quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Eu te convido a sentir a dor e a experimentar a força da vulnerabilidade ao emergir de sua desconstrução

   Desde muito cedo somos aconselhados a esconder as nossas emoções. Adultos que foram repreendidos quando crianças estendem estes mesmos conselhos aos seus filhos em uma corrente que nunca finda: devemos obrigatoriamente crescermos para nos tornarmos fortes e ponto final. Possivelmente, quase todos nós já presenciamos alguns pais pedindo aos seus filhos para "engolir o choro" ou até mesmo, de uma forma mais bem humorada, dizendo à estes após alguma batida no joelho que "não é necessário chorar pois quando casar sara!". O que o adulto não se dá conta, é que frases que parecem assim, tão despretensiosas, acabam gerando a informação errada nas crianças de que elas não podem demonstrar as suas fraquezas. Na pior das hipóteses, estas crianças tornam-se adultos ou frios ou fechados e por camuflar seus sentimentos por longo tempo, tendem a sofrer silenciosamente até que as suas dores se tornem explosões: estouram em somatizações, estouram em agressividade, estouram em depressão, estouram em câncer de estômago... Se permitir a sentir as dores é poder ter acesso a uma força interior que muitos desconhecem: a força proporcionada por nossa vulnerabilidade humana, que somente virá à tona após a nossa total desconstrução.

     Somos construídos em cima das mesmas bases, como se já houvesse um molde pronto. Em meu caminho de estudo ao autoconhecimento, comecei a desconstruir estas bases concretadas dentro de mim e a me posicionar tanto com a minha alegria quanto com o meu sofrimento. Não é necessário camuflar o que sinto. Entender as nossas dores como um processo natural e aceitar que precisamos passar por este período para que haja a cura, é diferente de nos lamentarmos ou sermos negativos. Muitas pessoas acreditam que estando em uma fase conturbada, o pensamento positivo deverá girar em torno de dizermos que "está tudo bem". Ao meu ver, verbalizar que "está tudo bem" quando não está tudo bem, é apenas uma maneira de evidenciarmos as nossas mentiras interiores. A gente aprende a nos esconder no banheiro quando estamos com os olhos vermelhos, a gente aprende a fingir um sorriso após a nossa derrota. A gente aprende a não sentir.

      Lembro nitidamente de que quando meu pai veio a falecer e eu teria de enfrentar o velório, tudo o que eu não precisava era das pessoas me abraçando em consolo me pedindo para ter forças - eu teria de inclusive, controlar a minha estupidez. Quando "perdemos" alguém, aquele ato de despedida é a nossa última experiência com aquela pessoa, e esta experiência é triste, não precisamos ser fortes, não precisamos mostrar a quem quer que seja que somos maduros emocional e espiritualmente. Hoje, quando uma pessoa próxima está passando por uma situação de despedida, eu lhe desejo fraqueza, eu lhe desejo que sinta todas as dores e que coloque para fora todo o choro necessário. Eu desejo que a pessoa sinta, simplesmente sinta e que consiga entender a sua vulnerabilidade diante daquele momento. É depois que pensamos como seguiremos a nossa jornada, é depois que faremos terapia como ajuda para preencher a lacuna, é depois que nos voltaremos a nossa espiritualidade interior para um maior entendimento daquela separação. Independente de sua religião, ou do Deus que acredita existir, lembre-se que não foi um Ser Divino que disse que precisamos enxugar as lágrimas e "tocar o barco" e voltar ao trabalho superados, apenas quatro dias depois da morte de alguém que amamos: quem inventou esta parte foi a sociedade, que independente de sua dor, precisa que você garanta o seu lucro. Não confunda: continuar vivendo em nada tem a ver com retornar ao molde. 

       Este texto não se trata de uma "ode ao sofrimento", ao contrário. Trata de minha visão sobre a liberdade de sentir sem camuflar qualquer emoção que provamos. Trata ainda, mais pessoalmente, da minha abertura a me permitir estar em comunhão com o sentimento que me aflige ou que me alegra e do meu entendimento que tanto a alegria quanto a tristeza, são passageiras. Não há porque esconder a nossa raiva, a nossa tristeza, insatisfação tão pouco a nossa euforia, animação e felicidade momentânea, há espaço para todos estes sentimentos dentro de nós e eles irão chegar conforme o decorrer das nossas venturas na vida, conforme o andamento de nossas relações, nas nossas perdas e ganhos de cada dia, não há como prever... Eu desejo que você não sinta medo de se desconstruir e reformar quantas vezes forem necessário, não engula o seu choro e nem o seu riso mais solto, seja aberto e esteja atento à todos os insights soprados aos seus ouvidos mentais. Não se distraia, não se perca de sua verdadeira essência: somos espíritos tendo uma experiência humana e não o contrário. Respire para reencontrar quem é! Seja grato por cada sentimento que reverbera em energia interior e tenha uma linda e profunda jornada... Somos arranjos temporários, somos todos espíritos em reconstrução. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O desprendimento do rancor como consciência espiritual e a minha ausência no ritual do perdão

