alguns adiantados outros atrasados - possam haver diferentes camadas espirituais para onde vamos após deixarmos o corpo físico e por isto acontece esta disparidade tão grande de pensamentos sobre existência. E se houver uma infinidade de camadas? E se houver uma infinidade de verdades ao invés de apenas uma?  Falei acima sobre caminho individual, eu entendo a nossa jornada como solitária, um linda, profunda e solitária jornada, onde por mais que tenhamos todas as pessoas para as trocas de experiências ou evolução em grupo, o aprendizado é individual, a absorção e aplicação é individual. Compreendo ainda, que as pessoas com as quais tenho uma maior conexão fazem parte de um grupo que pertence a uma mesma camada espiritual, por isso as afinidades energéticas são tão grandes e por isso acontecem os reencontros de alma por aqui.

    Em minhas práticas espirituais, sou adepto a pequenos rituais, como uma evocação de ENERGIA para aquele momento. Tenho em minha casa um local o qual chamo de '"Canto Zen", é onde eu costumo sentar e tentar me reintegrar com o que trago dentro de mim. Em meu canto o orientalismo se mistura com o indígena que se envolve com ritos latinos e abraçam plantas verdes, purificando as minhas mentalizações. As imagens e artefatos são apenas a transfiguração de uma intenção que é tornar este espaço filtros de energias positivas. Obviamente elas não carregam vida, mas se tornam instrumentos, simbologias que fortificam estas nossas intenções. Considero o pensamento em reflexão uma das armas mais poderosas para a evolução da mente, por conta disso, após tentativas frustradas de esvaziar meus pensamentos percebi que este campo energético não era de fácil acesso para mim, entendi assim uma parte importante de nossas práticas: aquilo que funciona e aquilo que não funciona é extremamente individual. Preciso do silêncio por diversas vezes porque no silêncio a nossa mente fala apenas o necessário para prestarmos atenção naquele devido momento, por outro lado, o barulho me é necessário, como músicas que me provocam o estômago com lembranças e sentimentos os quais preciso exorcizar: é um veículo intenso para esta catarse.  Percebo ainda a Natureza como o meu maior Templo, onde reconecto cada célula e onde as minhas práticas se revelam ainda mais puras. Energia sentida no vento, na água da cachoeira, na terra... E minha solitude ainda é o alimento necessário de meu espírito inquieto. Estar só, para dentro, por inteiro, me completa. Minhas orações, minhas rezas, não são orações e nem rezas, são palavras carregadas de energia com a melhor intenção, mentalizadas junto com a minha força interior. A energia que sai e se movimenta,  retorna à mim: na minha espiritualidade, repousa ela.

     Por fim, tudo é ENERGIA, acredito em energia como um poderoso aliado de nossa matéria e estou sempre tentando deixar a minha energia em harmonia com meu corpo, tento potencializá-la de uma forma a qual eu possa doar ou retribuir às pessoas ao meu redor. Sinto que estou rodeado de amparos (seres de luz, anjos, seja lá qual seja a versão ou nome que se dá à eles) e é com eles que tenho um diálogo mais direto, eles fazem esta ponte do real terreno com as tais camadas que mencionei acima, mundo paralelo. Vejo Deus como uma força divina inalcançável, enxergo Deus no Universo - o próprio Universo - não entendo esta palavra como um Ser palpável. Respeito todas as histórias sobre a Criação mas sinto que não estou aqui neste plano para desvendar este fato. Tudo já foi criado, tudo está pronto para que meu espírito avance, não se distraia, persiga a razão/propósito de estar aqui outra vez, se atente as intuições e tente deixar uma jornada inspiradora pelo caminho. A possibilidade da morte torna a vida mais encantada, temos um tempo calculado para o fim e este tempo é logo ali. A morte não me assusta, o que me assusta é a morte sem vida cumprida. Se eu considero a continuidade de meu espírito após deixar este corpo, se eu considero chegar em outra camada recebido por quem deixei lá ou seguiu antes de mim, se eu considero que é lá que o quebra-cabeça da jornada vai sendo montado com as peças que levamos daqui, e que haverá um prazo até um possível retorno, eu só não posso desperdiçar o curto tempo que tenho aqui. Eu preciso analisar, preciso questionar todas as coisas que estou fazendo e sentindo, as relações, os trabalhos, os planos, buscar que informações geram na minha jornada e então me perguntar diversas vezes: é para isso que estou aqui?  Muitas das respostas "não" já foram indicadas com luzes brilhantes. Estou no processo de desapego de todas as distrações que deixam a minha visão embaçada, principalmente no quanto a sociedade dispersa o nosso entendimento espiritual sobre a vida com convites que apenas nos levam para uma sensação vazia de felicidade material passageira.

