terça-feira, 22 de agosto de 2017

A memória de nossa verdadeira essência após a morte, na transitoriedade da Vida

Este texto carrega uma respiração pausada e silenciosa a cada frase escrita. Há uma paisagem quase infinita em minha frente até onde meus olhos alcançam, daqui onde estou sentado nesta pedra, no alto desta montanha em uma tarde fria mas ensolarada. Respiração, silêncio e vento. Silêncio, embora mentalmente algumas de minhas canções favoritas sussurrem dentro de meus ouvidos e eu contemplo tudo a minha volta, e tudo o que está em meu interior. Trago uma questão: então, se tudo é passageiro, nada é permanente, chegamos e temos de partir: o que fazemos durante este tempo intermediário para tornar realmente válida a nossa estadia por aqui? Recebo de volta uma resposta que ecoa muda.

Eu sinto que é a nossa clareza mental que indica o caminho, estando atenta aos "insights" que nos são enviados, já que diariamente somos jogados nas mais diversas distrações. A clareza mental dissipa o que está nublado, desembaça o que está ofuscando a nossa visão, embora nossa tendência seja voltar a tapar os olhos, a desviar  o olhar: buscamos por comodismos e nos acostumamos em não sair de nossas próprias fronteiras, às vezes preferimos perder o trem para continuar a andar nos trilhos porque queremos ter controle sobre o que se quer conhecemos profundamente. Aliás, qual é o lugar mais profundo que você já foi dentro de seu próprio Ser? Enxergou a sua luz e a sua escuridão, seus acertos, suas falhas, suas desistências e persistências, força e fraqueza, o amor e o rancor, a raiva e a calmaria, a alegria e a tristeza, a sua bondade e o seu egoísmo, todos os sentimentos ambivalentes, todas as dualidades humanas... Já vasculhou tudo o que há dentro de si mesmo?

Durante os poucos trinta e tantos anos de minha existência, já tendo divagado por diversos assuntos, e olhando em retrospecto, percebo que a vulnerabilidade ao ambiente em que vivemos ou passamos a maior parte do tempo, acaba por destruir muitas camadas do que realmente somos em essência. Nossas relações pessoais são o nosso maior teste, amar o outro e ser amado, ajudar o outro e ser ajudado, respeitar o outro e ser respeitado: pesos sempre iguais na balança? Neste emaranhado das relações, o que fazemos em vida permanece mesmo após a nossa morte, mas o que realmente fica? Se uma pessoa nos é agressiva no local de trabalho em um dado momento por exemplo, e se ela vem a falecer tempos depois, trataremos a sua memória como sendo a de uma pessoa grosseira, ou entenderemos que tal atitude teve a ver com o ambiente e com todo o acumulo de stress atraído? Consegue compreender a diferença quando isolamos um acontecimento? A vulnerabilidade ao ambiente no entanto, não nos isenta do fato de constantemente treinar o nosso autocontrole para não nos perdermos, não perdermos a essência com a qual viemos para este lado de cá,  em essência todos somos bons, se nossas camadas vão sendo destruídas, utilizemos da sabedoria para a reconstrução.

A nossa Verdade Interior, aquela que mostramos despidos de qualquer máscara, aquela que sabemos que carregamos quando estamos sozinhos diante de nosso próprio espelho, lembra? É esta "Verdade Interior" que precisa ser cuidada, zelada, que precisa estar constantemente limpa e não esquecida, ela precisa estar estampada em nossa feição. Qual lembrança de seu rosto quer deixar aqui? Minha feição, tem a ver com as minhas andanças, com as profundas experiências emocionais que tive,  com a intensidade com a qual vivo cada uma de minhas relações. Estas linhas na testa, estas marcas ao redor dos olhos, tem a ver com as bagagens que carreguei e com aquelas as quais descartei no meio do caminho. Eu tenho estrada e eu percorro todos os destinos dela, já andei em linha reta, já desviei a rota, já a sobrevoei, já atalhei e me perdi em diversos caminhos, tantas direções erradas que tomei, e no entanto, sempre me reencontro, e sigo. O meu histórico, carrego comigo.

Neste campo sagrado a qual tenho acesso em minhas crenças espirituais, eu reverencio toda a ancestralidade de meu próprio Ser. Tudo o que me trouxe até este momento presente e toda a possibilidade de vida ainda em frente, me torna pleno de gratidão. Siga seu tempo, inspire-se em histórias de pessoas que valham a pena, inspire-se em pessoas que valham a pena. Antes de seus olhos fecharem, abra-os para uma nova luz, porque sempre haverá uma nova luz, basta abrir os olhos da alma para enxergar: tendo feito, não a perca de vista!

Hora de descer da montanha.


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