    Eu descobri onde ficava a tal linha tênue que divide o amor do ódio: assustadoramente a encontrei dentro de mim. Esta linha aparece sempre da forma mais cruel, quando emocionalmente a gama de bons sentimentos que carregamos por uma pessoa é implodida e derrubada como se fosse um prédio antigo que não deve mais pertencer aquele lugar. É quando o amor vira pó, e em cima daquele local podem acontecer duas coisas: ser reconstruído um novo prédio concretado com ressentimentos, ou se tornar totalmente vazio. No meu caso, este prédio foi construído até metade, mas fora abandonado em meio a obra, e portanto está sendo evacuado agora. Eu tenho carregado um ressentimento dentro de mim por muito mais anos do que pensei que carregaria e escrever sobre este assunto de uma forma transparente e clara, terá um efeito libertador para mim.

     Eu escrevi alguns textos sobre esta situação, os quais sempre tornavam tudo ainda mais pesado do que já era. A minha raiva interior sempre dominava a minha escrita quando precisava colocar num papel as emoções as quais eu estava sentindo. Todos estes escritos eram guardados e relidos de tempos em tempos, e, absolutamente nenhum daqueles sentimentos se modificava. Este desafeto já ultrapassa uma década e retrata mais do que o término de uma amizade, retrata a transição do sentimento do amor para o sentimento do rancor. O amor une, o desafeto ata. O sentimento de rancor nos torna presos dentro de nossa própria memória e ele desgasta a nossa energia.  Volta e meia, estas janelas de memória se abrem em minha mente. Estas janelas, brincam de "abre e fecha" se aproveitando de uma de minhas fraquezas: a minha insistência em não esquecer situações que me causaram dor. É como se de tempos em tempos, elas precisassem abrir para ventilar o lugar, e deixar sair com o vento alguns pedaços de recordações. Talvez sejam pequenos exercícios de purificação inconsciente já que durante todos estes anos, esta mágoa foi sendo alimentada por diálogos imaginários que criavam imagens nítidas de novas desavenças, onde eu conseguia colocar tudo para fora aos gritos, que na verdade ficaram apenas trancados dentro de mim.

    Há pouco tempo atrás, exatamente no dia em que eu completaria o meu trigésimo aniversário - tão esperado por mim - acabei por deixar de festejar, desmarcando inclusive a comemoração que seria feita com amigos naquela noite e os deixando sem compreender o porquê. Recebi uma mensagem enviada por esta pessoa e um texto da pessoa com a qual ela mantinha uma relação, onde ambas conseguiram emocionalmente destruir com o meu dia. A pessoa com a qual ela se relacionava aliás, foi o "Juíz" da situação, o "olho julgador", aquela a qual desconhecia os diferentes lados de uma história que era inteiramente pessoal, que era apenas entre duas pessoas,  mas apontava a culpa à mim sem racionalizar e desejava em palavras escritas que a vida me daria o devido troco. Mais outro atrito, mais outra discussão, mais e mais sentimentos ruins invadindo o meu interior. Porém após algumas semanas, fui até o seu encontro para que tivéssemos uma boa conversa. Naquele momento, eu pensei que estava dando o passo mais correto espiritualmente falando, deixei o meu orgulho de lado para tentar encontrar o entendimento, mas foi apenas um erro. Em uma conversa amena e pacífica, como tinha de ser, os gritos continuaram presos pela força de vontade da maturidade emocional. Tempos depois daquela conversa que aparentemente nos colocava novamente na rota da reconciliação, eu me senti profundamente triste. Eu percebi que aquela história toda que havia sido quebrada, cheia de ofensas e mágoas, ainda me causava muita dor, eu observei que ao invés de estar fazendo algo em prol da nossa evolução espiritual, eu estava apenas encobrindo sentimentos que ainda estavam  mal resolvidos dentro de mim, e preferi então me afastar definitivamente.