     Nesta minha constante busca espiritual, descobri que é a alegria que nos guia neste plano. A alegria é a nossa armadura interior e é irmã da paz. Quase por isso deixei todas as minhas orações de lado e pus apenas um sorriso na alma. Mesmo com tantas dúvidas internas, mesmo com tantos questionamentos e aceitando a condição de que por muitas vezes vou me perder no caminho e que este perder-se é na verdade encontro, é reconexão, eu sinto profundamente dentro de mim que estou indo na direção correta e sigo esta estrada fluindo em energia, tendo a sensibilidade de perceber os meus parceiros evolutivos, interagindo com outros Seres de forma a expandir a mente em diálogos de troca, sem tempo para aquilo que é raso e sem profundidade de alma, precisando de muitos momentos os quais intitulei "Período de Isolamento Interno" para sacudir a poeira que acumula dentro e sobre tudo tentando arduamente melhorar o meu comportamento humano e a minha elevação espiritual. Dentro de mim, mora uma profunda gratidão por minha jornada. E eu reverencio o tempo que ainda me permite estar aqui. Nada tem sido em vão...

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Funções e relações pessoais

    Com o entendimento de nossa existência neste plano, vamos nos dando conta dos papéis que representamos. Representação esta, no sentido literal da palavra. O que representamos para as pessoas que convivemos, o que elas representam para nós? Depois de alguns acontecimentos nestes últimos dias, me indago a refletir sobre este assunto.

    O que acontece é que cumprimos diferentes funções em nossas relações pessoais e precisamos ter a compreensão de que estamos no caminho de nossa evolução e que nossos acertos e erros estão ligados àquilo que conseguimos ou não desempenhar: podemos ser um grande amigo para os amigos mas falhar como namorados com nossos amores, podemos ser tios inspiradores e errarmos sendo pais. Nossa mãe pode ser a mãe mais amorosa que poderíamos ter mas não ser uma boa esposa, nossos irmãos podem ser bons homens e serem maridos ausentes, o seu amigo pode ser aquele o qual pode sempre contar e ser um funcionário a qual nenhuma empresa contrataria. E o que mais compreendo nessa análise toda, é que, ao entendermos que não vamos agradar a todas as pessoas as quais nos relacionamos, ficamos ciente de que estamos em constante processo de melhoria como Ser e conseguimos tirar das costas aquela mochila carregada de pedras. Eu nem sempre serei aquele o qual você precisa ter por perto e você poderá escolher entre manter esta relação ou afastar-se dela. Dependerá de vários fatores, principalmente quantos "sim" ou quantos "não" haverá entre nós e se há equilíbrio e dedicação mútua. 

     Exerceremos a nossa função e teremos de suportar todas as consequências pelas vezes em que não seremos completos para o outro, e vice e versa. As outras pessoas tem o direito de escolher se somos interessantes o suficiente para continuarmos em seu grupo de relacionamentos. Nós somos livres para decidir quais delas também continuam em nossa caminhada. A estrada fica mais bonita quando a clareza e leveza andam de mãos dadas, nunca esquecendo que a rota é a vida.




quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Ativismo inconsciente e lúcido

     Anteriormente eu falava sobre os movimentos emocionais, psicológicos, espirituais que retornaram com força total em minha jornada, fazendo com que as teorias fossem deixadas de lado para que as ações tomassem as rédeas. Benditos sejam os movimentos! Este entendimento nos permite avançar. Durante os últimos dias passei por uma linda experiência coletiva, o que acendeu em mim uma chama ativista. Todos temos a potencialidade ao ativismo, utilizando esta palavra não apenas dentro do contexto dela, mas fluindo um pouco para outros significados, ativismo em prol de algo ou ativismo motivador: quando leio um livro que me inspira, quando ouço canções que me modificam, eu sinto que estes autores são ativistas, ainda que não saibam. Eles chegam em lugares dentro de nós que fazem acender uma luz, uma dúvida, uma força...

