quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A Sociedade e a sua Natureza Selvagem

 "Dois anos sobre a Terra. Sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, sem cigarros. LIBERDADE TOTAL. Um viajante radicalmente naturalista, que tem morada na estrada. Agora, depois de perambular dois anos, vem a aventura final e grandiosa, a apoteótica batalha para assassinar a falsa criatura interior e a conclusão vitoriosa da revolução espiritual. Sem ser envenenado pela civilização, ele escapa sobre a Terra para perder-se na natureza selvagem." (Alexander Supertramp, maio 1992).
     Esta foi a frase entalhada em uma madeira deixada por Christopher McCandless - o qual usou o codinome "Supertramp" - em um velho ônibus intitulado "Ônibus Mágico" que servira de abrigo, durante sua experiência no Alaska. Eis o enredo do filme que marcou a minha vida "Na natureza Selvagem [Into the wild]". Ele é inspirado na história real de Christopher, um jovem que após concluir seu curso de faculdade, abandona a vida de conforto para buscar a liberdade pelos caminhos do mundo. Doa todas as suas economias, cerca de vinte e quatro mil dólares para a caridade, coloca uma mochila nas costas e parte para o Alaska a fim de viver uma verdadeira aventura e um desafio supremo.

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     Escrevi exatamente este parágrafo em um texto de outubro de 2009. Naquele momento, eu estava assistindo a este filme pela segunda vez - hoje, já passei da décima segunda - e apesar de meu sentimento por esta história nunca ter mudado, a minha visão sobre esta experiência se modificou um bocado. É apropriado dizer, que quando uma história é jogada em um filme, ela se torna romantizada, principalmente quando traz uma trilha sonora impecável assinada por Eddie Vedder (mestre), desta forma, a história aqui, trata de uma visão sobre a vida diante da sociedade e da sociedade diante dessa vida. É um filme reflexivo, inteligente, impressionante e profundamente belo, interagindo com paisagens incríveis. É uma fuga daquilo que se foi programado pra ser. É uma fuga daquilo que os outros esperam de nós em tempo integral. As pessoas já nascem com essa pressão: ser o melhor que puder; ir o mais longe que puder; voar o mais alto; ser o mais rápido; ser o mais forte que puder; ter a ambição pelo posto de primeiro lugar; ter destaque. Correr, correr, correr e se dar bem na vida! "O meu filho será Doutor!" Projeções inaceitáveis para uma criança que se quer abriu os olhos. Projeções daquilo que não foi realizado geralmente pelos pais,  atravessam gerações como se fossem parte de uma maldição capitalista. O personagem do filme, apesar de seus vinte e dois anos, aguentou até onde seu limite permitia, a vida que talvez, seus pais sonhavam à ele. Até que se cansou também das imposições da sociedade. Afinal o que é ser alguém na vida? Ele estava no caminho certo, aquele caminho moldado nas receitas, com se fosse ordem médica. Porém o melhor aluno, que teria uma carreira brilhante, pensou se realmente seu futuro promissor lhe traria alguma felicidade. E decidiu, ser feliz sozinho. Preferiu ficar longe de tudo aquilo que moldava a vida que ele não optou ter: lhe fora incumbido. Preferiu a distância. Quis provar que era possível viver fora dos parâmetros da sociedade, aventurar-se, ganhar sabedoria. E quando voltasse dessa viagem, publicaria um livro, baseado em seu diário de bordo e concluiria o seu próprio estudo sobre a vida. Deixou que as outras pessoas vivessem suas mentiras em algum lugar onde ele não se fizesse presente: a família perfeita, o trabalho perfeito, as crianças perfeitas, a vida como tinha de ser, perfeita! Cada cena, evoca um questionamento automático do cérebro. Não há como simplesmente assistir sem fazer parte.