    Estando eu a percorrer a minha jornada, com tantos altos e baixos, e a qual me faz acreditar cada vez mais em mim mesmo como um Ser que está a procura de entendimento espiritual neste plano, eu simplesmente não podia defender o meu próprio ato de procura e reconciliação se dentro de mim ele não havia funcionado. Após meu retorno para casa e, passado alguns meses de tentativas frustradas de reaproximação (de ambas as partes), cansado das lembranças dos julgamentos, jogos emocionais, do apontamento de erros que couberam apenas a mim, e da falta de respeito por minhas escolhas,  eu precisava dar um basta na situação. Simbolicamente então, comecei marcando uma sessão de tatuagem onde cobri um desenho que havia feito há alguns anos atrás e que representava a "força" de nossa relação. Lembro que, enquanto o tatuador realizava a sessão, eu fazia uma espécie de ritual de exorcismo mental para expulsar os sentimentos doloridos, para tentar guardar os sentimentos anteriores, daquele passado registrado em nosso histórico, onde havia somente amor. Depois da tatuagem, apaguei o seu número de telefone, pedi para alguns amigos em comum não me darem mais notícias e profundamente implorei ao Universo para não mais nos encontrarmos nem nesta, nem numa próxima existência. . Eu prefiro o "desamor" ao rancor. Não há culpa em simplesmente deixar de sentir amor mas há responsabilidade energética ao continuarmos alimentando o rancor. E eu ainda sinto rancor e sinto uma explosão de sentimentos ruins e um incômodo no estômago quando penso em seu nome e eu não quero mais negar isso à mim mesmo, caso contrário, não conseguirei me curar. Eu tenho a livre escolha de não querer por perto quem não me faz sentir bem, eu não preciso ficar preso ao que éramos no passado, eu quero seguir meu caminho em paz. Eu tive uma espécie de bloqueio durante estes anos por conta de alguns dos motivos de nossos atritos: não consigo mais confiar plenamente em alguém, não consigo mais pedir ajuda por medo das cobranças depois. Se há algo que possa esclarecer a nossa separação, tentando ver pelo lado mais maduro possível,  é que talvez hajam explicações espirituais e evolutivas as quais ainda não temos acesso, e serão elas que mostrarão os porquês de nosso desvio de caminho. Mudaram os pensamentos, as experiências, as escolhas, os interesses, as afinidades, a visão de vida... Carregar todo este apontamento de culpa sozinho fez com que eu deixasse de sentir amor...

     Estou agora me preparando para o ritual do perdão interno, o qual estive ausente tempo demais por conta da minha incapacidade de perdoar plenamente sem ser envenenado pelas más recordações. Eu conheço a minha parte da responsabilidade e eu sei que o perdão é um processo poderoso de cura. Compreendo também que agir com a transparência do sentir, sendo sincero comigo mesmo, faz com que eu não caia na ilusão do falso alívio do perdão dito apenas da boca para fora. Esta mágoa me causou uma devastação interior grande demais e fingir ter superado só me afastará do meu verdadeiro caminho. Coincidentemente, há uma canção que consegue canalizar todo este sentimento que precisa ser modificado, a qual a cada vez que ouço me faz imergir nesta história, uma canção chamada "This Grudge" de uma cantora chamada Alanis, a qual compartilhávamos do mesmo gosto no período de maior união, quando nos sentíamos como "irmãos de espirito" envoltos de afinidades. Em um dos seus versos há o seguinte desabafo: "Eu quero ser grande e me livrar deste rancor que vem ficando velho. Todo este tempo e  eu não soube como descansar este passado. Eu quero ser leve e resolvido, limpo como uma lousa e libertado, eu quero perdoar por nós dois". 


      Não haveria melhor maneira de dizer Adeus.

 







quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Sociedade e a sua Natureza Selvagem

 "Dois anos sobre a Terra. Sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, sem cigarros. LIBERDADE TOTAL. Um viajante radicalmente naturalista, que tem morada na estrada. Agora, depois de perambular dois anos, vem a aventura final e grandiosa, a apoteótica batalha para assassinar a falsa criatura interior e a conclusão vitoriosa da revolução espiritual. Sem ser envenenado pela civilização, ele escapa sobre a Terra para perder-se na natureza selvagem." (Alexander Supertramp, maio 1992).
     Esta foi a frase entalhada em uma madeira deixada por Christopher McCandless - o qual usou o codinome "Supertramp" - em um velho ônibus intitulado "Ônibus Mágico" que servira de abrigo, durante sua experiência no Alaska. Eis o enredo do filme que marcou a minha vida "Na natureza Selvagem [Into the wild]". Ele é inspirado na história real de Christopher, um jovem que após concluir seu curso de faculdade, abandona a vida de conforto para buscar a liberdade pelos caminhos do mundo. Doa todas as suas economias, cerca de vinte e quatro mil dólares para a caridade, coloca uma mochila nas costas e parte para o Alaska a fim de viver uma verdadeira aventura e um desafio supremo.