       Não se pode querer que as pessoas estejam abertas à sua luta, precisamos compreender. A sua luta é dada à você para que você consiga levar adiante com um grupo de pessoas que acredite na mesma causa. As outras pessoas estão formando outros grupos por causas em que acreditam. Há pessoas na batalha para ajudar crianças deficientes, outras ajudando os animais de rua, grupos atendendo mulheres violentadas, outras pessoas ainda fazendo verdadeiras doações de tempo viajando para outras localidades para voluntariados. Geralmente, temos o senso de ajudar à causas que são próximas ao que vivenciamos. Quando meu pai estava em tratamento contra um câncer, por exemplo, eu vivia cada uma das histórias daquelas pessoas neste complicado tratamento e sentia ânsia de ajudar. Toda luta e causa tem a sua importância, nem maior nem menor. Elas são necessárias para cada experiência individual, até se tornar coletiva. E este é o encanto.

       Eu estou engajado no movimento em prol de um bem maior que é pensar na NATUREZA como algo que nos foi emprestado e que precisamos deixar por aqui de uma forma que as outras gerações possam também usufruir. Eu estou enxergando de forma clara alguns fios condutores que me trouxeram até este momento da vida: o questionamento em relação à minha profissão que é tentar tornar o interior da casa das pessoas apto para ser melhor utilizado, a minha conexão com a natureza sempre a utilizando como o maior Templo a que tenho acesso... Mas, o que realmente eu posso fazer a mais em relação à isso para que me tire deste campo onde me parece tudo tão raso? O que posso fazer para modificar a parte em que considero vazia em minha profissão? Como posso agregar um significado maior á tudo isso? 

     Há um movimento sagrado chegando em meu caminho e eu quero ser digno de receber e levar adiante esta luta. Meus propósitos ganharam um sentido maior, e em minha jornada atual a minha meta é descartar tudo aquilo que não preenche os espaços: preenchendo tudo o que é vazio. Clareza, mais outra vez, muito obrigado! Eu estou saindo das lutas internas para o coletivo das lutas que podem mudar situações. E você, pelo o que está lutando?

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Movimento

     Se eu tivesse que escolher a palavra que considero mais bonita hoje, seria "jornada", no sentido amplo de viagem, caminhada, estrada, espiritualidade. Ela me sugere ainda "movimento" palavra  que adentrou em meus dias com muita força. Tudo inicia por um movimento, principalmente a saída da inércia. Se as pessoas me perguntassem como estou hoje, diria "em movimento", porque dizer estar bem ou não faz parte apenas de nossas respostas prontas, sem conteúdo, sendo uma forma bastante rasa de encerrar o assunto por ali. Quando estamos em movimento estamos avançando, fazendo nossas moléculas mexerem-se, nosso sangue circular mais potente, aumentando a nossa capacidade mental. E sobretudo, estamos deixando de apenas nutrir as nossas teorias, passamos a desenvolvê-las, carregando-as de força. Traçamos caminhos e desejamos ventura.

    Tenho concordado com uma frase pronta que diz: "Relaxe: nada está sob controle" que vejo  seguidamente vagando pelas redes sociais. Se acreditarmos por exemplo, que Deus exista realmente - pensando na hipótese de isto ser uma verdade absoluta que independa de qualquer religião ou filosofia - eu diria que Ele mesmo já perdeu o controle sobre as coisas há uma bocado de tempo. Principalmente sobre a humanidade. E ainda que, tudo "estivesse nas mãos de Deus", seria uma covardia tremenda de nossa parte não assumir as nossas responsabilidades diante das escolhas e da vida, não seria? Porém, se é difícil manter as coisas sob controle, relaxar é uma tarefa ainda mais complicada. Nesta jornada nos resta então, tentar atingir o equilíbrio, que é primo-irmão do controle e sendo de uma mesma família, também não se deixa seduzir tão fácil.