     A sedução capitalista que envolveu grande parte dos meus textos e comentários pessoais nos últimos tempos, é o veneno que corre ao lado e é base do pensamento que leva o filme. E quando comparo aquela fuga com a história que carrego dentro de mim, encontro semelhanças gigantescas. O paradoxo entre a minha liberdade e a estrutura de vida que eu poderia ter estando inserido nesse sistema, me dilacera. Quantos de nós não sentiu vontade de pôr uma mochila nas costas e seguir com ou sem rumo em algum momento de nossas vidas? Esquecer desta vida fabricada desde criança, esquecer algumas regras, esquecer o olhar dos outros. Esquecer da dita "sociedade-controladora-manipuladora", dos julgamentos, do dinheiro, do dinheiro, do dinheiro. Mas será que não bastaria apenas mudar a maneira de como enxergamos as coisas? Encontrar o equilíbrio entre viver uma vida que seja proporcional aquilo que nos de uma condição de felicidade sem nos prendermos as armadilhas da sociedade? Existirá realmente uma mudança tão plena que fará com que nós, seres tão humanos, não sintamos insatisfação?  E é neste ponto que de alguma forma, eu comecei a entender este filme com um outro sentido. Principalmente após ter lido a história no livro e ter tido acesso a outras partes, como a visão da família.  Fugir ou enfrentar? Eu entendo, que é sempre mais poético assistir a história dos outros. Eu não sairia no agora com uma mochila nas costas. Até porque a filosofia da liberdade é emocionalmente encorajadora mas racionalmente não é sustentável por um longo tempo. Eu sentiria falta do café quente, da coberta limpa, do chuveiro... seria hipocrisia falar o contrário. Mas na primeira vez em que assisti, eu pensei em várias possibilidades. Vejo apreciadores do filme, falando sobre esta forma de viver a vida isoladamente, em acordo apenas com a Natureza, como se fosse um modelo a ser seguido, e me questiono: será mesmo? Particularmente, sou uma pessoa que tem necessidade de solitude para recarregar a energia de meu espírito tanto quanto tenho de alimento para recarregar a energia de meu corpo, utilizo em minha vida algo que intitulei de "Período de Isolamento Interno", que são momentos solitários importantes demais para o meu retorno a centralidade, eles podem durar dois dias, uma semana, um mês, mas fazem parte de um período, eu não acredito que eu conseguiria viver extremamente isolado, tão pouco acredito que o fato de viver em uma barraca entre as montanhas me traria a tal felicidade. Seria uma receita pronta, tanto quanto as tantas que a sociedade nos impõe e que tanto somos arredios. O filme também me indaga a questionamentos que não estão ali em destaque, como pro exemplo observar uma história, sem ter de seguir os mesmos passos desta, e sugar desta história, aquilo que poderá modificar a minha própria. Estar em uma casa simples, em uma mansão, em uma barraca, em uma oca, onde quer que seja, não trará o alivio tão desejado por nós, como se isto dependesse apenas da maneira como estamos acomodados no mundo: a complexidade mora em nós. Habita emocionalmente, psicologicamente e espiritualmente... sempre haverá um árduo trabalho interno para nos curarmos e encontrarmos um atalho para a felicidade passageira.

     A história de "Na Natureza Selvagem" me serve como uma válvula de escape. Eu consigo me ver por diversas vezes, dentro do filme. Eu me sinto cúmplice. Eu me sinto ali, como em minhas tantas fugas internas, subindo a montanha, atravessando o rio, reaprendendo... A diferença maior, é que agora, a cada vez que assisto esta história novamente, o que percebo é uma luta interna do personagem contra os seus demônios, não o vejo como um herói nem como um vilão, não o julgo pelo extremismo de sua fuga, não concordo com parte da população daquele local que o considera praticamente um suicida por sua falta de preparação ao mergulhar nesta aventura, o vejo como um ser humano que foi atrás de sua própria estrada, tenha sido esta certa ou errada. Seus vinte e poucos anos foram pontuados com pitadas de sabedoria e pitadas de imaturidade como aconteceu com quase todos nós que já passamos pelos vinte e tantos anos, esta casa que abriga o nosso EGO maior, onde "conhecemos" a vida sem termos vivido e não permitimos intromissões. Eu apenas, se pudesse voltar no tempo para um encontro com o Chris antes de sua partida,  teria sim o encorajado a ir. Eu teria dito para seguir em sua caminhada em busca do que tanto procurava, mas sem que parecesse uma fuga, eu teria o encorajado a falar, teria o encorajado a não deixar trancado dentro de si as suas emoções, angústias, sua raiva, sua desaprovação, eu teria o encorajado a ter um diálogo com os seus pais e esclarecido sua tristeza e revolta interior, eu teria o encorajado a sentir a leveza que a clareza nos proporciona, antes de sua partida... Teria o abraçado e o deixado ir.  O que estaria o esperando em seu caminho, seria algo o qual apenas ele poderia modificar...

    A sociedade do "ter de, adquirir" sempre será o meu calo no pé. Esta sociedade consumista, que nos coloca preço e nos tira valores, que cria desejos de plástico e em troca entrega o planeta de mãos beijada, que mata por dinheiro. Esta sociedade - leia-se pessoas - que enxergam outras pessoas como se elas fossem números, pela quantidade de bens materiais, pelo patrimônio, pelo carro que usam, marcas que vestem, pelo tipo de comida que consomem e idolatram as aparências. A sociedade que exige mais um diploma do que conhecimento. A sociedade que estimula a competição entre os indivíduos, melhor/pior, primeiro lugar/último lugar, e que controla o lucro gerado pela batalha de EGOS. Sem contar a parte mais triste, há uma sociedade,  pessoas, indivíduos, cada qual com a sua parcela de contribuição para o caos capitalista, incluindo eu, você, e todos aqueles que estão inseridos neste sistema falho sem conseguir sair. "Supertramp" teria hoje motivos ainda maiores para a sua fuga, ou talvez, soubesse ele que a felicidade é somente verdadeira ao ser compartilhada, teria motivos ainda maiores para unir o maior número de pessoas possíveis para enfrentar esta sociedade. De qualquer forma, eu amo o seu espírito e agradeço a inspiração, esteja ele onde estiver, esteja em luz!






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