quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O desprendimento do rancor como consciência espiritual e a minha ausência no ritual do perdão

    Eu descobri onde ficava a tal linha tênue que divide o amor do ódio: assustadoramente a encontrei dentro de mim. Esta linha aparece sempre da forma mais cruel, quando emocionalmente a gama de bons sentimentos que carregamos por uma pessoa é implodida e derrubada como se fosse um prédio antigo que não deve mais pertencer aquele lugar. É quando o amor vira pó, e em cima daquele local podem acontecer duas coisas: ser reconstruído um novo prédio concretado com ressentimentos, ou se tornar totalmente vazio. No meu caso, este prédio foi construído até metade, mas fora abandonado em meio a obra, e portanto está sendo evacuado agora. Eu tenho carregado um ressentimento dentro de mim por muito mais anos do que pensei que carregaria e escrever sobre este assunto de uma forma transparente e clara, terá um efeito libertador para mim.

     Eu escrevi alguns textos sobre esta situação, os quais sempre tornavam tudo ainda mais pesado do que já era. A minha raiva interior sempre dominava a minha escrita quando precisava colocar num papel as emoções as quais eu estava sentindo. Todos estes escritos eram guardados e relidos de tempos em tempos, e, absolutamente nenhum daqueles sentimentos se modificava. Este desafeto já ultrapassa uma década e retrata mais do que o término de uma amizade, retrata a transição do sentimento do amor para o sentimento do rancor. O amor une, o desafeto ata. O sentimento de rancor nos torna presos dentro de nossa própria memória e ele desgasta a nossa energia.  Volta e meia, estas janelas de memória se abrem em minha mente. Estas janelas, brincam de "abre e fecha" se aproveitando de uma de minhas fraquezas: a minha insistência em não esquecer situações que me causaram dor. É como se de tempos em tempos, elas precisassem abrir para ventilar o lugar, e deixar sair com o vento alguns pedaços de recordações. Talvez sejam pequenos exercícios de purificação inconsciente já que durante todos estes anos, esta mágoa foi sendo alimentada por diálogos imaginários que criavam imagens nítidas de novas desavenças, onde eu conseguia colocar tudo para fora aos gritos, que na verdade ficaram apenas trancados dentro de mim.

    Há pouco tempo atrás, exatamente no dia em que eu completaria o meu trigésimo aniversário - tão esperado por mim - acabei por deixar de festejar, desmarcando inclusive a comemoração que seria feita com amigos naquela noite e os deixando sem compreender o porquê. Recebi uma mensagem enviada por esta pessoa e um texto da pessoa com a qual ela mantinha uma relação, onde ambas conseguiram emocionalmente destruir com o meu dia. A pessoa com a qual ela se relacionava aliás, foi o "Juíz" da situação, o "olho julgador", aquela a qual desconhecia os diferentes lados de uma história que era inteiramente pessoal, que era apenas entre duas pessoas,  mas apontava a culpa à mim sem racionalizar e desejava em palavras escritas que a vida me daria o devido troco. Mais outro atrito, mais outra discussão, mais e mais sentimentos ruins invadindo o meu interior. Porém após algumas semanas, fui até o seu encontro para que tivéssemos uma boa conversa. Naquele momento, eu pensei que estava dando o passo mais correto espiritualmente falando, deixei o meu orgulho de lado para tentar encontrar o entendimento, mas foi apenas um erro. Em uma conversa amena e pacífica, como tinha de ser, os gritos continuaram presos pela força de vontade da maturidade emocional. Tempos depois daquela conversa que aparentemente nos colocava novamente na rota da reconciliação, eu me senti profundamente triste. Eu percebi que aquela história toda que havia sido quebrada, cheia de ofensas e mágoas, ainda me causava muita dor, eu observei que ao invés de estar fazendo algo em prol da nossa evolução espiritual, eu estava apenas encobrindo sentimentos que ainda estavam  mal resolvidos dentro de mim, e preferi então me afastar definitivamente.

    Estando eu a percorrer a minha jornada, com tantos altos e baixos, e a qual me faz acreditar cada vez mais em mim mesmo como um Ser que está a procura de entendimento espiritual neste plano, eu simplesmente não podia defender o meu próprio ato de procura e reconciliação se dentro de mim ele não havia funcionado. Após meu retorno para casa e, passado alguns meses de tentativas frustradas de reaproximação (de ambas as partes), cansado das lembranças dos julgamentos, jogos emocionais, do apontamento de erros que couberam apenas a mim, e da falta de respeito por minhas escolhas,  eu precisava dar um basta na situação. Simbolicamente então, comecei marcando uma sessão de tatuagem onde cobri um desenho que havia feito há alguns anos atrás e que representava a "força" de nossa relação. Lembro que, enquanto o tatuador realizava a sessão, eu fazia uma espécie de ritual de exorcismo mental para expulsar os sentimentos doloridos, para tentar guardar os sentimentos anteriores, daquele passado registrado em nosso histórico, onde havia somente amor. Depois da tatuagem, apaguei o seu número de telefone, pedi para alguns amigos em comum não me darem mais notícias e profundamente implorei ao Universo para não mais nos encontrarmos nem nesta, nem numa próxima existência. . Eu prefiro o "desamor" ao rancor. Não há culpa em simplesmente deixar de sentir amor mas há responsabilidade energética ao continuarmos alimentando o rancor. E eu ainda sinto rancor e sinto uma explosão de sentimentos ruins e um incômodo no estômago quando penso em seu nome e eu não quero mais negar isso à mim mesmo, caso contrário, não conseguirei me curar. Eu tenho a livre escolha de não querer por perto quem não me faz sentir bem, eu não preciso ficar preso ao que éramos no passado, eu quero seguir meu caminho em paz. Eu tive uma espécie de bloqueio durante estes anos por conta de alguns dos motivos de nossos atritos: não consigo mais confiar plenamente em alguém, não consigo mais pedir ajuda por medo das cobranças depois. Se há algo que possa esclarecer a nossa separação, tentando ver pelo lado mais maduro possível,  é que talvez hajam explicações espirituais e evolutivas as quais ainda não temos acesso, e serão elas que mostrarão os porquês de nosso desvio de caminho. Mudaram os pensamentos, as experiências, as escolhas, os interesses, as afinidades, a visão de vida... Carregar todo este apontamento de culpa sozinho fez com que eu deixasse de sentir amor...

     Estou agora me preparando para o ritual do perdão interno, o qual estive ausente tempo demais por conta da minha incapacidade de perdoar plenamente sem ser envenenado pelas más recordações. Eu conheço a minha parte da responsabilidade e eu sei que o perdão é um processo poderoso de cura. Compreendo também que agir com a transparência do sentir, sendo sincero comigo mesmo, faz com que eu não caia na ilusão do falso alívio do perdão dito apenas da boca para fora. Esta mágoa me causou uma devastação interior grande demais e fingir ter superado só me afastará do meu verdadeiro caminho. Coincidentemente, há uma canção que consegue canalizar todo este sentimento que precisa ser modificado, a qual a cada vez que ouço me faz imergir nesta história, uma canção chamada "This Grudge" de uma cantora chamada Alanis, a qual compartilhávamos do mesmo gosto no período de maior união, quando nos sentíamos como "irmãos de espirito" envoltos de afinidades. Em um dos seus versos há o seguinte desabafo: "Eu quero ser grande e me livrar deste rancor que vem ficando velho. Todo este tempo e  eu não soube como descansar este passado. Eu quero ser leve e resolvido, limpo como uma lousa e libertado, eu quero perdoar por nós dois". 


      Não haveria melhor maneira de dizer Adeus.

 







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