     Inicio agora, um dos meus maiores movimentos internos justamente pontuados na falta de controle e equilíbrio que tenho no tipo de vida que levo e, no quanto esta forma como estou vivendo não tem me ajudado energeticamente, ao contrário. Estou precisando sair desta rede a qual constantemente me deixa sufocado, como se a angústia flutuasse dentro de meu estômago não podendo ser expelida para lugar nenhum. Eu preciso cuspir isto para fora antes que meu corpo adoeça. A esta primeira etapa, chamo "Movimento"(emocional, psicológico e espiritual). É a partir de nossas ações que podemos modificar aquilo que queremos, caso contrário, perderemos a vida sem dar um sentido pleno à ela, reclamando sem sair do lugar, a espera de um milagre que não acontecerá. Pelo meu caminho, eu assumo a responsabilidade e a direção.

    Cheguei em um momento após os meus trinta anos, em que reconheço em mim um trauma e a necessidade de curá-lo. Este trauma é gerado pela minha profissão. Estar no mundo dos negócios tendo total aversão a sociedade material do "ter de, adquirir", e ainda assim, tendo certa habilidade em me adaptar a esta por conta de minha necessidade, fez com que eu chegasse no limite do que eu poderia ainda carregar e suportar. Durante os últimos anos, encarei empregos onde eu não me sentia satisfeito, fui experimentando lugares e me sentindo cada vez mais insatisfeito,  acumulando entulhos emocionais dentro de mim, devido a todos os outros sentimentos que aglomeraram-se junto à minha infelicidade: a certeza de não estar em meu caminho, a rotina esmagadora dos negócios, a ansiedade da parte dos chefes em momentos em que os negócios falham, a pressão interna e externa, o desejo emocional de abandonar e deixar estes lugares para trás, o pensamento racional de não poder desistir... Trabalhando em uma função em que outras pessoas conseguem exercer facilmente, no meu caso, há um bloqueio interno que me impede de sentir o prazer da existência. Me sinto espiritualmente sem razão, sem um propósito que faça sentido.

    Carreira, sucesso, estabilidade financeira, e trabalho, muito, muito trabalho, para deixar todo o tempo que gastamos neste espaço, aqui. Ganhamos ou perdemos? Não quero nada, em minha absorção de entendimento do que estou tentando fazer neste plano, sei apenas que tenho uma data limite chamada morte, e quando esta data chegar, devolvo tudo o que peguei emprestado, nada posso levar. Qual sentido teria eu para continuar a levar uma vida a qual não me faz feliz? 

    Vou em busca de minhas próprias respostas.

    

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A retirada de energia

     Neste momento de infelicidade lúcida, tão diferente das outras vezes, tenho enfrentado este processo de uma forma bastante direta e realista. Quando falo sobre "infelicidade lúcida", me refiro ao fato de que, neste exato momento da minha jornada, esta infelicidade não é causada por um período depressivo ou de acontecimentos específicos que pudessem ocasionar este transtorno emocional como por exemplo a morte de alguém próximo ou algum problema grave de saúde. Estou lúcido, fazendo tudo aquilo que a rotina diária me indaga a fazer, apenas amontoando um pedaço inteiro de insatisfação dentro do estômago. Eu, ao contrário do que deveria me permitir expressar, estou conseguindo vestir-me de minha total hipocrisia durante o dia inteiro, para disfarçar esta lacuna emocional ocasionada pelo que acredito, seja um desvio de rota em minha programação existencial. Hipocrisia esta, que principalmente acompanha minhas tarefas no trabalho no persuasivo esforço de interagir com as pessoas de uma forma leve, espontânea e com um sorriso no rosto.

     Dentro deste momento vulnerável onde sinto que uma depressão pode estar rodeando por perto, eu encontrei mais uma vez nas minhas poucas horas solitárias, uma maneira de persuadir. Esta hipocrisia, a qual atravessa a minha imagem durante o dia todo, se desfaz quando posso deixar que a minha nudez emocional tome conta do espaço. Ultimamente, quando chego em casa a noite, me assento na sacada e fico uma ou duas horas sozinho antes de ir dormir. Me desligo dos eletrônicos, TV, celular e até de minhas companheiras canções favoritas e entro em um profundo silêncio interior. Não se trata de meditação, a qual eu não conseguiria ter resultados satisfatórios devido a inquietude de meus pensamentos. Se trata de calar a voz e apenas ouvir estes pensamentos dialogando entre si, ainda que com o barulho dos carros que trafegam na BR em frente ao prédio. Ou eu começo a provocar este silêncio, ou meu estado de estresse mental fará com que eu saia de meu habitual controle. Esta é a melhor forma que encontrei de transformar esta massa densa, em ar leve para respirar.

