terça-feira, 26 de abril de 2016

Processo de cura

Estou transitando por todos os meus lados, internos, externos, avessos, por cada uma de minhas partes. Minha alma por vezes não cabe em mim, tem explorado lugares maiores do que meu próprio corpo. Minhas partes antônimas colidem-se, sofrem rupturas, e remendam-se em curto tempo. Minhas dualidades dialogam entre si por meses a fio, flutuam cantando sobre minhas decisões e sobre meus devaneios. 

    Como em todas as outras vezes - sem nenhuma novidade - estou novamente no meio de um processo de cura: e todo, absolutamente todo o processo de cura é lento. Neste emaranhado de sentimentos múltiplos, estou no topo de meu limite de sanidade mental. Me sinto internamente doente. Estou no processo de cura de minha INFELICIDADE. Estou no exato momento de minha vida em que todas as coisas que estou fazendo não estão dentro de meus desejos. Meus desejos aliás, parecem nunca ter tido qualquer validade.

     Nesta ambivalência atordoada de emoções, vou deslizando incompleto e vou carregando toda a responsabilidade de meus passos em falso. Minha ansiedade tem sido o fruto de minha própria liberdade: no momento em que me intitulo livre e todas as minhas escolhas cabem somente a mim, tal fato aflige meu Ser. Meus medos e minha valentia iniciam uma luta forte e longa.

     Minha função colaborativa social chamada "trabalho" tem sido traumática durante estes anos e tenho estado a beira da exaustão mental. Já não consigo mais esconder minha tamanha hipocrisia. Se Deus existe - respeitando quem não acredita em sua existência - este é o grande plano de Deus para nossas vidas? Ter apenas um dia e meio na semana para descansar? Ter que acender uma vela para agradecer o feito? Ter que ignorar o tamanho do mundo, o tamanho das coisas, o tamanho de capacidade de nosso espirito evoluir nos infiltrando apenas dentro de um único portal, naquela sala ou espaço ou tempo onde gastamos a nossa vida? Enaltecer o sofrimento de aguentar firme? Ser batalhador, não desistir nunca? Esta é a essência do que é viver? Está falando sério?

    Tenho acordado todos os dias, todos,  e silenciosamente pensado: tudo é passageiro. Meus risos são temporários, meu choro é temporário, este sentimento que jogo nestas palavras é temporário, meu orgasmo dura segundos! Esta perspectiva me ajuda um pouco a acalentar o coração. Somos - como humanos - acostumados a viver em cima de projeções, projetamos nossas frustrações presentes lá para o futuro e fazemos sinal de fumaça para a nossa esperança usando frases como "...quando meu salário aumentar...", "...quando eu mudar de cidade...", "..quando eu tiver a casa nova...", "...quando eu terminar de pagar o carro..." estarei melhor, estarei feliz, estarei completo... A gente na verdade adia nosso poder de decisão, a gente não escolhe a felicidade do momento porque ficamos paralisados com a possibilidade do fracasso, como se tivéssemos de dar explicações, a gente joga para depois, a gente deixa para a outra vida. E então ganhamos uma gastrite e seguimos a vida inteira a procura de um alívio, esquecendo que alívios também são temporários e não lembrando que a maioria daquilo que associamos com "estar bem" são coisas externas.


Neste caminho árduo de meu próprio processo de cura, nesta não completude em que me encontro, em minha total aceitação de toda a culpa que me cabe sem transferir qualquer parte para outros, seja família, seja namorada, sejam amigos, sejam chefes, sejam todas as outras pessoas, tudo o que está acontecendo neste exato momento de minha vida é deveras responsabilidade minha, dentro da aceitação deste fato, vou aparando as arestas, vou tentando a reconexão. A estrada que pego, cada vez mais me define como um viajante espiritual, querendo chegar interiormente no lugar onde simbolicamente vim a este mundo para estar e onde vim para estar, não é mais aqui (me tenho maior). Todo o processo de cura começa ao aceitarmos de fato o que nos afeta. Meu caminho para a cura, inicia ao admitir que meu interior está infeliz. Todo processo de cura é lento, mas funciona. Minha eterna gratidão à resiliência.