***

     Escrevi exatamente este parágrafo em um texto de outubro de 2009. Naquele momento, eu estava assistindo a este filme pela segunda vez - hoje, já passei da décima segunda - e apesar de meu sentimento por esta história nunca ter mudado, a minha visão sobre esta experiência se modificou um bocado. É apropriado dizer, que quando uma história é jogada em um filme, ela se torna romantizada, principalmente quando traz uma trilha sonora impecável assinada por Eddie Vedder (mestre), desta forma, a história aqui, trata de uma visão sobre a vida diante da sociedade e da sociedade diante dessa vida. É um filme reflexivo, inteligente, impressionante e profundamente belo, interagindo com paisagens incríveis. É uma fuga daquilo que se foi programado pra ser. É uma fuga daquilo que os outros esperam de nós em tempo integral. As pessoas já nascem com essa pressão: ser o melhor que puder; ir o mais longe que puder; voar o mais alto; ser o mais rápido; ser o mais forte que puder; ter a ambição pelo posto de primeiro lugar; ter destaque. Correr, correr, correr e se dar bem na vida! "O meu filho será Doutor!" Projeções inaceitáveis para uma criança que se quer abriu os olhos. Projeções daquilo que não foi realizado geralmente pelos pais,  atravessam gerações como se fossem parte de uma maldição capitalista. O personagem do filme, apesar de seus vinte e dois anos, aguentou até onde seu limite permitia, a vida que talvez, seus pais sonhavam à ele. Até que se cansou também das imposições da sociedade. Afinal o que é ser alguém na vida? Ele estava no caminho certo, aquele caminho moldado nas receitas, com se fosse ordem médica. Porém o melhor aluno, que teria uma carreira brilhante, pensou se realmente seu futuro promissor lhe traria alguma felicidade. E decidiu, ser feliz sozinho. Preferiu ficar longe de tudo aquilo que moldava a vida que ele não optou ter: lhe fora incumbido. Preferiu a distância. Quis provar que era possível viver fora dos parâmetros da sociedade, aventurar-se, ganhar sabedoria. E quando voltasse dessa viagem, publicaria um livro, baseado em seu diário de bordo e concluiria o seu próprio estudo sobre a vida. Deixou que as outras pessoas vivessem suas mentiras em algum lugar onde ele não se fizesse presente: a família perfeita, o trabalho perfeito, as crianças perfeitas, a vida como tinha de ser, perfeita! Cada cena, evoca um questionamento automático do cérebro. Não há como simplesmente assistir sem fazer parte.

     A sedução capitalista que envolveu grande parte dos meus textos e comentários pessoais nos últimos tempos, é o veneno que corre ao lado e é base do pensamento que leva o filme. E quando comparo aquela fuga com a história que carrego dentro de mim, encontro semelhanças gigantescas. O paradoxo entre a minha liberdade e a estrutura de vida que eu poderia ter estando inserido nesse sistema, me dilacera. Quantos de nós não sentiu vontade de pôr uma mochila nas costas e seguir com ou sem rumo em algum momento de nossas vidas? Esquecer desta vida fabricada desde criança, esquecer algumas regras, esquecer o olhar dos outros. Esquecer da dita "sociedade-controladora-manipuladora", dos julgamentos, do dinheiro, do dinheiro, do dinheiro. Mas será que não bastaria apenas mudar a maneira de como enxergamos as coisas? Encontrar o equilíbrio entre viver uma vida que seja proporcional aquilo que nos de uma condição de felicidade sem nos prendermos as armadilhas da sociedade? Existirá realmente uma mudança tão plena que fará com que nós, seres tão humanos, não sintamos insatisfação?  E é neste ponto que de alguma forma, eu comecei a entender este filme com um outro sentido. Principalmente após ter lido a história no livro e ter tido acesso a outras partes, como a visão da família.  Fugir ou enfrentar? Eu entendo, que é sempre mais poético assistir a história dos outros. Eu não sairia no agora com uma mochila nas costas. Até porque a filosofia da liberdade é emocionalmente encorajadora mas racionalmente não é sustentável por um longo tempo. Eu sentiria falta do café quente, da coberta limpa, do chuveiro... seria hipocrisia falar o contrário. Mas na primeira vez em que assisti, eu pensei em várias possibilidades. Vejo apreciadores do filme, falando sobre esta forma de viver a vida isoladamente, em acordo apenas com a Natureza, como se fosse um modelo a ser seguido, e me questiono: será mesmo? Particularmente, sou uma pessoa que tem necessidade de solitude para recarregar a energia de meu espírito tanto quanto tenho de alimento para recarregar a energia de meu corpo, utilizo em minha vida algo que intitulei de "Período de Isolamento Interno", que são momentos solitários importantes demais para o meu retorno a centralidade, eles podem durar dois dias, uma semana, um mês, mas fazem parte de um período, eu não acredito que eu conseguiria viver extremamente isolado, tão pouco acredito que o fato de viver em uma barraca entre as montanhas me traria a tal felicidade. Seria uma receita pronta, tanto quanto as tantas que a sociedade nos impõe e que tanto somos arredios. O filme também me indaga a questionamentos que não estão ali em destaque, como pro exemplo observar uma história, sem ter de seguir os mesmos passos desta, e sugar desta história, aquilo que poderá modificar a minha própria. Estar em uma casa simples, em uma mansão, em uma barraca, em uma oca, onde quer que seja, não trará o alivio tão desejado por nós, como se isto dependesse apenas da maneira como estamos acomodados no mundo: a complexidade mora em nós. Habita emocionalmente, psicologicamente e espiritualmente... sempre haverá um árduo trabalho interno para nos curarmos e encontrarmos um atalho para a felicidade passageira.