     Meus períodos de isolamento interno sempre me ajudaram a continuar nesta estrada. Talvez também, porque tenha havido uma ruptura de envolvimento nas minhas relações, o que de certa forma me ausentou e faz com que eu me permita permanecer ausente. Talvez, eu nunca tenha usado o sentido desta palavra em minha vida nos últimos anos, porque mesmo em momentos emocionalmente mais vulneráveis, eu continuava a estar presente de alguma forma, próximo das outras pessoas. Há uma dificuldade na continuidade de energia investida em algumas relações, quando esta energia de certa forma, é quebrada por alguma das partes. Isto me faz repensar as histórias que compartilhei com estas pessoas. Um atrito, palavras ditas de forma errada, sentimentos esmagados pela imaturidade emocional, apontamento de culpa... Recordações que me isolam.

     Acabei por retirar a minha energia de algumas situações. Chamo de "retirada de energia" este momento em que percebo a incompatibilidade das coisas, e ausento meus pensamentos destas. Não há uma receita para isso e acredito que se manifeste pelo poder do inconsciente. Por analisar sentimentos e perceber que o estado em que eles me deixavam, era de uma constante intranquilidade, ou que a energia reverberava de forma negativa em meu Ser ou até mesmo eu sentia um incômodo dolorido em meu estômago, eu  passei a abstrair os pensamentos que me levavam para este estado, e isto me fez sentir mais confortável. Em algumas relações ainda, acabei por depositar expectativas demasiadas mas a troca não foi tão recíproca quanto eu imaginava. Eu preferi retirar a minha energia de lugares onde ela estava repousando de forma errada. Preferi recuar.

     Retorno ao silêncio.



 







terça-feira, 26 de abril de 2016

Processo de cura

Estou transitando por todos os meus lados, internos, externos, avessos, por cada uma de minhas partes. Minha alma por vezes não cabe em mim, tem explorado lugares maiores do que meu próprio corpo. Minhas partes antônimas colidem-se, sofrem rupturas, e remendam-se em curto tempo. Minhas dualidades dialogam entre si por meses a fio, flutuam cantando sobre minhas decisões e sobre meus devaneios. 

    Como em todas as outras vezes - sem nenhuma novidade - estou novamente no meio de um processo de cura: e todo, absolutamente todo o processo de cura é lento. Neste emaranhado de sentimentos múltiplos, estou no topo de meu limite de sanidade mental. Me sinto internamente doente. Estou no processo de cura de minha INFELICIDADE. Estou no exato momento de minha vida em que todas as coisas que estou fazendo não estão dentro de meus desejos. Meus desejos aliás, parecem nunca ter tido qualquer validade.

     Nesta ambivalência atordoada de emoções, vou deslizando incompleto e vou carregando toda a responsabilidade de meus passos em falso. Minha ansiedade tem sido o fruto de minha própria liberdade: no momento em que me intitulo livre e todas as minhas escolhas cabem somente a mim, tal fato aflige meu Ser. Meus medos e minha valentia iniciam uma luta forte e longa.

     Minha função colaborativa social chamada "trabalho" tem sido traumática durante estes anos e tenho estado a beira da exaustão mental. Já não consigo mais esconder minha tamanha hipocrisia. Se Deus existe - respeitando quem não acredita em sua existência - este é o grande plano de Deus para nossas vidas? Ter apenas um dia e meio na semana para descansar? Ter que acender uma vela para agradecer o feito? Ter que ignorar o tamanho do mundo, o tamanho das coisas, o tamanho de capacidade de nosso espirito evoluir nos infiltrando apenas dentro de um único portal, naquela sala ou espaço ou tempo onde gastamos a nossa vida? Enaltecer o sofrimento de aguentar firme? Ser batalhador, não desistir nunca? Esta é a essência do que é viver? Está falando sério?

