segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Ponderamento obsoleto: Ser o que vim pra Ser

     Eu quero rasgar esta cartilha do "Ser maduro e sensato" que estou carregando em mim. Rasgar, despedaçar, embrulhar e jogar fora. Eu quero retornar ao meu "Eu" e quebrar as projeções do que os outros esperam que eu seja. Talvez nestes últimos tempos eu não tenha sido tão transparente assim, deixei guardada na gaveta esta bandeira que sempre prefiro erguer: a bandeira da transparência. E transparência tem a ver com verdade e cura: quero de volta as minhas verdades, só elas me libertam. Em tantas versões de mim mesmo, transitei por meus diversos lados e acabei por pairar nesta criatura cheia de ponderamento. Tal ponderamento serve mais aos outros do que a mim próprio, preciso torná-lo obsoleto.

     Alguma coisa em minha alma adoeceu e isso reverberou em problemas físicos de saúde, já são mais de trezentos e sessenta e cinco dias de tratamento pela baixa na imunidade que minha incapacidade de lidar com as aflições causaram, serão mais quantas existências até a cura? O tempo tem pesado em minhas escolhas: "eu queria ter sido", "deveria ter feito", " tinha de ter dito", "poderia ter ido", são frases que perambulam a minha cabeça sem que eu possa fazer absolutamente nada contra este passado tão próximo. Outro tempo de mudanças iniciou no agora, definitivo, pois as escolhas do presente moldarão tudo o que ainda está por vir. Num piscar de olhos passaram-se três anos em que não senti evoluir o quão eu precisaria, foi um tempo suficiente para perceber a estagnação da minha alma. Foi tempo demais sendo esmagado "pelo esperar dos outros", tempo demais sendo "o bom ouvinte", " a pessoa que sempre dá o seu jeito de entender", tempo demais sendo para as pessoas aquilo que elas podem usar quando lhes convém. Não sou tão altruísta assim, eu também preciso de mãos estendidas e de braços abertos. Embora não esqueça com quais braços sempre pude contar na prática - sem teoria - e sou grato por estes.

     Outro dia, assistindo a um vídeo da Monja Coen, em que ela fala sobre o lado positivo na perda de esperança, ela exemplifica comentando sobre que quando não há expectativa nenhuma, quando não há o que ganhar ou o que perder, a gente é o que é. A gente é o que é com as pessoas, em nossos relacionamentos. A expectativa me distanciou de algumas relações, quem sabe ainda a medida do amor foi dosada de forma desequilibrada. Colocar em primeiro lugar quem nos coloca em terceiro jamais resultará em uma relação benéfica seja de amor, amizade ou profissional. Menos, bem menos expectativas, muitos sábios já avisaram.     

    Uma alma sem memórias não retorna ao corpo: em quantos corpos ainda precisarei retornar para entender estas pequenas aflições do cotidiano e das relações de todos os tipos? Quanto tempo levamos para ser o que viemos para Ser? Não estou falando do que queremos nos tornar, e sim de ser quem realmente viemos para Ser. Nenhuma de minhas tantas buscas é mais importante do que esta: procurar em todas as minhas versões, aquela que aceitei como missão antes de chegar até aqui. Há um profundo silêncio e no silêncio nos descobrimos, nos ouvimos. Nesta etapa também percebi cada vez mais o quanto cada busca é inerente a pessoa, sendo que algumas buscas começam aos vinte anos, outras ainda mais cedo, algumas por sua vez após os cinquenta e há também aquelas já a beira de nossa partida deste plano.  Cada tempo vai estabelecendo a própria procura e o encontrar de cada coisa.

     Olho para meu rosto e vejo diversas marcas que ultrapassam a minha verdadeira idade biológica, transpareço mais velho, mas estas marcas traçam o mapa dos lugares por onde passei. Emocionalmente mergulhei em vários abismos, subi diversas montanhas, caminhei naquelas estradas retas, desviei alguns atalhos, sobrevoei próximo as nuvens e senti meus pés no chão. A vida é este traço alternado no gráfico imaginário de nossas experiências. E toda experiência transformadora é inteiramente pessoal e intransferível.

     E se há algo a mais que eu possa deixar registrado aqui como um vago conselho finalizando estes parágrafos que saíram sem muita direção embora com tantos sentimentos que havia guardado dentro de mim, é este: não permita que a sua presença aqui por este plano tenha sido em vão, aprenda a não dividir a sua vida entre momentos bons e ruins, entre prazer e dor, mas em experiências que se pode celebrar e experiências que se pode curar.  E uma vez que você for buscar o sentido da vida, não volte de lá nunca mais. 

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