segunda-feira, 20 de março de 2017

A teoria do sempre, acaba

     A  maioria das pessoas que vou conhecendo pelo caminho ou que já fazem parte de meu círculo de convívio, demonstra um apego absoluto à palavra "sempre". Nada pode ser perecível em se tratando das relações e de outras metas pessoais, tudo deve durar o tempo eterno: o namoro, o casamento, o trabalho, os imóveis, os amigos para sempre! Já pessoalmente, desde que me inclinei para o lado espiritual de minha existência Terrena, o "para sempre" não me atrai mais: eu prefiro a verdade. Com o entendimento de que a vida, nosso bem maior finda, as aflições e a prisão que o "para sempre" oferece estão cada vez mais sendo deixadas para trás.

     O melhor tempo é o presente: ponto. Buda e até mesmo qualquer poeta ou escritor ou cronista, ou aquele cara bêbado sentado no bar choramingando a perda da pessoa amada já ensinaram isso "aproveite o seu tempo, ele acaba!". Tudo termina, então qual é o medo? Qual é objetivo de eternizar tudo o que fazemos se até mesmo o nosso Ego, este que quer continuar a viver nas memórias das pessoas por aqui mesmo após a nossa morte, ele se perderá no sentido após o esclarecimento?

     Nosso grande equívoco foi ter lido, assistido e ouvido histórias onde os personagens foram felizes para sempre. Foi aí que este tal de "sempre" se impregnou em cada desejo nosso. E a cada "casal feliz", a cada "melhores amigos", a cada "sócios imbatíveis nos negócios", muitas pessoas passaram a acreditar em receitas prontas para a felicidade e a eternidade, como se não houvesse uma complexidade emocional gigante vivendo dentro de cada um. Estas mesmas pessoas, extinguiram ainda, o fato de que cada Ser está em sua caminhada evolutiva dentro do nível atingido e que somos almas que carregamos propósitos, carmas e darmas diferentes. Jamais haverá uma receita para sermos felizes, os ingredientes para tanto são individuais, então faça você mesmo o seu melhor prato.

     Eu percebo que em nosso processo diário de buscas, desperdiçamos tempo demais tentando compreender o outro ao invés de nos concentrarmos em nosso autoconhecimento. Gastamos energia à toa com alguém que está lá em seu próprio processo de entendimento de quem é, do que quer, do que se importa. Não precisamos travar esta luta pois ela é dispensável: o outro existe sem nós, já nós precisamos procurar motivos para nos manter existindo. 

    Qual é a sua paixão? O que te entusiasma? Qual é a sua idade emocional, espiritual, física, biológica? Quais as diferenças que existem entre elas? Você viverá para sempre? Você será feliz para sempre? Você será triste para sempre? Em qual momento de sua existência você compreenderá que somos presenças temporárias por este mundo? E em qual momento de sua vida você entenderá o que realmente te trouxe até aqui? Olhe para dentro, ainda há tempo... mas nem sempre terá.

      Vida que segue...


sábado, 4 de março de 2017

Reciprocidade

Poucas, bem poucas coisas perduram sem reciprocidade se tratando de relações. É como se elas fossem costuradas com um fio produzido por esta palavra. Vamos construindo nossos laços e necessitamos de ações mútuas para que haja equivalência nos sentimentos. Não há equilíbrio em uma balança quando uma das bandejas carrega mais peso, da mesma forma acontece em nossas conexões pessoais, então vamos analisando nossas convivências cabendo somente a nós as escolhas de continuarmos nas relações ou nos retirarmos delas. Escolhas: a escolha do outro por exemplo, influencia diretamente em nossas decisões.

Isso significa que quando oferecemos algo, queremos receber outro algo em troca? Não. Ainda que não sejamos feitos de uma bondade genuína a la Madre Tereza de Calcutá, não é sobre estes valores que menciono aqui, eu não falo de permuta. Há um contexto mais amplo para encaixar reciprocidade, há uma atenção que precisamos constantemente exercer sobre os nossos afetos, pessoas tão próximas à nós que estão de mãos estendidas. Se alguém me oferece água para ajudar a saciar a minha sede, eu não preciso necessariamente retribuir com água, eu posso oferecer uma cama em minha casa para um repouso à esta pessoa quando ela necessitar. Se ela me ajudar financeiramente e eu não tiver como fazer o mesmo por ela, posso ajudar sendo o melhor ouvinte que ela já teve. É uma troca saudável de ações onde cada indivíduo oferta aquilo que pode já que estamos em diferentes níveis de evolução. O que não podemos é retribuir com a nossa falta, com os nossos "nãos" ao ouvirmos tantos "sim". Desse jeito permitimos que as pessoas cansem, se retirem e repousem sua energia em outros corações. As relações tornam-se apenas lembranças.

Geralmente quando isso acontece, colocamos o peso das separações nas escolhas do  outro, quando deveríamos olhar para dentro e numerar as nossas faltas.  Quando uma pessoa nos ama e nos enxerga de uma forma positiva, em nada vai alterar quem realmente somos em essência. Do mesmo modo, se ela deixar de nos amar e passar a nos enxergar de forma negativa, continuaremos a ser a mesma pessoa que ela antes amava. O que muda é a percepção dela, não a alma que carregamos dentro de nós... Mas se soubermos que retribuímos na mesma intensidade quando foi necessário, nossa beleza interior não terá se perdido. 

Tantas pessoas entraram e saíram de minha jornada em curtos ou longos períodos de tempo, faço então uma saudação àquelas que verdadeiramente são constância. Só não sou mais repouso ao que não é recíproco, se for para permanecer, que seja mútuo.