    Tenho acordado todos os dias, todos,  e silenciosamente pensado: tudo é passageiro. Meus risos são temporários, meu choro é temporário, este sentimento que jogo nestas palavras é temporário, meu orgasmo dura segundos! Esta perspectiva me ajuda um pouco a acalentar o coração. Somos - como humanos - acostumados a viver em cima de projeções, projetamos nossas frustrações presentes lá para o futuro e fazemos sinal de fumaça para a nossa esperança usando frases como "...quando meu salário aumentar...", "...quando eu mudar de cidade...", "..quando eu tiver a casa nova...", "...quando eu terminar de pagar o carro..." estarei melhor, estarei feliz, estarei completo... A gente na verdade adia nosso poder de decisão, a gente não escolhe a felicidade do momento porque ficamos paralisados com a possibilidade do fracasso, como se tivéssemos de dar explicações, a gente joga para depois, a gente deixa para a outra vida. E então ganhamos uma gastrite e seguimos a vida inteira a procura de um alívio, esquecendo que alívios também são temporários e não lembrando que a maioria daquilo que associamos com "estar bem" são coisas externas.


Neste caminho árduo de meu próprio processo de cura, nesta não completude em que me encontro, em minha total aceitação de toda a culpa que me cabe sem transferir qualquer parte para outros, seja família, seja namorada, sejam amigos, sejam chefes, sejam todas as outras pessoas, tudo o que está acontecendo neste exato momento de minha vida é deveras responsabilidade minha, dentro da aceitação deste fato, vou aparando as arestas, vou tentando a reconexão. A estrada que pego, cada vez mais me define como um viajante espiritual, querendo chegar interiormente no lugar onde simbolicamente vim a este mundo para estar e onde vim para estar, não é mais aqui (me tenho maior). Todo o processo de cura começa ao aceitarmos de fato o que nos afeta. Meu caminho para a cura, inicia ao admitir que meu interior está infeliz. Todo processo de cura é lento, mas funciona. Minha eterna gratidão à resiliência.




terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Eu poderia ensinar

        Eu poderia ensinar algumas coisas nesta etapa de minha jornada.

     Poderia ensinar o método de doer muito, sentir toda a dor possível para depois sentir o alívio. Mascarar a dor jamais o deixará sentir-se em paz depois. 

      Poderia no entanto, também ensinar a trancar as suas emoções, engolir os seus sentimentos e a guardar todas as coisas somente para si.

      Poderia sim ensiná-lo sobre a transparência do sentir, sobre como mostrar-se aberto e franco e vulnerável, embora possa mostrá-lo também a como ocultar partes que não queira que venham à tona.

       Poderia ensinar a deixar o outro mais feliz que você mesmo numa relação e por nunca querer magoar quem o ama de verdade, entender que a sua própria felicidade não pode ser prioridade.

        Poderia ensinar a estar junto com os seus amigos, aqueles que escolheu como verdadeiros, mesmo quando eles disserem ou agirem ou negarem ou fizerem algumas coisas que acabará o machucando internamente.

       Poderia ensiná-lo a como engolir com a saliva alguns atritos, ainda que não mereça passar por algumas situações, chegará um tempo que entenderá o quanto isto tomará a sua energia, mesmo que o entristeça.

        Poderia ensinar a como ter uma aparência Zen, mesmo carregando um turbilhão de emoções em seu interior.

    Poderia também ensinar desta vez, a sentir um certo tipo de ciúmes e desconfiança por pensamentos criados apenas pela sua mente mas que deixam um incômodo em seu estômago. 

        Poderia ainda, ensinar a como vez por outra sentir-se inferior, perceber que não é tão importante ou que o valor do seu amor ou amizade é menor do que outros sentimentos e desta fase negativa positivamente destruir o seu ego e entender que a passagem por aqui requer mais atenção ao seu espírito do que imagina.

      Poderia então, obviamente, ensiná-lo o caminho da espiritualidade numa busca desenfreada ao caminho do autoconhecimento.

        Poderia também ensinar a perder-se no caminho mais vezes do que o necessário, já que sei quase todos os atalhos que levam aos erros de rota.

       Poderia ensinar a como se manter em um tipo de trabalho que lentamente vai apagando quem realmente é, mas com um sorriso no rosto te ensinarei a segurar firme e traçar um foco para poder através deste mesmo trabalho dar a volta por cima em sua situação financeira.

       Poderia ensinar a como ser "tão expansivo" e ainda assim concentrar-se em pequenos desejos destrutivos, ou a como enxergar o amor sobre todas as coisas mas não deixar pra lá pequenas mágoas.