     A história de "Na Natureza Selvagem" me serve como uma válvula de escape. Eu consigo me ver por diversas vezes, dentro do filme. Eu me sinto cúmplice. Eu me sinto ali, como em minhas tantas fugas internas, subindo a montanha, atravessando o rio, reaprendendo... A diferença maior, é que agora, a cada vez que assisto esta história novamente, o que percebo é uma luta interna do personagem contra os seus demônios, não o vejo como um herói nem como um vilão, não o julgo pelo extremismo de sua fuga, não concordo com parte da população daquele local que o considera praticamente um suicida por sua falta de preparação ao mergulhar nesta aventura, o vejo como um ser humano que foi atrás de sua própria estrada, tenha sido esta certa ou errada. Seus vinte e poucos anos foram pontuados com pitadas de sabedoria e pitadas de imaturidade como aconteceu com quase todos nós que já passamos pelos vinte e tantos anos, esta casa que abriga o nosso EGO maior, onde "conhecemos" a vida sem termos vivido e não permitimos intromissões. Eu apenas, se pudesse voltar no tempo para um encontro com o Chris antes de sua partida,  teria sim o encorajado a ir. Eu teria dito para seguir em sua caminhada em busca do que tanto procurava, mas sem que parecesse uma fuga, eu teria o encorajado a falar, teria o encorajado a não deixar trancado dentro de si as suas emoções, angústias, sua raiva, sua desaprovação, eu teria o encorajado a ter um diálogo com os seus pais e esclarecido sua tristeza e revolta interior, eu teria o encorajado a sentir a leveza que a clareza nos proporciona, antes de sua partida... Teria o abraçado e o deixado ir.  O que estaria o esperando em seu caminho, seria algo o qual apenas ele poderia modificar...

    A sociedade do "ter de, adquirir" sempre será o meu calo no pé. Esta sociedade consumista, que nos coloca preço e nos tira valores, que cria desejos de plástico e em troca entrega o planeta de mãos beijada, que mata por dinheiro. Esta sociedade - leia-se pessoas - que enxergam outras pessoas como se elas fossem números, pela quantidade de bens materiais, pelo patrimônio, pelo carro que usam, marcas que vestem, pelo tipo de comida que consomem e idolatram as aparências. A sociedade que exige mais um diploma do que conhecimento. A sociedade que estimula a competição entre os indivíduos, melhor/pior, primeiro lugar/último lugar, e que controla o lucro gerado pela batalha de EGOS. Sem contar a parte mais triste, há uma sociedade,  pessoas, indivíduos, cada qual com a sua parcela de contribuição para o caos capitalista, incluindo eu, você, e todos aqueles que estão inseridos neste sistema falho sem conseguir sair. "Supertramp" teria hoje motivos ainda maiores para a sua fuga, ou talvez, soubesse ele que a felicidade é somente verdadeira ao ser compartilhada, teria motivos ainda maiores para unir o maior número de pessoas possíveis para enfrentar esta sociedade. De qualquer forma, eu amo o seu espírito e agradeço a inspiração, esteja ele onde estiver, esteja em luz!