sexta-feira, 14 de outubro de 2016

(Des) construção do EGO

      A minha entrada na casa dos trinta anos, trouxe mudanças poderosas em minha forma de enxergar o significado da vida. Foi além daquela parte onde gradativamente vamos amadurecendo, pois não se tratava apenas de maturidade. Quando estava prestes a completar os já esperados Trinta, escrevi um texto onde mencionava que passei  a maior parte dos meus vinte anos não tendo vinte anos. Eu olhava para o rosto das pessoas com vinte e poucos anos e não me encontrava nelas: elas eram tão jovens e eu já tinha marcas fundas de expressão em minha testa. Eu era tão proativo e carregava tanta responsabilidade em excesso sobre os meus ombros que a minha maturidade estava a frente de meu próprio tempo. Porém, era no EGO que eu depositava todos os meus pecados.

    Aos vinte e poucos anos, eu não tinha a plena consciência do que o meu EGO representava e a busca pelo autoconhecimento desde aquela época facilitou a descoberta do caminho que me levou até a clareza. Aos vinte e poucos anos acreditamos ser os donos de todas as verdades, sermos contrariados é quase um insulto, somos extremistas, dispensamos qualquer pessoa que não esteja de acordo com o nosso pensamento, estamos sempre certos, dizemos vários "nãos" mas esperamos "sim" em recíproca, não cedemos de jeito nenhum, a lei da convivência somos nós quem escrevemos, saboreamos o pedaço inteiro das "razões", somos "professores", sabemos tudo, explodimos por pouco, não admitimos nenhuma mudança, somos massageados com qualquer elogio, somos "é assim e pronto!", sem chance de resposta, não validamos a experiência do outro que poderia ser um grande mentor, nos importamos apenas com o nosso EGO, nada mais, e não percebemos. Na nossa estupidez de querer mostrar de alguma forma, que o que importa é o que pensamos, extrapolamos na petulância de considerar que as pessoas são obrigadas a nos aceitar tais como somos e nesta incapacidade de assimilação do que é ilusório e do que deveríamos pelo menos como hipótese considerar, como por exemplo, controlar internamente o nosso EGO, preferimos deixá-lo florescer, florescer e florescer, brotando mais do que podemos podar. E assim, vamos perdendo... perdendo oportunidades de evoluir, de aprender com o outro, de trocar conhecimento. Perdemos a capacidade de ouvir, de observar, perdemos a chance de nos redimir, de admitirmos erros e na parte mais cruel, perdemos as pessoas mais próximas a nós. Passado esta fase - cuidado: ela pode nunca passar independente da idade - entendemos que as pessoas não, não são obrigadas a nos aceitar tal qual nós somos, e que a liberdade de mantermos o nosso padrão de personalidade e EGO acima de todas as coisas, nos faz ter de aceitar as consequências deste posicionamento e entender que a vida não funciona unicamente sob o nosso ponto de vista e que por conta disso, as pessoas estarão no direito de se afastar. E elas irão... 

     Cada um de nós está em seu processo individual de evolução e desta forma, não há um tempo certo para acordar ou parar de se distrair, embora espiritualmente falando, o mais cedo isto aconteça, obviamente terá resultado mais satisfatório. Tenho visto as pessoas próximas a mim passando por processos pelos quais já passei há dez anos atrás e então sinto que estamos em etapas muito diferentes de direcionamento na vida. E quando há tal disparidade de pensamento e ações, as afinidades vão diminuindo. Ao observar as situações cotidianas, sinto que concedemos valores e importâncias diferentes demais para o significado desta jornada e assim naturalmente deixamos de fazer parte de um mesmo grupo. Novamente então, cada um de nós se encaixa em outro grupo, etapa a etapa, não há certo ou errado, há tempos e vivências distintas.

    Venho destruindo o meu EGO aos poucos, saindo das armadilhas da mente, da satisfação ilusória de ser quem eu sou. Tenho desconstruído valores ilusórios, competitividades ilusórias, ganhos ilusórios, o desejo ilusório de ser "o escolhido", sentimentos ilusórios, esperas ilusórias... E confesso, não tenho tido a devida paciência com quem ainda está apegado ao seu EGO sem deixar ao menos uma pequena fresta para a luz entrar. O espaço onde o EGO se encontra é escuro, a luz ali também se chama ilusão...

      Deixando a mente deslizar pela correnteza da clareza.