         Poderia ensiná-lo a como chorar alto dentro de seu carro, tão alto, tão alto, tão alto que precisará por a mão na boca para silenciar os gritos, enquanto uma de suas músicas favoritas mesmo que em volume considerável não consiga abafar os pensamentos profundos cuspidos com este choro. 

      Poderia ensinar a camuflar os seus desejos mais sacanas, mais inapropriados, os pensamentos mais tarados, o tesão carnal mais desavergonhado e deixá-los amarrados dentro de si, atados em sua espinha dorsal, o espremendo e assim tornando-o insatisfeito.

       Poderia ensiná-lo ainda a como entusiasmar-se com falsos inícios, a programar tempo sozinho, viajar, pegar a estrada, acampar, correr pro mar e nunca fazê-los, e guardá-los na caixa, na caixa que acomoda o seu espírito e o aprisiona.

         Eu poderia talvez, nesta etapa de minha jornada ensiná-lo, tentar ajudá-lo a encontrar o caminho mais seguro, o equilíbrio, a abertura, a energia, a vida que brota todo dia e faz com que mesmo com a escalada até o topo da montanha ou o mergulho no fundo do poço, se apaixone cada vez mais por viver:  mas também preciso reaprender... 

          Poderia ensinar assim, que a liberdade de sentir para evoluir sempre será a maior de todas as lições: experimente finalmente chegar a quem se é.  E chegando lá, agradeça.







quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Renasce e se aceita

    Há um bocado de sentimentos em turbulência trancados dentro de mim. Há  tantos destroços guardados que hora dessas este acúmulo se tornará explosão. Estão aqui, efervescendo, mas estou bem - aparentemente - preciso estar. Posso dizer sem dúvida alguma que a forma como me sinto não se trata de um período depressivo, porque este vazio, esta não completude, esta insatisfação avassaladora me colocam consciente nesta fase internamente perturbadora. Não há nada embaçado, ao contrário, tudo está "clean" em minha visão, mas covardemente olho para baixo.

     Não há como mudar a essência da natureza interior. Podemos mudar outras substâncias que nos compõem, mas não a nossa natureza interior. Podemos mudar nosso comportamento, nossas ações, nossas rezas, mas não nossa essência interior. Podemos inclusive mudar a parte em que não podemos mudar algumas coisas e assim aceitá-las com menos sofrimento: não se pode por exemplo, mudar a sua necessidade de trabalho para sustentar-se neste sistema, se ainda quer fazer parte deste sistema, se ainda não tem coragem para deixá-lo, não se pode mudar a reclamação de sua companheira por estar costumeiramente com os pensamentos voando por aí, nunca assentado, porque de fato você não aterriza há tempos, não se pode mudar os desejos de um amigo por alguém da sua família, mesmo que este desejo tornando-se real, acabe por separá-los: as escolhas são livres e se não conseguimos esvair nossos próprios desejos da mente, como mudar os desejos do outro? Não se pode mudar o fato de sermos primitivos em nossa forma de sentir tesão e desta forma não precisamos sentir culpa por isso, não se pode mudar o fato de não sermos tão importantes quanto julgamos ser, somos movidos pelo momento, tudo acaba, inclusive a vida finda. Assim vou aceitando as condições.

     Aceito a minha natureza interior com toda esta trepidação, de alturas inatingíveis e rasantes tocando o solo - mar calmo cavocando o vulcão. Tudo o que há em mim sou eu. Tudo. Inclusive esta insatisfação própria quase autopunição - os erros tantos - sou eu agora. Tão inferior.

      Então eu cheguei aqui, no ponto onde grito para dentro e ouço um eco, porque tudo está vazio: não estou bem dentro das minhas relações, não estou bem em meu trabalho, não estou bem financeiramente, não estou bem emocionalmente, não estou em paz com meus desejos, não estou em paz com as minhas verdades interiores, meus sentimentos estão em conflitos, não estou mais conseguindo segurar o que está trancado e é a força que acredito ter em minha espiritualidade que tem sustentado a coluna vertebral de minha razões.  Eis a vida aqui, do jeito que tem de ser: engole a saliva, põe um sorriso no rosto, renasce e se aceita assim... 

     Caminho - covardemente olhando para baixo - e o que sinto, gera tristeza.  Outra vez preciso me curar sozinho.